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Garantir o futuro apostando na sombra
- 24-Aug-2005 - 16:00
Durão Barroso prometeu (e logo se viu que não era para cumprir) um choque fiscal. Santana Lopes prometeu (e logo se viu que não era para cumprir) acabar com a crise. José Sócrates prometeu (e logo se viu que não era para cumprir) não aumentar os impostos. Ou seja, de promessas os portugueses têm a barriga cheia. Enquanto isso, o país continua a arder, os pobres continuam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, o futebol (tal como o fado e Fátima) regressou para contentamento de uns tantos. Mas nem tudo são desgraças. Afinal o primeiro-ministro já regressou de féria...
Por Orlando Castro
Só quem não quer fazer coisas sérias neste país é que não percebe que, afinal, o que Portugal precisa é de um potente choque mental, algo que se vislumbrou com a vitória do PS mas que, infelizmente, desapareceu logo que o Governo abriu a boca. Assim como estamos (e ao que parece vamos continuar na mesma) não vamos levar a carta a Garcia... mesmo que o general esteja ao dobrar da esquina.
A caminho de eleições autárquicas e presidenciais, Portugal continua a ver um filme que já se fartou de ver, com o regresso ou continuação dos "velhos" generais que, bem vistas as coisas, já há muito deveriam estar na reforma.
Portugal não está em situação que permita testar novos oficiais? Para além de me parecer que esses generais tipo Mário Soares não conhecem os seus soldados (o povo português, entenda-se), creio até que alguns deles só chegaram a tal patente por serem afilhados do chefe do Estado Maior. Se assim não fosse, talvez ainda hoje fossem sargentos (na melhor das hipóteses).
Seja como for, o que Portugal precisa é de uma estratégia (ou desígnio) que valorize quem tem ideias e não quem diz que as tem. Que institua o primado da competência independentemente da filiação partidária e das cunhas. Será isso que vai acontecer? Tudo leva a crer... que não.
É certo que a procissão ainda vai no adro. No entanto, o problema é bem mais extenso. Não se resume a pessoas. Assenta na mentalidade de quem dirige o país e, também, de quem faz oposição. E esses não são, necessariamente, os ministros e os secretários de Estado.
São, sobretudo, aqueles que comandam a economia, que dão emprego aos políticos, e os poderes paralelos que ditam as regras do jogo e que, tantas vezes, as alteram quando mais convém. São as grandes empresas, as associações empresariais, as fundações e outros similares que proliferam na sociedade desta República.
Garantem-me que Belmiro de Azevedo afirmou (pelo menos uma vez) que "um subalterno tem o dever de questionar uma ordem do chefe e, se for o caso, dizer-lhe que não é suficientemente competente". Se calhar essa foi uma das regras que originou o êxito deste empresário.
Belmiro sabia (será que ainda sabe?) que um chefe não é só o que manda - é sobretudo o que dá o exemplo. Sabia que a crítica não significa desobediência. Sabia que tinha de se rodear de massa crítica, pois para dizer sempre que "sim" bastava-lhe a própria sombra.
Se olharmos para o Governo e também, é claro, para a Oposição), vemos que todos estão cheios de "sombras". "Sombras" que vivem religiosamente à custa das bençãos, das cunhas, e dos padrinhos que, por regra, já chegaram a chefes do Estado Maior.
Com um país assim, onde são (quase) sempre os mesmos a ter acesso ao poder, sendo todos os outros relegados para fora de jogo, só há duas possibilidades: ter ideias e ser marginalizado, ou ser sombra e filiar-se no PS ou no PSD. Mais dias menos dia o poder bate à porta.
Cá por mim, nem sombra nem filiação. É por isso, como diz o bom Povo português, que não passo da cepa torta.
orlando@orlandopressroom.com
24.08.2005

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