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  Cabo Verde
Frustração de um «exílio» compensada com apoio a comunidade
- 3-Jul-2005 - 19:24


Na independência de Cabo Verde, Alcestina costurou a bandeira içada em São Vicente, mas a doença obrigou-a a deixar a tarefa de construção do país, abandono que compensou com quase uma década a apoiar a comunidade cabo-verdiana em Portugal.


Por Vera Magarreiro
da Agência Lusa

Alcestina Tolentino, presidente da Associação Cabo-Verdiana, faz um balanço dos 30 anos de independência de Cabo Verde, que se comemora terça-feira, 05 de Julho, realçando que a conquista maior do seu povo foi a "dignidade humana".

Esta dignidade, explica, resulta da "força de vontade de começar do zero" para construir um país, mesmo que isso não tenha resultado, ao fim de 30 anos, num bem-estar em termos de bens materiais para a generalidade da população.

A "exilada" Alcestina, 61 anos, lembra, com orgulho, as comemorações do primeiro 05 de Julho, quando, na noite anterior, costurou com uma amiga a bandeira nacional que foi içada em São Vicente, além de ter ajudado a preparar o desfile da independência.

Depois de estudar sete anos em Portugal, formando-se na área da assistência social, regressa a Cabo Verde tornando-se funcionária do hospital do Mindelo, com o sentimento de estar a abraçar uma missão patriótica de ajudar a construir o serviço de saúde.

Recorda que a maioria da população era analfabeta, ao contrário da ideia que se tinha em Portugal antes da independência, e nenhuma criança estava vacinada para qualquer doença.

Insuficiente renal, Alcestina viu-se obrigada a abandonar o trabalho em prol do desenvolvimento do seu país e a vir definitivamente para Portugal, em 1984, por precisar de hemodiálise, que não está disponível em Cabo Verde.

Ainda se lembra da conversa que teve com o primeiro-ministro da altura, o actual presidente cabo-verdiano, Pedro Pires, transmitindo- lhe a sua frustração por considerar que pouco tinha sido feito.

Hoje, à distância de 20 anos, pensa que afinal "talvez tenha ajudado a construir alguma coisa".

Na última vez que esteve em Cabo Verde, apenas por 48 horas, verificou que "já ninguém anda descalço", como na sua infância, quando só usava os sapatos "para ir à escola ou à missa de domingo".

Alcestina destaca ainda que a maioria das crianças em Cabo Verde frequenta a escola, porque "há um grande investimento do governo na Educação".

Esta não é, no entanto, lamenta, a realidade da comunidade cabo- verdiana em Portugal, registando-se uma falta de interesse dos jovens, que abandonam a escola muito cedo, agravada pela falta de estímulo dos pais, que também não tiveram essa base.

Os pais, a maioria chegada a Portugal ainda no tempo colonial para trabalhar nas obras públicas, são analfabetos ou apenas sabem assinar e, porque trabalham todo o dia, não têm tempo ou interesse em estimularem os filhos a estudar.

Por seu lado, os filhos, muitos já nascidos em Portugal, sentem- se estigmatizados e pouco integrados na sociedade portuguesa, passando o dia nas ruas, abandonados à sua sorte.

"Abrem-se as portas ao disparate e à marginalidade, mesmo quando entram neste caminho apenas numa de provocação, de chamar a atenção", acrescenta.

Alcestina defende que a realidade da comunidade cabo-verdiana hoje prende-se com a falta de apoio desde o início, quando se começaram a concentrar em bairros de barracas, construídos nos arredores de Lisboa, perto dos locais onde trabalhavam.

Esta comunidade foi crescendo porque promovia o reagrupamento familiar, mas, durante muitos anos, permaneceu ignorada pela sociedade portuguesa.

"Quando começaram a aparecer as grandes superfícies comerciais na zona da Amadora quebrou-se o muro de arame farpado, que não existia, mas era como se estivesse lá, que mantinha os jovens nestes bairros", lembra.

Os jovens começaram então a sair, atraídos por uma realidade que não conheciam, além de terem a oportunidade de "ganhar umas moedas" com os carrinhos das compras.

Alcestina diz que acompanhou esta realidade que justifica o facto de os jovens oriundos destes bairros se reunirem hoje em centros comerciais ou transportes públicos, consideradas "zonas de ninguém" e onde se sentem "à vontade".

A presidente da associação considera a falta de aposta na escolarização como "um passo atrás", que, numa idade crucial, influencia toda a vida destes jovens e aumenta o estigma de que são alvo, porque "faltando a base, falta-lhes tudo".

Este estigma é alimentado, considera, por imagens que "chegam às nossas casas pela televisão", referindo-se aos acontecimentos recentes das notícias do alegado arrastão em Carcavelos ou imagens da CP de um assalto no comboio.

Alcestina defende que os jovens precisam sobretudo de "disciplina" e diz que, "é preciso apostar seriamente numa educação adaptada".

Já tentou recolher apoios do Estado para criar uma escola que responda a necessidades específicas, mas sem sucesso porque as únicas hipóteses são o ensino recorrente ou a formação profissional.

"Quanto ao ensino recorrente, ninguém obriga estes jovens a sentarem-se numa carteira de escola para aprender e a formação profissional destina-se apenas a maiores de 18 anos", lamenta.

A presidente da Associação Cabo-verdiana defende assim que a solução é "cansá-los fisicamente" primeiro, com trabalho prático, e metê-los a estudar depois, para perceberem o que aprenderam na prática.

"Se começasse um ano lectivo com 30 e chegasse ao fim com apenas 10 já seria uma grande vitória", refere, lamentando, no entanto, que para muitos este tipo de solução possa já não vir "no tempo certo", embora possa ainda "prevenir algumas situações" como, por exemplo, "irem parar à prisão".

"A prisão é a escola de tudo o que é anti-social e um mundo de que dificilmente saem", considera.

A criação desta escola seria uma "vitória" que Alcestina já não deve alcançar enquanto presidente da associação, dado que está quase a terminar o seu terceiro mandato de três anos e não se recandidata a um quarto por considerar que já deu o seu contributo.

Quando chegou a Portugal, Alcestina recorda a "alteração muito violenta" na sua vida, com "três filhos menores para apoiar e uma esperança de vida limitada".

O que mais a impressionou foi a diferente "noção do tempo".

"Aqui toda a gente passa o dia a correr e parece que para lado nenhum", enquanto em Cabo Verde "há tempo para ir almoçar a casa, tomar um duche e mudar de roupa, dormir a sesta ou ir à praia".

Do seu país, sente falta do cheiro da terra, "que parece se entranha na pele".

Mas do que sente mais saudades é o "acordar em Cabo Verde".


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