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  Entrevista
«Menezes é foco de instabilidade e erro de casting», diz Patrice Trovoada
- 23-Mar-2006 - 15:33


O candidato da Acção Democrática Independente (ADI) às legislativas de domingo em São Tomé e Príncipe qualificou hoje o Presidente são-tomense como "um erro de casting", que, a par da corrupção, provocou instabilidade no país.


Por Vera Magarreiro
da Agência Lusa

Em entrevista à Agência Lusa, Patrice Emery Trovoada considerou que o próximo Governo deve ser composto "por gente credível" porque, caso contrário, "não se resolve o problema da instabilidade".

"Há algumas figuras manchadas e é preciso a renovação das figuras públicas que estão há 25 anos no poder, num país de jovens", disse, sem indicar nomes.

Justificando o "erro de casting" que foi a eleição de Fradique de Menezes, apoiado pelo seu pai, o ex- presidente Miguel Trovoada, o líder da ADI destacou as divergências políticas em relação ao chefe de Estado por este defender o "presidencialismo", o que o tem levado a "muitos atropelos às normas constitucionais".

Na legislatura que agora termina, o país teve cinco primeiro-ministros, agravando a instabilidade política e social de São Tomé e Príncipe.

"Fradique sempre disse que esta constituição não lhe interessava, porque (ele) defende o presidencialismo e acho que não faz sentido se decidir ser de novo candidato para defender uma Constituição que não quer", afirmou Patrice Trovoada.

Questionado sobre se o apoio de Fradique de Menezes à coligação Movimento Democrático Força da Mudança - Partido da Convergência Democrática (MDFM-PCD) pode influenciar os resultados eleitorais, o líder da ADI afirmou que o Presidente não é uma figura política que o impeça de dormir.

Patrice Trovoada foi ministro dos Negócios Estrangeiros no Governo de iniciativa presidencial, liderado por Evaristo Carvalho, mas apresentou a sua demissão do cargo em Fevereiro de 2002 alegando "falta de confiança política e íntima colaboração com o Presidente da República".

Questionado, por outro lado, sobre se ser filho de um ex-presidente pode ser uma vantagem, o líder da ADI respondeu que "é mais um inconveniente, porque a primeira leitura tem a ver com privilégios, nepotismo, sobretudo num país pobre como são Tomé, em que de facto existe uma elite com uma série de privilégios e uma grande maioria de população pobre".

Quanto ao tradicional "banho", em que as candidaturas dão dinheiro aos eleitores para a "compra dos votos", Patrice Trovoada afirmou que os partidos "foram apanhados no seu próprio jogo".

"Nas últimas eleições houve um 'marketing' muito agressivo e esbanjou-se muito dinheiro. Hoje, estamos a pagar por isso, porque as pessoas estão a exigir, a manipular os partidos", destacou.

A ADI é o único partido a assumir a prática do "banho" porque dá dinheiro a "cerca de 11 mil activistas" que andam de porta em porta na "caça" ao voto, mas Patrice Trovoada afirmou já ter chegado à conclusão que "a rentabilidade desse investimento é praticamente zero nas urnas".

"Este ano a questão do dinheiro ainda é importante, mas acredito que isso vai mudar no futuro porque o importante é o trabalho político", acrescentou.

Quanto ao financiamento da sua campanha, disse que resulta do apoio de "amigos", que não identificou, e de militantes.

Questionado sobre o apoio de "países amigos", Patrice Trovoada afirmou que a sua candidatura mandou fazer material em Angola, Nigéria, China, Índia e Paquistão, mas garante que "todo esse material foi pago".

"É importante preservar alguma independência relativamente a certos interesses", disse.

Sobre as medidas que apresenta ao eleitorado para a conquista de votos, o líder da ADI defende "um Governo mais próximo das pessoas para restituir a confiança entre a população e os governantes" e propõe-se resolver os "problemas mais gritantes, como o combate à pobreza, água potável, saúde, transportes, habitação e saneamento".

O crescimento económico é outro dos objectivos com a "captação de investimento directo, criação de um bom clima de negócios e estabilidade política", disse.

Patrice Trovoada considerou ainda que, "face à previsão da entrada de grandes receitas de petróleo dentro de cinco, seis anos, é preciso organizar o país, investir nos recursos humanos, na coesão social", além do "ordenamento do território e da preservação das florestas".

Na área da Defesa, o líder da ADI propõe "a criação de um clima que não dê margem para rupturas no seio das forças armadas", que passa também por "redefinir a sua distribuição geográfica criando três ou quatro regiões militares".

A definição de "um conceito novo de defesa" virado para a política externa e para diplomacia é para Patrice Trovoada "um investimento na defesa dos interesses políticos e económicos do país" e um exemplo disso é o "tratado assinado com os países do Golfo da Guiné para protecção dos recursos".

Nas últimas legislativas, em 2002, a ADI concorreu integrada na coligação Uê-Kedadji (Luz do dia, em crioulo), mas abandonou esta formação logo depois porque "estava a ser colocada em risco a identidade e o espaço próprio do partido".

Agora a ADI concorre sozinha, mas Patrice Trovoada não afasta a hipótese de coligação pós-eleitoral, embora se recuse a avançar possibilidades, porque isso "depende dos resultados".

A estratégia da ADI nesta campanha tem sido o contacto porta-a-porta, em detrimento dos comícios, porque "as pessoas já estão angustiadas com tanta instabilidade e não precisam de mais agitação".

O apelo da ADI à agitação só vai surgir no último dia de campanha, sexta-feira, "para medir o grau de mobilização".


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