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  Cabo Verde
Após o sonho Europeu
Portugal verá o pesadelo

- 8-Aug-2005 - 12:51


Afirma Orlando Castro numa entrevista a Patrisia Ciancio e que integra um trabalho apresentado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Patrisia Ciancio apresentou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para o Curso de História das Relações Internacionais, uma Monografia sobre «A Língua Portuguesa Como Veículo de Aproximação Entre os Países Lusófonos». Para este trabalho a autora entrevistou diversos especialistas na Lusofonia, entre os quais o Jornalista Orlando Castro, o nosso colunista responsável pela secção Alto Hama, para quem “Portugal está adormecido com o sonho europeu, esquecendo que a sua História está também e sobretudo em África”, pelo que, “quando acordar, vai ter um enorme pesadelo”. Sobre o Acordo Ortográfico, Orlando Castro afirmou que “para os africanos que passam fome, e são muitos milhões, não interessa como se escreve comida. Querem é comida”.


Com redobrado prazer, transcrevemos a entrevista que Orlando Castro deu a Patrisia Ciancio no âmbito do referido trabalho apresentado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

1. Existe um uso mal conduzido da Língua Portuguesa por parte das diplomacias brasileira e portuguesa em alinhavar uma política externa estratégica mais efetiva, através da valorização do idioma?

De uma forma geral, Portugal e Brasil continuam a valorizar o acessório e a subestimar o essencial. Por isso, julgam que o idioma (eu prefiro falar da língua) é algo que não precisa de ser alimentado, que não precisa de ser valorizado. É pena. Por este andar, não tardará muito que a Lusofonia dê lugar à francofonia ou a outra fonia qualquer. Em vez de se potenciar a língua como o principal elo de ligação, como factor decisivo de todas as outras vertentes da sociedade globalizada, estamos a pensar que essa é uma vitória eterna. E não é.

2. Em entrevista com o presidente da ABL, Alberto Costa e Silva, que inclusive foi embaixador em Portugal, ele me disse que o Português hoje cresce mais do que o francês, por exemplo, e que é uma das grandes línguas de cultura deste século. O senhor concorda?

Não. Não concordo. O português não está a crescer. Está a aguentar-se. Apenas isso. E até mesmo em matéria cultural, não é uma das grandes línguas, embora se tivesse engenho e arte lá pudesse chegar. Não se pode olhar o Português virando os olhos para o umbigo do Brasil. Nas comunidades de origem portuguesa, as novas gerações pouco ou nada falam português. Nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) assiste-se ao legítimo proliferar dos dialectos locais e ao galopante êxito do inglês. O Português tenderá (se nada for feito) a ser apenas uma língua residual.

3. Qual é o grau de importância do Acordo Ortográfico para os países a CPLP? Até que ponto é necessário?

Pouca ou nenhuma importância tem. Basta olhar para a sua forma de escrever e, é claro, para a minha. Aliás, até pelo número de falantes, todos acabaremos por falar e escrever o português do Brasil. Assim, deveríamos deixar que a língua fosse cada vez mais viva e seguisse o seu trajecto natural. Desde logo porque todos nos entendemos, mesmo que utilizemos grafias diferentes. Creio até que o Acordo Ortográfico não passará de uma forma de amordaçar a língua, limitando a criatividade de que o Brasil é um soberano exemplo.

4. Em outra pergunta ao já referido presidente da ABL, questionei quais seriam os reais rumos do Acordo Ortográfico. E ele me respondeu que está na dependência talvez de uma ação política de Portugal, Brasil e Cabo Verde para que os demais países ratifiquem seus termos. Como o senhor acha que isso poderia ser conduzido?

Do meu ponto de vista deveria ser pura e simplesmente anulado. A língua portuguesa deveria fluir de forma natural, ao sabor de cada país que - por várias razões - tem palavras diferentes, grafias diferentes e vivências diferentes. Já reparou que os meus netos podem não ter um único dos meus nomes? Deixarão por isso de ser meus netos? Não. É claro que não. E não vale a pena criar um Acordo para que tenham.

5. Existe algum estudo sobre o surgimento do termo lusofonia? Como surgiu, sua história, o que significa hoje e o que pode vir a significar um dia?

Não conheço nenhum estudo sobre o surgimento do termo. No entanto, a Lusofonia começa a surgir depois da independência dos países africanos de língua portuguesa, há 30 anos, na linha - por exemplo - da francofonia. Significou, significa e significará a tentativa de definir um conjunto de países que têm em comum a língua, língua essa originária de Portugal, o país dos Lusitanos, sendo que Luso significa português. No futuro poderá (poderia) significar muito mais, não estivesse Portugal refém da União Europeia e o Brasil da América Latina.

