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A culpa casa-se com quem dá mais jeito
- 19-Apr-2006 - 18:18
A ponte de Entre-os-Rios, em Portugal, caiu no dia 4 de Março de 2001, arrastando para o rio Douro um autocarro e três automóveis, provocando a morte a 59 pessoas. Hoje começou a primeira sessão do julgamento. A culpa, neste caso, poderá não morrer solteira embora, bem à moda portuguesa, vá casar com o menor dos maiores culpados. Se ladrão tanto é o que rouba como que manda roubar, no banco dos réus deveriam estar alguns políticos. Não estão, é claro. É Portugal no seu melhor.
Por Orlando Castro
Após a queda da ponte, ocorrida há cinco anos e um mês, Jorge Coelho, então ministro do Equipamento Social, demitiu-se do cargo, afirmando que recusava deixar "a culpa morrer solteira".
Pois. Lá está. Vai casar, como prometeu o então ministro, com quem é o menos responsável.
Ou seja, o marido a quem são imputados dois crimes de violação das regras técnicas a observar no planeamento de modificação de construção, poderá ser punido com prisão até cinco anos. Depois, é claro, divorcia-se.
O presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios (AFVTE-R), Horácio Moreira, considerou também que o processo de responsabilização criminal pela queda da ponte deveria envolver pessoas "com responsabilidade superior" à dos técnicos em julgamento.
Deveria. O povo de brandos costumes continua a sonhar e, pior ainda, a imaginar que Portugal é um Estado de Direito. Se o fosse, os deputados, por exemplo, não faltavam às votações para ir apanhar sol.
O mal, diz o povo, é de quem morreu. E tem razão. Os outros, aqueles em quem alguns portugueses votaram, continuam a viver à grande e à... portuguesa, cantando e rindo, levados, levados sim pela tarefa de nos passarem constantes atestados de menoridade.
orlando@orlandopressroom.com
19.04.2006

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