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Vasco Gonçalves - Morreu aquele que nos queria no Campo Pequeno
- 11-Jun-2005 - 20:12
Mandam as regras do politicamente correcto (e para tal basta ver o que dizem, ou vão dizer, mesmo sem sentirem, alguns dos «nossos» políticos) que esta é a altura em que se devem esquecer algumas verdades... a bem da Nação (como diria Salazar). É que morreu hoje o antigo primeiro-ministro português Vasco Gonçalves. Esse mesmo que integrou a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA) e chefiou os II, III, IV e V Governos Provisórios, em 1974 e 1975. Esse mesmo que me quis mandar (a mim e a muitos, muitos outros que chegaram a Portugal com uma mão à frente e outra atrás) para o Campo Pequeno, tal era o peso do fardo que dava pelo nome de “retornados”. Mais uma vez terei de ser politicamente incorrecto.
Continuo a pensar que dizer o que pensamos ser a verdade é o melhor predicado dos Homens de bem. E o que penso ser a verdade não me permite elogiar um homem que, quanto a mim, traiu muitos portugueses e desonrou a Pátria que dele fez um alto dirigente.
Repito aqui o que, a propósito de Vasco Gonçalves, escrevi em 1976. Isto é, que nunca seria amaldiçoado pelos refugiados e retornados de África.
Isto porque todos eles detestam estar em longas filas.
Ao contrário dos políticos socialistas, comunistas, sociais-democratas e democratas-cristãos, a minha memória de Vasco Gonçalves não se diluiu com o tempo, pelo contrário.
O homem que nos quis mandar para o Campo Pequeno, foi o mesmo que matou e mandou matar africanos e que, tempos depois, transformou os que apelidava de terroristas em heróis.
É esse homem que agora vai ser elogiado por (quase) todos, como se, de facto, o seu passado não contasse, como se a guerra civil que Angola (por exemplo) nada tivesse a ver com as atitudes de Vasco Gonçalves.
E, para mim, isso não vale.
Certamente que os políticos que por aí andam a viver à grande e à francesa à custa dos nossos impostos vão falar de um «militar distinto» e de um «cidadão exemplar». Hipocrisia de muitos.
Hoje, com a hipocrisia habitual, faz-se crer que a História de Portugal só começou a ser escrita no dia 25 de Abril de 1974. Se assim fosse, não haveria grandes dúvidas: Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho, Rosa Coutinho, Víctor Alves, Vítor Crespo, Melo Antunes, Vasco Gonçalves (entre muitos outros) seriam heróis.
Acontece, contudo, que a História (e a memória) desta Nação começa muito, muito antes. E, por isso, falar de «militar distinto» e «cidadão exemplar» é atentar contra essa mesma História.
Para além, é claro, de aviltar a memória de militares e civis, brancos, negros e mulatos, que com sangue e com a vida ajudaram a escrever as suas páginas.
Orlando Castro
11 de Junho de 2005
orlando@orlandopressroom.com

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