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Em Angola ainda se morre antes de nascer
- 27-Aug-2005 - 19:29
Se não for possível deixar às gerações vindouras, nomeadamente às que têm no corpo e na alma a utopia eterna da lusofonia, algum património, ao menos lutemos para lhes deixar algo mais do que a expressão exacta da nossa cobardia. Como jornalista, como angolano, como ser humano, entendo que a situação angolana ultrapassa todos os limites, mau grado a indiferença criminosa de quem, em Angola ou no Mundo, nada faz para acabar com a morte viva que caracteriza um povo que morre mesmo antes de nascer.
Por Orlando Castro
E morre todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos. E morre enquanto aqui em Portugal, se canta e se ri (como no tempo anterior ao 25 de Abril). E morre enquanto outros, em Luanda, comem lagosta.
Creio, aliás, que o próprio José Eduardo dos Santos tem consciência de que o actual estado das coisas não é uma solução para o problema angolano, é antes um problema para a solução. No caso da UNITA, tenho a certeza de que Isaías Smakuva tem a mesma consciência.
Assim sendo, é pequeno o passo que é preciso dar para que os angolanos, irmãos de sangue, deixem de falar de costas uns para os outros, deixem de transformar Angola numa gigantesca vala comum de miséria e fome.
Até agora, cada um ao seu estilo, Eduardo dos Santos e Samakuva teimam em confundir a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras. Teimam em esquecer que, afinal, num país onde não há pão... todos matam e todos morrem sem razão.
E como se isso não fosse suficiente, os outros (sobretudo Portugal) teimam também em confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, achando legítimo que uns vivam à grande e à francesa e outros morram, achando que uns são os bons e os outros os maus, quando - reconheça-se - nesta situação todos são maus.
Angola tem generais a mais e angolanos a menos. Angola tem minas que chegam para encher durante um século os cemitérios. Angola tem feridas suficientes para ocupar os médicos (que não tem) durante décadas.
Portugal pode, Portugal deve, Portugal tem a obrigação de ajudar os angolanos a encontrar uma solução. Portugal pode, nesta matéria, encontar um imperativo nacional para voltar a sentar à mesma mesa os responsáveis angolanos, já não para encontrar a paz mas para, em paz, desenvolver o país.
orlando@orlandopressroom.com
27.08.2005

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