6. Por que Brasil e Portugal não exportam a Língua Portuguesa (e com ela hábitos e costumes) estimulando seu ensino em outros países, em uma ação conjunta, assim como a Aliança Francesa fez ao longo dos tempos com seus centros de cultura? Isso por um lado seria transformar os valores culturais em mercadoria, mas não deveria haver uma propaganda maior dessa riqueza? Quais são os maiores divulgadores da Língua Portuguesa hoje (as novelas, a música, esportes como a capoeira etc)? E em termos de ação governamental, o que é feito para difundir o idioma?

Ao contrário do que fazem franceses e ingleses, os portugueses e os brasileiros (mais os lusos) têm por hábito deixar para amanhã o que deveriam ter feito ontem. Não existe, na língua como noutros sectores, uma conjugação estratégica de objectivos. Cada um rema para o seu lado e, é claro, assim o barco comum (a Lusofonia) não chega a nenhum porto. Há projectos sobrepostos, e muitas áreas onde ninguém chega. Ninguém não é verdade. Chegam os ingleses e os franceses. É claro que, pela sua universalidade, as canções são o maior veículo de difusão. Mas isso só não chega. Conheço gente em Angola que canta as canções do Roberto Carlos mas que, de facto, não sabe falar português. A CPLP deveria ser o organismo que, por excelência, poderia divulgar a língua. Está, contudo, adormecida. Quando acordar verá que a Lusofonia já morreu...

7. Portugal está muito mais voltado para a Europa, no caso. Mas o senhor enxerga alguma possibilidade de intensificar a relação entre os países da CPLP, e o Acordo Ortográfico não seria um bom começo para selar uma maior cooperação?

É claro que o futuro de Portugal passa também, eu diria essencialmente, por África. Acontece que, nesta altura, a União Europeia continua a mandar muito dinheiro para Portugal. E, ao contrário de outros tempos, Lisboa não está interessada em dar luz ao mundo. Ao contrário de muitos outros países que estão na UE mas também em África, Portugal está adormecido com o sonho europeu, esquecendo que a sua História está também e sobretudo em África. Quando acordar vai ter um enorme pesadelo. Não creio que o Acordo Ortográfico seja útil. Para os africanos que passam fome, e são muitos milhões, não interessa como se escreve comida. Querem é comida.

8. A Língua Portuguesa possui grande impacto mundial? Será que não precisa ser defendida com uma política agressiva? Quem tem mais força e vontade política para levantar esta bandeira, Brasil ou Portugal?

Possui algum impacto mundial, mais por força e graça dos outros do que por trabalho dos que falam português. Ou seja, a China – por exemplo – está a preparar muitos dos seus melhores quadros para que dominem a língua portuguesa. Fazem-no para conquistar os mercados lusófonos. Nada mais do que isso. É claro que deveria haver acções conjugadas para semear a nossa língua, independentemente de eu escrever "acção" e você escrever "ação" . Mas isso não existe. De uma forma geral, todos continuamos à espera que o burro aprenda a viver sem comer. Mas, quando olharmos para o lado, vamos ver que quando o burro estava quase a saber viver sem comer... morreu. Acredito que ou o Brasil, pela sua expressão numérica de gente que fala português e pela sua qualidade de potência mundial, dá uma ajuda decisiva ou, então, não vamos a lado algum.

9. Portugal e Brasil têm uma relação diplomática hoje forte o suficiente para abraçar a questão da Lusofonia?

Têm uma relação diplomática (entre outras) bem forte. No entanto, têm igualmente interesses diferentes e estratégias às vezes antagónicas. Por isso continuo a pensar que o Brasil têm de ser a locomotiva que fará vencer a Lusofonia. Se o Brasil parar, sejamos claros, Portugal não tem pernas para andar.

10. Os demais países da CPLP, africanos, por exemplo, não ficam de certa forma às margens de todo esse processo, não somente do Acordo Ortográfico, mas de tudo o que pode representar a criação de um bloco lusófono de relevância no sistema internacional?

Ficam e estão à margem. Desde logo porque ainda existe, dos dois lados, o complexo do colonizador e do colonizado. Portugal ainda não percebeu que foi o «pai» mas que os «filhos» já são independentes. Os países africanos ainda não compreenderam que o «pai» errou em muitas coisas mas que não é por isso que deixou de ser «pai». Mais uma vez terá de ser o Brasil a mostrar o caminho e a dar a oportunidade ao muito, muito mesmo, que esses países têm para dar à causa da Lusofonia.

11. Depois de 60 anos de tentativa de consolidação, por que o senhor acha que o Acordo Ortográfico até hoje não foi firmado?

Porque não serve para nada. O português do Brasil (um pouco também à semelhança dos países lusófonos da África) é uma língua viva e todos os dias rejuvenescida. Ao contrário, em Portugal é uma língua fechada, parada. É portanto, difícil harmonizar (não na lei mas na prática corrente) uma forma de escrever. Não creio, aliás, que essa harmonização seja necessária.

