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A (sub)missão
de alguns
jornalistas
angolanos

- 1-Nov-2005 - 18:35

Algum do “brilhante” jornalismo praticado em Angola ofusca-me. A reverência, a submissão e a subserviência aos poderes instituídos, nomeadamente a Eduardo dos Santos, é algo difícil de engolir. Compreendo, no entanto, que muitos dos meus colegas sejam «voluntariamente obrigados» a não cuspir no prato que todos os dias os alimenta. Poderiam contudo, digo eu, deixar trabalhar todos aqueles que quando aplaudem não têm medo de cair da árvore.

Por Orlando Castro

«Por indução da media angolana ou tão-somente por auto-consciência, a verdade é que a postura do Presidente José Eduardo dos Santos tem vindo a alterar-se perceptivelmente, separando-se devidamente o Chefe de Estado do homem e cidadão. Bem haja!»

Este parágrafo de um texto do Semanário Angolense (SA), digno de uma qualquer enciclopédia da subserviência, revela em que estado está algum do jornalismo angolano.

Importa, por isso, parafraseando aquele jornal dizer também “bem haja” senhor presidente por, à sua maneira, ajudar os angolanos a perceber que Jornalismo e propaganda são coisas diferentes. Substancialmente diferentes.

Explica o SA que “no passado dia 17 de Outubro, data de aniversário de Dona Ana Paula dos Santos, o Presidente angolano estaria, provavelmente, a pensar apenas como pensaria o comum dos maridos – ou seja, em proporcionar uma belíssima surpresa à esposa. Porém, no fundo, acabou por surpreender, positivamente, os seus concidadãos”.

Não seria mais aconselhável, já agora, tratar a mulher do presidente como “Excelentísssima Dona”? Certamente Eduardo dos Santos mandaria pôr mais uns dólares no prato da gorjeta.

Continuemos: «Partisse isso de um Chefe de Estado como o português Jorge Sampaio, e seria um acto vulgar. Vindo de José Eduardo dos Santos é algo que assume um significado, se calhar, transcendental. Nota alta nisto é que o Presidente angolano levou a mulher a jantar num restaurante de Luanda, mas ainda por cima agiu com a maior discrição. Dispensando protocolos e formalismos, José Eduardo dos Santos nem sequer incumbiu os seus serviços de apoio de efectuarem uma reserva prévia. Apareceu e pronto.»

Pois. «Apareceu e pronto». É mesmo algo de transcendental. É mesmo. Ou não estivesse angola a viver uma ditadura onde alguns jornalistas gostam de ser os bobos da corte.

«Para melhor entendermos o alcance do gesto do Presidente, convirá reter que o Tambarino não é um daqueles restaurantes espaçosos, onde os clientes passem mais ou menos despercebidos. José Eduardo dos Santos e a mulher não foram para um reservado onde pudessem estar a salvo de olhares e ouvidos de terceiros. Não. Estiveram como os demais. Presidente e Primeira Dama sujeitos à curiosidade e ao «voyeurismo» dos seus concidadãos», conta o SA.

Está quase tudo dito. Quase. O jornal esclarece que o restaurante é de qualidade até porque “não se pode exigir que o Presidente vá espetar-se numa espelunca qualquer».

Pena é que, na ânsia de servir o chefe, alguns jornalistas se espetem no próprio garfo...

01.11.2005
orlando@orlandopressroom.com


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