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São Tomé e Angola, Fradique e o MPLA
- 23-Aug-2006 - 19:51
«Dos nossos irmãos angolanos nós não temos nada a aprender porque eles têm um grande défice de democracia. Até hoje só realizaram uma eleição. Isto quer dizer que em matéria de democracia, eles têm que aprender com os pequenos como nós». A afirmação é do reeleito presidente de São Tomé e Príncipe, Fradique de Menezes. Embora os visados olhem para o lado e assobiem, os destinatários eram bem claros: MPLA e Eduardo dos Santos.
Por Orlando Castro
Teria Menezes dito o mesmo se o MPLA não tivesse apoiado o seu principal adversário? Certamente não. Mesmo assim, são afirmações necessárias e que devem ser tidas em conta por um partido que julga ter o rei na barriga e por um presidente que pensa ser dono dos angolanos e, quiçá, de outros povos como os cabindas.
Como diz Eugénio Costa Almeida, «Angola ainda não compreendeu que não está em condições de dar lições de moral a terceiros sobre actos eleitorais quando vem, sistematicamente, protelando as mesmas».
Por regra, tanto o MPLA como Eduardo dos Santos entendem que a razão da força é mais importante do que a força da razão. Foi assim em relação à UNITA, é assim em relação a Cabinda. Mas, mesmo com força do petróleo, terá de mudar se quiser, de facto e de jure, ter o respeito dos angolanos.
Sim, que apenas interessa o respeito dos angolanos. Todos os outros, sejam portugueses ou norte-americanos, chineses ou brasileiros, “respeitam” sempre quem está no poder, tenha sido ou não eleito.
Fradique de Menezes teve a coragem (provavelmente já se arrependeu) de esquecer que Angola tem um forte poder político e militar capaz de influenciar, ou ditar, o futuro de São Tomé e Príncipe. O cheiro do petróleo já chegou a outros países e, por isso, Menezes poderá ter pensado que não lhe vão faltar aliados. De qualquer modo, importa dizê-lo, não fica bem cuspir no prato de quem nos dá, ou deu, comida…
Fradique não gostou do apoio, uma clara ingerência, que Angola deu ao seu adversário. Mas como foi nas eleições anteriores? Quer o presidente reeleito dizer-nos que vai mudar a política do país em relação a Luanda? Não. Não porque, também neste caso, Angola jogou em dois tabuleiros para ter a certeza que ganhava.
Eugénio Costa Almeida afirma em artigo publicado no semanário santomense “Correio da Semana” que “Angola tem a pretensão a ser mestre nos assuntos políticos africanos”, acrescentando que, todavia, “ainda está nos antípodas”.
Ao contrário desta opinião, penso que Angola já manda em muitos assuntos africanos, jogando os seus diferentes poderes (políticos e militares) como potência regional que cada vez mais força tem. Quanto aliar a isso a democracia estará no centro de (quase) tudo o que se passar em África.
orlando@orlandopressroom.com
23.08.2006

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