12. Gostaria que o senhor comentasse o trecho de uma das respostas feitas ao Sr. Alberto Costa e Silva: "Quando os portugueses proclamaram a república em 1910 fizeram uma lei mudando e facilitando a ortografia para fins de alfabetização. A ortografia era considerada muito complicada, que dificultava a alfabetização. Então, impuseram por lei uma nova ortografia. Ora, as leis feitas para Portugal eram válidas somente para Portugal e não para o Brasil, os legisladores portugueses não podiam legislar sobre uma língua que não era só propriedade deles, era co-propriedade do Brasil. Então, o que aconteceu, nós tivemos que fazer a nossa ortografia. Então, desde então, temos discutido com os portugueses para unificar esta ortografia. Isso é algo extremamente curioso, porque sem nenhuma razão ou antecedentes disso, a ortografia da Língua Portuguesa passou a ser ditada por decreto, por leis de governo".

De facto é assim. E não há decreto que nos valha quando, cada vez mais, a Língua Portuguesa é alimentada e forma diferente de acordo com cada uma das realidades sociais, económicas, culturais etc. dos países onde está instituída e que, ainda por cima, estão geograficamente tão separados.

Observações adicionais colocadas de maneira espontânea por Orlando Castro:

A Lusofonia, essa realidade que em muito ultrapassa os 200 milhões de cidadãos em todos os cantos do planeta, parece condenada a ser ultrapassada, ou até mesmo aniquilada, por qualquer outra fonia. Tudo porque Portugal, mais do que dar nova luz ao Mundo, parece preocupado apenas com os limites físicos das ocidentais praias lusitanas. Portugal não pode (ou, pelo menos, não deve) esquecer que tem responsabilidades na defesa e na divulgação de uma língua que faz História. Esquecer, ou lembrar uma vez por ano, todos aqueles que dão corpo e alma à Lusofonia não passa de um vil crime. E é um crime porque, afinal, é preciso que Portugal trabalhe para os milhões que têm pouco e não, como vai acontecendo, para os poucos que têm milhões.

Parafraseando Luís de Camões, em português se canta o peito ilustre lusitano e, na prática, importa recordar que a ele obedeceram Neptuno e Marte. Além disso, importa dizê-lo, manda cessar (se para tal todos os lusófonos tiverem engenho e arte) «tudo o que a Musa antiga canta».

Quando será que, de forma consciente e consistente, Portugal entenderá que «outro valor mais alto se alevanta»?

Por culpa (mesmo que inconsciente) dos poucos que não vivem para servir e que, por isso, não servem para viver, continuam os milhões que se entendem em português a comer e calar, amordaçados pela mesquinhez dos que se julgam detentores da verdade.

É claro que, como em tudo na vida, não faltarão os que dirão que não é possível entregar a carta a Garcia. Dirão isso e, ao mesmo tempo, apontarão a valeta mais próxima. A História do Mundo desmente-os. A História de Portugal desmente-os. Além disso, não custa tentar o impossível, desde logo porque o possível fazemos nós todos os dias.

Mas não será com esses que se fará a História da Lusofonia apesar de, reconheço, muitos deles teimarem em flutuar ao sabor de interesses mesquinhos e de causas que só se conjugam na primeira pessoa do singular.

Para mim a Lusofonia deveria ser um desígnio nacional. Defender esta tese é, provavelmente, pregar paras os peixes. Mas, creio, vale a pena continuar a lutar. Lutar sempre, apesar da indiferença de (quase) todos os que podiam, e deviam, ajudar a Lusofonia.

Será desta? Não creio. Até agora continuam a ser mais os exemplos dos que em vez de privilegiarem a competência preferem a subserviência.

Um amigo, também ele apaixonado pela Lusofonia, fez-me o retrato do que entende ser o mal da nossa (lusófona) sociedade:

«Quem trabalha muito, erra muito; quem trabalha pouco, erra pouco; quem não trabalha, não erra; quem não erra... é promovido».

Será? Pela experiência, creio que é mesmo assim. No entanto, penso que não poderá continuar a ser assim, a não ser que queiramos ver a Lusofonia substituída pela Francofonia ou por outra qualquer fonia.

Será isso que, por exemplo, os políticos das pátrias que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa querem que aconteça? Será isso que os empresários querem que aconteça?

Cá estamos para ver, esperando que não se repita a história do burro que quando estava quase a saber viver sem comer... morreu.

E se cá estamos para ver, também cá estaremos para dizer quem foram os que estavam a cantar no convés enquanto o navio se afundava.

Resta-me acreditar (continuar a acreditar) que a Lusofonia pode dar luz ao Mundo e que, por isso, não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar.

Para este trabalho foram entrevistados cinco especialistas no assunto lusofonia:

O então presidente da ABL - Academia Brasileira de Letras, Alberto Costa e Silva; o criador do Fórum Lusófono, Helder Sanches; Tânia Pego, professora brasileira de Literatura que mora Portugal; Orlando Castro, jornalista; e o professor Teotonio de Souza, diretor do Departamento de História da Universidade Lusófona, Lisboa.


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