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Angolanos já têm paz
mas a barriga está vazia

- 3-Apr-2003 - 10:07


Ajuda humanitária poderá ser desviada para o Iraque. Países da CPLP continuam, como o Inferno, cheio de boas intenções


Faz amanhã um ano que foi assinado o cessar fogo em Angola. Os números oficiais indicam que 1.763.902 pessoas já regressaram para as suas zonas de origem. Apesar dos êxitos conseguidos, ainda há muita gente a morrer de forme. Este tempo serviu, sobretudo, para demonstrar que dezenas de anos de guerra não conseguiram quebrar a fé num futuro melhor nem abalar a convicção de que Angola é maior do que as adversidades. Ainda há muito por fazer mas, até agora, foram dados passos importantes que devem ser solidificados pelos angolanos. Só por eles porque a ONU virou-se agora para o Iraque e a CPLP continua – pelo menos nesta matéria – em hibernação...



Por: Manuel Gilberto


O futuro de Angola, mau grado a apatia pragmática de Portugal e dos restantes subscritores da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, já começou e parece que os angolanos (pelo menos eles) já perceberam que todos não serão muitos quando é preciso reconstruir o país.

Como afirmou José Eduardo dos Santos no dia 11 de Novembro do ano passado, «pelos sacrifícios consentidos, pela tenacidade demonstrada na procura de uma solução para o conflito armado, o povo de Angola devia ser proposto e agraciado com o Prémio Nobel da Paz, em reconhecimento também da maturidade revelada no processo de Reconciliação Nacional, substracto da construção de uma paz sólida e irreversível».

É claro que a caminhada ainda está no princípio. Há ainda imensas dificuldades a superar, sobretudo no domínio social, para que o povo angolano viva melhores dias. Há a pobreza, que é muito grande mas não é eterna. É preciso propiciar alimentos e abrigos, é preciso erguer e apetrechar escolas e hospitais, construir fábricas e abrir canais de irrigação. É preciso desminar os terrenos e reabilitar as infra-estruturas para o transporte de pessoas e mercadorias e para assegurar as facilidades de comunicação. É necessário garantir a oferta a tempo inteiro de energia eléctrica e de água potável, para que os angolanos possam produzir e melhorar as suas condições de vida. É urgente combater as epidemias, como a malária e a Sida.



HOLDEN ROBERTO E JONAS SAVIMBI


Entretanto, Holden Roberto (FNLA) o único líder vivo que lutou pela independência e que a declarou, com Jonas Savimbi, no Huambo, continua crítico. Entende que Angola não deu o salto porque tem um regime antidemocrático e corrupto que não deu aos angolanos a oportunidade escolher pelo voto a força política que melhor servisse o país.

As afirmações de Holden Roberto revelam, aliás, o muito que ainda há a fazer em Angola. «Os nossos combatentes já reclamaram várias vezes. Estão a favorecer a guerra civil porque os que libertaram o pais não estão a ser bem tratados», laembra Holden Roberto, acrescentando que «aqui não há democracia».

«Enquanto o MPLA estiver no poder não há esperança para este pais porque não há justiça. Alias como pode haver se não há separação de poderes?», interroga o velho guerrilheiro.

Holden Roberto é único testemunho vivo dos três signatários dos Acordos de Alvor que ditaram a independência de Angola em 11 de Novembro de l975.

Os simpatizantes da UNITA dirão que o seu fundador, líder e também signatário dos Acordos de Alvor merece estar, pelo menos na História, ao mesmo nível de figuras com Gamal Abdel Nasser (Egipto), Amílcar Cabral (Cabo Verde e Guiné-Bissau), Léopold Senghor (Senegal) e Hassan II (Marrocos).

Dirão também que Jonas Malheiro Savimbi deu a sua vida pela paz em Angola e que deixou «um legado político para equacionar, na multifacetada teia do complexo mosaico nacional, as vias que devolvam aos angolanos a sua dignidade, a sua liberdade e o espírito de tolerância, bens preciosos para a construção da democracia e do progresso».

Utilizando as palavras de José Eduardo dos Santos, declarar o amor por Angola e tudo fazer pela reconciliação nacional passa igualmente por reabilitar, ou honrar, algumas das figuras que – à sua maneira – também lutaram pela independência do país, sejam elas Hoji-ya-Henda ou Jonas Savimbi.


DE OLHOS NO RESTO DO MUNDO


Angola teme o pior e está de olhos postos no Iraque. Receia que a prioridade do interesse internacional acabe por eclipsar o problema dos angolanos, levando ao retrocesso dos sinais de melhoria que se registam.

Esperam os angolanos (mais uma vez não contam com o apoio claro e decidido da CPLP) que não obstante o surgimento de outras crises humanitárias no Mundo, como é o caso do Iraque, a ajuda não seja desviada.

Erik de Mull (representante da ONU em Angola), também pede a continuidade da generosidade dos doadores. Mas certo é que o orçamento da ONU para o Iraque vai muito, mas muito, além do que se previa para Angola. «Gostaria muito de ter a esperança que os países doadores não ignorarão Angola», disse Erik de Mull, acrescentando que «se isto acontecer, o nosso esforço para consolidar a paz e para passar decisivamente para a normalização, serão rapidamente destruídos, privando milhões de Angolanos de ajudas».

Foto: Jornal O Apostolado

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