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Jornalistas
- Salvos
pela crítica
ou assassinados
pelo elogio?

- 6-Oct-2005 - 17:56

A propósito do texto anterior (Jornalistas, a estrada da Beira e a beira da estrada), têm sido alguns, não tantos quanto eu gostava, os que me escreveram, na sua maioria batendo-me forte e feio. Quase todos se interrogam porque razão só agora me lembrei disto. Como alguém disse, a memória é curta. O texto que se segue foi publicado em 21 de Maio de 2001. É que, mais uma vez, as palavras voam mas os escritos permanecem. Mas há mais. Se alguém quiser acreditar que é melhor ser salvo pela crítica do que assassinado pelo elogio, é só dizer.

Por Orlando Castro

«Não se é Jornalista sete ou oito horas por dia, a uns tantos euros por mês. É-se Jornalista 24 horas por dia, mesmo estando desempregado". Se não for possível deixar às gerações vindouras algum património, ao menos lutemos, nós os jornalistas, para lhes deixar algo mais do que a expressão exacta da nossa incompetência e cobardia. Porque não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar, permito-me a ousadia de tentar o impossível já que - reconheçamos - o possível fazemos nós todos os dias: Escrever, ao correr do teclado, sobre Jornalismo, Jornalistas, comércio jornalístico, produtores de conteúdos etc.


Há já muitos anos, a Jornalista Fernanda Leitão dizia que na profissão de Jornalista a única tarefa humilhante é a que se realiza com mentira, deslealdade, ódio pessoal, ambição mesquinha, inveja e incompetência. E já que falo de algumas das máximas que me foram ensinadas, permitam-me que recorde mais algumas: Um Jornalista nunca (nunca) vende a sua assinatura para textos alheios, tantas vezes paridos em latrinas demasiado aviltantes.

Se o Jornalista não procura saber o que se passa no cerne dos problemas é, com certeza, um imbecil. Se o Jornalista consegue saber o que se passa mas, eventualmente, se cala é um criminoso.

Muitas vezes diz-se que "isto é verdade" porque vinha no Jornal «X». Será que actualmente a Comunicação Social portuguesa continua a ter credibilidade suficiente para que os leitores assumam como verdadeira qualquer coisa que neles seja divulgada? Embora verdade (mais verdade ontem do que hoje), esta constatação tende (na minha opinião) a diluir-se pela perda de credibilidade do produto jornalístico que, cada vez mais, deixou de ser uma referência e passou a ser uma correia de transmissão de interesses cada vez menos claros.

E deixou porquê? Quem hoje compra um Jornal, vê televisão ou ouve rádio, para entender o que se passa, recebe apenas uma informação generalizadamente massificada, despersonalizada, or ser suportada (regra geral) por informações veículadas por agências noticiosas ou de propaganda, por gabinetes ditos de imprensa e por fontes mais ou menos anónimas.

Quem analisar a Imprensa portuguesa encontra, na maioria dos casos, pouca informação, rara formação e quase nula investigação. Por outras palavras. A Imprensa (no seu mais lato sentido) deixou de ter a sua própria personalidade jornalística, travestindo-se de acordo com o que os outros produzem, com o que os outros dizem e, o que é mais grave, com o que os outros querem que ela diga.

Aliás, não deve haver na história de Imprensa mundial melhores jornalistas especializados no que os outros querem que eles digam, do que os portugueses (salvam-se algumas honrosas excepções). Acresce, para mal dos nossos pecados (digo eu), que complementarmente quando os trabalhos não são das tais multifacetadas (mas sempre comerciais) agências são da responsabilidade de estagiários, colaboradores ou correspondentes.

Isto acontece ainda porque, dada a precaridade profissional, a grande maioria aceita fazer tudo o que o «chefe» manda (mesmo sabendo que este para contar até 12 tem de se descalçar), este aceita fazer tudo o que o director manda, este aceita fazer tudo o que a Administração manda, e esta aceita fazer tudo o que dê lucro.

Então onde param os Jornalistas? Cada vez mais a máquina comercial que comanda a Imprensa impõe regras que fazem dos jornalistas uma espécie em extinção e que tende a ser substituída pelos autómatos de serviço nas redacções. Creio que lhes chamam produtores de conteúdos.

Também nesta profissão e ao contrário do que é meu entendimento (provavelmente errado), os bons exemplos não partem de cima. E não partem porque sempre que sobem na hierarquia os Jornalistas vão mudando de profissão: deixam de ser jornalistas e passam a ser Coordenadores, Editores, Editores Executivos, Directores etc. E se os exemplos não partem de cima, a responsabilização pelo que de mau se faz também não é assumida dessa forma. A cadeia descendente de Comando só existe para o que é bom...

Embora admita que possa estar errado nesta interpretação, permito-me apresentar alguns argumentos de defesa que possam, eventualmente, ajudar a um veredicto que me seja favorável. Se o chefe é o primeiro a chegar e o último a sair, os seus colaboradores ficam sem margem de manobra para chegarem mais tarde e saírem mais cedo. Se o chefe dá o exemplo de capacidade de trabalho, os seus colaboradores têm (mesmo que isso lhes custe) de entrar na mesma onda. Se o chefe premeia a competência e penaliza a incompetência (porque não basta só a primeira ou só a segunda), os incompetentes ou «dão da perna» ou sujeitam-se a entrar para o «carro vassoura». Se o chefe o for de forma natural, a sua posição é respeitada e incentivada pelos seus colaboradores. Se o chefe for imposto por decreto (leia- se: sem ser por critérios de competência), os seus colaboradores não passarão de voluntários devidamente amarrados, o que - inevitavelmente - terá (maus) reflexos no trabalho que produzem.

