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Jorge Sampaio nunca me respondeu

- 6-Feb-2006 - 16:40

No dia 6 de Novembro de 2001 escrevi ao Presidente da República Portuguesa, manifestando-lhe algumas opiniões e levantando algumas preocupações que entendia, como ainda entendo, comuns a muito (boa) gente. É claro que Jorge Sampaio tinha mais do que fazer e, por isso, nunca me respondeu, o que só por si é (pelo menos para mim) uma resposta, por sinal bem clara. Agora que está prestes a terminar o reinado, permito-me recordar o que então escrevi. Aos leitores caberá aquilatar se ao não responder o Presidente mostrou, ou não, que sempre foi presidente apenas de alguns portugueses.

Por Orlando Castro

1 - Gostei de o ver, em Espanha, no meio de Yasser Arafat e Shimon Peres. «Todos compreendem que não há outra solução a não ser a paz, apesar da distância de posições...», terá dito, na altura, V. Exa..

2 - É claro, permita-me a sinceridade, que gostaria mais de o ver no meio de José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi. Também é verdade que gostaria (muito) mais de o ouvir dizer, também nesse caso, que «todos compreendem que não há outra solução a não ser a paz, apesar da distância de posições...»

3 - Preocupado que V. Exa. está com a crise mundial e também, é claro, com a crise interna, é natural que lhe falte tempo para agir junto dos senhores da guerra em Angola. Aliás, pela informação que lhe é enviada (cuja veracidade V. Exa. não pode questionar) calculará que morrem muito mais palestinianos e israelitas do que angolanos. Não sei se será bem assim mas, é claro, também não vou duvidar da veracidade das suas fontes de informação, sejam assessores, deputados, ministros ou secretários de Estado.

4 - Creio, aliás, que essas fontes de informação são as mesmas que abastecem a União Europeia e que levam os eurodeputados (e também por lá andam alguns portugueses) a ter dois pesos e duas medidas quando resolvem falar de Angola.

5 - Como certamente é do conhecimento de V. Exa. há, também no caso de Angola, dois tipos de terrorismo. Um bom e outro mau. Um perfeitamente aceitável e outro, é claro, condenável. O bom, como sabe, é o praticado pelo Governo de Luanda, uma entidade democrática, respeitadora dos direitos humanos, incorruptível e defensora do Estado de Direito. O mau, esse é obviamente praticado pelos bandidos da UNITA. Bandidos comandados por Jonas Savimbi, um terrorista que lutou contra o colonialismo, contra os cubanos e que, ainda por cima, quer uma Angola verdadeiramente independente.

6 - Dir-me-á V. Exa. que tem mais com que se preocupar. Se V. Exa. o diz é porque, de facto e de jure, é verdade. Mas afinal anda preocupado com quê? Na votação da Lei de Programação Militar venderam-nos gato por lebre. V. Exa. disse que o problema não era seu. Seu era, e bem, a questão da condecoração de Cláudia Cardinale. Era mesmo ela? Este caso não foi, como é costume, mais um exemplo de como os Poderes do país passam um atestado de menoridade e demência aos portugueses?

7 - Sabe V. Exa. (se calhar tem mais com que se preocupar) que um cidadão português, residente em Portugal, militante da UNITA, viu as contas bancárias das suas empresas congeladas? É que, no país em que V. Exas. é o Presidente, ser simpatizante ou militante da UNITA não é um direito... é um crime.

8 - E, para além de ser um crime, leva a que (subvertendo todas as regras de um Estado de Direito) se seja considerado culpado até prova em contrário. E das duas uma, ou essa teoria de se ser inocente até prova do contrário é uma treta ou, afinal, Portugal não é um Estado de Direito.

9 - Por último, permita-me que lhe solicite o favor de mandar informar os portugueses das penas a que se sujeitam se pretenderem ser militantes do PSD, do CDS/PP, do PCP, da UNITA, da FNLA etc., do Benfica, do Belenenses, do Boavista, do Porto, do Salgueiros ou do «trinca na pera».

orlando@orlandopressroom.com
06.02.2006


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