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Jornalistas,
a estrada
da Beira
e a beira
da estrada

- 2-Oct-2005 - 22:35

O Sindicato dos Jornalistas, que representa alguns profissionais (onde me incluo) mas não necessariamente aqueles que têm cargos de chefia, reagiu violentamente ao que chama “as intoleráveis intromissões do poder político e pessoal do presidente do Governo Regional da Madeira (Alberto João Jardim) na orientação editorial” do “Jornal da Madeira”, conforme foi noticiado pelo jornal “Público” de ontem. Mais uma vez se confunde a estrada da Beira com a beira da estrada. Fala-se da árvore mas esquece-se a floresta. E assim não vale.

Por Orlando Castro

O SJ, que considera a “situação muito grave”, apela em comunicado à intervenção do Presidente da República, da Assembleia da República e da Alta Autoridade para a Comunicação Social, ainda em exercício de funções, para apurar responsabilidades e sanar este atentado ao “princípio da independência dos órgãos de informação do Estado”.

Que é um atentado todos nós sabemos. Mas é um atentado cujo autor é conhecido e que deixou a sua impressão “patal”. E os outros atentados? Os “anónimos”, os de “fonte segura”, os de “fonte próxima”?

Do Partido Social Democrata espera o SJ que se demarque “formalmente deste comportamento” de Alberto João Jardim e que o condene “sem ambiguidades como atentatório da liberdade de expressão e violador do princípio da independência dos órgãos de informação perante o poder político”.

Sejamos francos. De vez em quando (embora devesse ser sempre) não nos fica mal. O SJ sabe bem que, directa ou indirectamente, em nome pessoal ou do partido, em nome pessoal ou da empresa anunciante, são cada vez mais as “intromissões” de terceiros (quando não de quartos ou quintos) nos conteúdos editoriais das empresas comerciais que vendem jornais, sejam ou não do Estado.

Por alguma razão se fala cada vez menos de Jornalistas e cada vez mais de produtores de conteúdos.

O SJ apela a todos os jornalistas da Região Autónoma da Madeira para “que redobrem a sua vigilância em relação a comportamentos ou actos que ponham em causa o seu compromisso de independência face aos poderes e possam hipotecar a confiança que o público neles deposita”.

Sejamos francos. De vez em quando (embora devesse ser sempre) não nos fica mal. Os jornalistas, sejam da Madeira, de Lisboa ou do Porto, se quiserem ser vigilantes vão trabalhar para a Securitas. Para serem jornalistas vigilantes, como muito bem sabe o SJ, vão para o olho da rua.

Além disso, dando de barato que a vigilância deontológica, ética etc. era possível, as “intromissões” não passam nem pelas Redacções nem pelos Jornalistas. Vão directas a quem manda.

Sejamos francos. De vez em quando (embora devesse ser sempre) não nos fica mal. Nesta matéria não há só um criminoso. Há, pelo menos, dois. O que corrompe e que se deixa corromper. E, neste caso, um deles é Jornalista (?). Se calhar até tem Carteira Profissional, se calhar até é sócio do Sindicato.

Não seria preferível limpar (ou acabar de vez) primeiro a “classe” e só depois acusar os outros?

02.10.2005
orlando@orlandopressroom.com


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