Um Chefe, penso, não é apenas o que comanda mas, sobretudo, o que dá o exemplo. Pensar-se que se é bom chefe só porque se usa gravata ou porque alguém lhes deu o título, é, mais ou menos, como pensar que se é pintor só porque se conhecem as cores do arco-íris.

Entendo esta actividade da seguinte forma: Estamos todos os dias em cima de um tapete rolante que anda para trás. Se (como hoje acontece em muitos dos jornais grandes, que não nos grandes jornais) nos limitarmos a caminhar, ficamos com a sensação de que avançamos mas, de facto, estamos sempre no mesmo sítio. Por isso, numa economia de mercado são estas as regras, temos de correr para ganhar diariamente alguns metros ou, no mínimo, para não perdermos terreno.Infelizmente isso não acontece. Não acontece e, muitas vezes, a metodologia adoptada ainda é muito pior.

Por descuido (seria mais exacto dizer por incompetência), acontece que os «chefes» ao verem o tapete a andar para trás julgam que vão no direcção errada e começam a caminhar no sentido da rotação do tapete... Reconheçamos (e isso só nos fica bem) que muitos de nós para esconder as meias rotas preferem não tirar os sapatos. Enquanto uns entendem que a única forma de se valorizarem é aprenderem com quem sabe mais (e saber que nada sabemos é a melhor forma de sabermos alguma coisa), outros pensam que essa suposta valorização passa por amesquinhar quem sabe mesmo mais.

Enquanto uns perguntam o que não sabem, e só são ignorantes durante o tempo que leva a chegar a resposta, outros (receosos que se saiba que, afinal, não sabem tudo) preferem ficar ignorantes toda a vida.

De uma forma geral, as chefias desconhecem a realidade humana das secções que comandam o que, creio, está errado. Está errado porque esse desconhecimento pode levar (leva muitas vezes) a que um especialista em matraquilhos seja seleccionado para a equipa de futebol e o futebolista integre a equipa de ténis. De facto não é, caricaturalmente, exequível formar uma equipa de basquetebol com jogadores de futebol e treinada por um ex-ciclista. Com a agravante de o treinador não ter a coragem de assumir que não percebe nada de basquetebol e, por isso, resolver que os jogadores devem levar bicicletas para o campo.

Se as chefias conhecessem o trajecto profissional dos seus redactores e as temáticas para as quais estão mais sensibilizados poderiam, creio, rentabilizar muito melhor todo o potencial de cada um. Se assim não for, corre-se o risco (infelizmente generalizado) de pôr alguém a quem falte uma mão a jogar basquetebol, quando essa deficiência não seria importante se esse alguém estivesse a jogar futebol.

Como se dá mais (ou até exclusivo) valor à subserviência do que ao primado da competência, o Jornalismo é cada vez mais uma rampa de lançamento para as assessorias políticas e empresariais. Enquanto eu entendo (estupidamente em termos práticos) que não preciso de ninguém à minha volta que esteja sempre de acordo comigo - para isso basta-me a minha sombra -, a filosofia reinante é antagónica. Quanto mais vezes se estiver de acordo, mais possibilidades se tem de «êxito».

É claro que gosto muito da palavra «sim». Mas gosto igualmente, e pelo menos na mesma proporção, da palavra «não» o que é, reconheço, uma «chatice». «Chatice» agravada por um mundo onde a regra é dizer ao mesmo tempo: sim, não, talvez (uma tripla que, seja qual for o resultado, não falha).


Todos (?) nos recordamos que quando um cão morde um homem, isso não é notícia. Notícia será (seria) se o homem mordesse o cão. Em alguns jornais nada disto é verdade. O cão pode morder e ser notícia, desde que... O homem pode morder e não ser notícia, desde que... «Desde que» significa ligações, conhecimentos, interesses etc.. Se o dono do cão que mordeu conhecer um jornalista, de preferência chefe, passa a ser notícia. Se o dono do cão que foi mordido pelo homem não conhecer um jornalista, de preferência chefe, não é notícia. Isto revela que as notícias são regra geral aferidas não pelo seu real valor jornalístico, mas por toda uma envolvência de interesses em que o critério jornalístico aparece a seguir ao último...

A notícia propriamente dita é, vezes a mais, a última coisa a ser considerada.A grande diferença reside apenas no facto de que uns avaliam a notícia e avançam, enquanto outros avaliam supostas envolvências, eventuais ramificações, e só descobrem que a notícia é notícia quando ela já deixou de o ser, nomeadamente por ter sido publicada noutros órgãos.

Aos leitores desta secção, bem como de tudo quanto se escrever nesta Orlando Press Room, caberá avaliar da sua validade. Sugiro, entretanto, que partam do princípio de que os Jornalistas não são detentores da verdade absoluta. Por favor, questionem tudo o que aqui possam ler. Passem a questionar tudo. É um bom exercício para a salubridade mental. Se, no fim, chegarem à conclusão de que também eu confundi a obra prima do Mestre com a prima do mestre de obras... façam o favor de dizer (de me dizer) que sou um imbecil.

Não esqueçam, contudo, que têm na vossa frente matéria de facto que pode sustentar o vosso veredicto o que, reconheçamos, já me distingue dos que sabem tudo... mas não fazem nada.

06.10.2005
orlando@orlandopressroom.com


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