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  Entrevista
MPLA tem duas versões
para ganhar o eleitorado

- 28-Dec-2005 - 14:39


Oficialmente o partido do poder em Angola garante total liberdade de escolha, mas oficiosamente vai lembrando 1992

Apesar de ocuparem lugares cimeiros no MPLA, os discursos de «Dino Matross» (na foto) e de Pedro Mutinde, membros do Bureau Político (BP), no que à garantia da não-violência depois das eleições diz respeito contradizem-se. Uma contradição que mostra que nem a ordem e muito menos a coerência presidem, afinal, às prédicas dos membros do órgão mais importante do partido no poder (que tem o poder de influenciar quem decide sobre a sorte ou o azar dos angolanos), o que revela uma admirável desordem de se lhe tirar o chapéu


Por Jorge Eurico

O secretário-geral do MPLA, Julião Mateus Paulo «Dino Matross», prometeu, em entrevista ao jornal ÉME da 2.ª quinzena de Novembro à 1.ª do mês de Dezembro dos trezentos e sessenta e cinco dias que terminam dentro de algumas horas, que o partido a que pertence vai trabalhar no sentido de dizer ao povo que eleições não são sinónimo de guerra.

A promessa de «Dino Matross» tem como escopo, segura e garantidamente, piscar o olho ao eleitorado e sossegar o povo transmitindo-lhe a ideia de que poderá votar sem o receio de voltar a viver momentos marcados indelevelmente na sua memória pelo ajuste de contas que se saldou em sangue, lágrimas, dor e luto como os que se assistiram depois das eleições legislativas e presidenciais que tiveram lugar no País em 1992.

A posição de «Dino Matross» faz coro com a do 1.º vice-presidente da Assembleia Nacional (AN), João Lourenço, que assegurou, no dia 21 de Agosto, no seu discurso proferido na cerimónia de abertura do “Seminário Internacional sobre a Organização de Processos Eleitorais”, que nas próximas eleições ninguém será intimidado ou coagido, uma afirmação que, por inferência, nos leva a concluir que durante as eleições realizadas há cerca de 15 anos os angolanos foram coagidos e intimidados e que, por via disso, não votaram de forma livre e consciente no partido ou no candidato da sua escolha.

Entretanto, as afirmações de «Dino Matross» (secretário-geral do MPLA) e de João Lourenço (1.º vice-presidente do Parlamento) têm sido desmentidas por Pedro Mutinde ao transmitir em círculos restritos a ideia de que não é, nunca foi nem nunca será do interesse do partido a que pertence que o “day-after” das eleições não seja de temor nem de incertezas intimidando alguns políticos e membros de Organizações da Sociedade Civil (OSC) dizendo que «depois das eleições haverá um ajuste de contas», chegando mesmo ao ponto de pedir para que o povo «se lembre do que aconteceu em 1992».

Pedro Mutinde, governador do Cunene há mais de 20 anos, membro do Bureau Político (BP) do MPLA arroga-se ao direito de desdizer o secretário-geral do partido a que pertence e o 1.º vice-presidente do segundo órgão de soberania do País e de intimidar os actores políticos e sociais que têm como palco a província mais a Sul de Angola por ser afilhado de casamento do Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Pedro Mutinde dissemina o temor e a incerteza com o silencioso beneplácito do próprio MPLA por ver nele uma mais-valia (?) para a conquistar o voto dos locais em favor do seu padrinho de casamento que dirige o Estado e o partido no poder em Angola.


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