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Cabo Verde
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O impacto social dos exercícios da NATO na ilha de São Vicente
- 22-Jun-2006 - 13:16
Ruas, restaurantes, cafés e discotecas do Mindelo encontram-se, por estes dias, repletos de militares da NATO, com a população local literalmente absorvida numa invulgar azáfama e o negócio, a mendicidade e a prostituição a ganharem anormal visibilidade.
Por Ricardo Bordalo
da Agência Lusa
Esta presença de milhares de militares na principal cidade de São Vicente prende-se com os exercícios que a Organização do Tratado do Atlƒntico Norte está a realizar em Cabo Verde para testar a operacionalidade da Nato Response Force (NRF), uma unidade criada para actuar em todo o mundo em situações como a luta contra o terrorismo, diversos tráficos ou como força de interposição entre beligerantes.
Instalada com armas e bagagens na ilha de São Vicente para os seus primeiros exercícios militares em †frica, o primeiro impacte das manobras da NATO é social, como explicaram … Agência Lusa um escritor, um pintor e um músico do Mindelo.
Germano Almeida, o mais editado escritor de Cabo Verde, que tem o Mindelo como a sua cidade, não tem dúvidas de que o impacte da presença dos militares é social, perceptível "pelo aumento substancial da prostituição", mas também "pela satisfação dos comerciantes ao verem os seus rendimentos aumentar em flecha".
O autor de "Eva", o seu último livro, editado em Portugal pela Caminho, defende a ideia de que esta "invasão pacífica" resultou no crescimento de "fenómenos" que já fazem parte da sociedade mindelense, como a prostituição ou crianças a pedir uma moeda a forasteiros.
Germano Almeida não critica a decisão do governo cabo- verdiano de aceitar que a NATO tenha escolhido o país para os seus exercícios militares, porque Cabo Verde "recebe muito do mundo e tem de admitir que há algo para dar também", mas sublinha que "quanto menos vezes isto acontecer, melhor".
que para o escritor mindelense, "este tipo de crescimento não se pode traduzir em desenvolvimento" e pode mesmo criar uma falsa ilusão de que a vida das pessoas está a melhorar.
Sobre o fenómeno do aumento da prostituição e da mendicidade, o escritor e advogado lembra que, porque a ilha e o país são pobres, as pessoas "vendem o que têm para vender"", que no caso de muitas jovens mindelenses "é, tantas vezes, apenas o seu corpo".
Germano Almeida enfatiza a questão da prostituição porque, na noite da Cidade do Mindelo, na maior parte dos bares e discotecas, a procura, por parte dos militares da NATO, com ou sem farda, e a oferta desse "serviço" por parte das jovens mindelenses "é um facto que, de tão visível, não pode ser ignorado".
Mas, porque há "outros aspectos de grande importƒncia" a apontar, Germano Almeida recorda que "Cabo Verde é um arquipélago e os ilhéus sempre souberam lidar com as diferenças" e retirar partido "daquilo que de bom existe no confronto com outras culturas", como é o caso vertente.
"Por outro lado, é igualmente verdade que o país não está em condições de dizer que não … NATO, porque os benefícios mútuos são respeitáveis e encaixam na estratégia de abertura do país", aponta.
Já o pintor Tchalé Figueira, cuja última obra simboliza a "guerra entre desiguais" - onde um militar de grandes proporções "com a sua armadura e armamento" contrasta na tela com crianças negras com a língua de fora -, tudo se resume a "um confronto" entre a fome e a fartura, num cenário de "muitas e desiguais disputas".
"De um lado, a luta pela sobrevivência de crianças pobres que pedem ou se prostituem e, do outro, os ricos e bem armados militares que procuram entre os primeiros satisfazer efémeros prazeres", diz Tchalé Figueira … Lusa.
O pintor admite "uma profunda revolta" pela forma como a sociedade mindelense, "de forma subserviente, se ajoelha perante o poder dos militares da NATO", porque "o poder dos euros e dos dólares subverte, ou está a subverter, os valores da sociedade de São Vicente".
E é por isso que o artista entende que este tipo de "invasões pacíficas" deviam ser "referendadas" pelo governo, para que as pessoas "pudessem recolher do debate informação sobre os prós e os contras" que encerram.
Já Raul Ribeiro, músico que toca ou tocou com nomes como Orlando Pantera, Tchecka, Mário Lúcio ou Mayra, entende que se trata de "uma oportunidade para que a sociedade cabo- verdiana, no seu conjunto, possa confrontar-se com aquilo que significa a abertura ao mundo" de um país que, pela sua natureza, "é, em muitas situações, fechado".
O músico não enjeita a possibilidade de estar perante "o perigo de uma acelerada degradação dos valores que nortearam a sociedade cabo-verdiana até hoje", pelo que aponta como solução "a minimização dos perversos efeitos secundários" através de campanhas de sensibilização e informação.
Raul Ribeiro defende ainda que, "depois disto - os exercícios NATO - passar, o país deve pesar bem os prós e os contras" para que, do balanço final, se retirem conclusões.
Estes exercícios da NATO tem como designação "Steadfast Jaguar 2006" e começaram a 15 de Junho, terminando a 28.
Além de São Vicente, onde é mais visível a presença humana e de meios da NATO, as manobras decorrem também nas ilhas cabo-verdianas de Santo Antão, Fogo e Sal.
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