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  Entrevista
Insegurança atormenta vida
dos 400 mil cabo-verdianos

- 2-May-2006 - 15:57


A cidade da Praia nada tem a ver com o rosto “sabi” (bonita) de outrora. A “menina de maire” é hoje suja e perigosa

Cabo-Verde deixou de ser um país seguro para os seus cerca de 400 mil habitantes espalhados pelas nove “pobres e abandonadas rochas atiradas ao mar”, conforme o poeta e prosador Eugénio Tavares caracterizou e glosou um dia o arquipélago das mornas escritas em louvores ou lamentos do destino dos crioulos que emigram para os quatro cantos do mundo em busca de uma vida melhor. E se Cabo-Verde está inseguro, o “Velho Continente” tem razões de sobra para se preocupar por a sua segurança passar por essa zona do Atlântico Médio, também conhecida como as “Ilhas dos filhos dos sacerdotes”, que, até ao momento, não dispõe de meios para transformá-la num espaço seguro para os locais e num paraíso para os turistas.


Por Jorge Eurico
enviado a Cabo-Verde


Dia sim dia também há notícias sobre mortes e assaltos. A provar isso estão os dois principais semanários de Cabo-Verde, “A Semana” e o “Expresso das Ilhas” que dão à estampa títulos como “Homem esfaqueia mulher em assalto e foge”; “Homem morto dentro de um autocarro”; “Insegurança assola Porto da Praia”; “Sol, praia, grogue e violência”. É caso para dizer que a temperatura sobe e o Diabo anda à solta pelas ruas da Praia.

Mal iluminada e com um planeamento urbano deficitário, a cidade da Praia está na liderança da onda de crimes de violência, assalto à mão armada e assassinatos à trouxe-mouxe que, em plena luz do dia e sob o testemunho do brilho prateado e o marulhar silencioso das águas resplandecentes do mar, se tem abatido no universo das 10 ilhas (uma delas é inabitada) que compõem o arquipélago de Cabo-Verde, cuja taxa de desemprego atinge a cifra de 40 mil.

O brilho da “sabura” (felicidade, alegria) e da “morabeza” (ternura, calma, amor e beleza) tem sido ofuscado pelo actual clima de medo e insegurança que paira sobre a capital cabo-verdiana. O cagaço tem sido, nos últimos dias, o fantasma dos moradores do Plateau, Achada de Santo António, Achada Grande, Ponta de Água, Fazenda e redondezas.

A cidade da Praia nada tem a ver com o rosto “sabi” (bonita) de outrora. A “menina de maire” é hoje uma cidade, suja e perigosa, mas que ainda conserva, rasgos, traços e marcas de uma beleza que já deixou e ainda vai deixando muitos turistas de queixo caído e políticos estrangeiros, que a visitam, de boca à banda.

A instabilidade que presentemente se vive na cidade da Praia é promovida pelos bandos de “Thugs” e “Cashor bodies” compostos por cerca de uma centena de cabo-verdianos nascidos nos Estados Unidos da América (EUA) deportados recentemente pelo Governo de Washington para terra de que são originários, mas que lhes é totalmente desconhecidas.

Cabo-Verde transformou-se, assim, numa plataforma do tráfico de drogas para países dos quatro continentes do mundo: América (s), África, Europa e Ásia. Os cabo-verdianos têm sido usados como “correios” do tráfico de drogas por cidadãos de países como Ghana, Nigéria, África do Sul, Brasil, Holanda, Bélgica, Espanha, Ilhas Canárias, Portugal, EUA e Colômbia.

A provar isso está o facto de existirem cidadãos cabo-verdianos presos em países como Brasil e Portugal por suspeita (e também condenados por haver evidencias de facto e de jure) de envolvimento no tráfico e consumo de drogas.

Contudo, esta é uma situação que o chefe do Governo, José Maria Neves, recusa-se a reconhecer fazendo crer à diáspora cabo-verdiana que se pode calmamente assobiar e cantarolar dizendo ao mundo “olhe, isto aqui está muito bom; isto aqui está bom demais”, o que é uma mensagem insincera.

A imagem de Cabo-Verde que o ocupante do palácio da Várzea e presidente do PAICV transmite é de segurança, estabilidade política, sol, turismo com mornas, coladeras e mazurcas à mistura, quando a afiguração inversa é que é, de facto, a verdadeira.

A contrastar com a imagem de tranquilidade e segurança que José Maria Neves tem transmitido ao mundo está a admissão clara e recente do ministro da Administração Interna, Júlio Correia, em entrevista à Imprensa local segundo a qual a cidade da Praia “lidera a criminalidade a nível nacional e que todos os dias são apreendidas dezenas de pistolas, armas brancas (…) e que nas últimas semanas foram perseguidas e capturadas mais de 80 pessoas pela Polícia de Ordem Pública (POP)”.

A POP, segundo Júlio Correia, não tem poupado esforços para pôr cobro ao banditismo urbano que se assiste na capital cabo-verdiana, mas o número de efectivos destacados na cidade da Praia é de 600 e 350 a patrulhar as ruas da urbe que à mesma não impediu que o ano passado, por exemplo, um magistrado do Ministério Público fosse baleado à porta de casa depois de ter caucionado a prisão de um cidadão acusado de liderar uma quadrilha que se dedica ao tráfico e introdução de droga no arquipélago.


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