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  Brasil
Lula transformou-se num político comum, diz Henrique Cardoso
- 17-Oct-2006 - 19:16


O ex-Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) afirmou hoje que o actual chefe de Estado, Luiz Inácio Lula da Silva, se transformou num "político comum".


"Lula da Silva se transformou num político banal só para ganhar a eleição. Minha decepção é muito grande", disse Henrique Cardoso, numa entrevista à rádio CBN.

O antigo chefe de Estado brasileiro salientou que a campanha eleitoral de Lula da Silva, para a segunda volta das presidenciais, promove "a má informação do eleitor" ao apresentar dados "fantasiosos".

A campanha do actual Presidente tem afirmado, entre outros, que Lula da Silva "salvou" o Brasil da crise económica e que o país estava "quebrado" pela alta inflação e a falta de crédito internacional para empresas brasileiras.

"Quem provocou essa crise (em 2002) foi o próprio Lula e o Partido dos Trabalhadores que assustaram os mercados internacionais com as suas propostas", disse Henrique Cardoso.

No passado, Lula da Silva chegou a defender a suspensão do pagamento da dívida externa brasileira e era contrário à política de equilíbrio das contas públicas.

"Depois que chegaram ao poder (em Janeiro de 2003), percebemos que tudo o que eles disseram no passado não era para valer. A crise foi o próprio Lula quem criou", sublinhou.

"Vi de perto o líder renovador que Lula foi, mas que se transformou num político como outro qualquer, é uma perda histórica para o Brasil", disse.

"Lula se igualou ao que há de mais atrasado na política brasileira. Vi o que o Lula era e vejo o que é actualmente. Lamento muito", salientou.

Fernando Henrique Cardoso pediu explicações sobre a série de escândalos de corrupção a envolver o actual Governo, nomeadamente a recente compra de um dossier pelo PT para ser usado contra adversários de Lula da Silva.

"Você pergunta uma coisa, ele responde outra. Falo de coração aberto, é um sentimento de perda muito grande ver no que Lula se transformou", disse, referindo-se ao facto de Lula evitar as perguntas constrangedoras sobre os escândalos de corrupção.

Henrique Cardoso classificou a compra do dossier de "muito grave, principalmente por envolver pessoas tão próximas do Presidente" e que até agora não foi esclarecido pela Polícia.

"Se o Lula quer mesmo esclarecer o escândalo, como tem dito, basta chamar todos os envolvidos e perguntar de onde veio o dinheiro utilizado e qual foi o papel de cada um nesse episódio", disse.

O escândalo do dossier, no qual foram apreendidos 1,7 milhão de reais (630 mil euros) de origem ainda desconhecida, com militantes do PT, tem sido um dos principais temas da campanha presidencial brasileira.

O dossier seria utilizado pelo comité de campanha eleitoral de Lula da Silva contra os seus adversários, na recta final da primeira volta das presidenciais.

Fernando Henrique Cardoso lamentou ainda que a campanha de Lula utilize a "táctica do medo" e "mentiras", quando acusa o candidato adversário Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de querer vender grandes empresas estatais.

"Nós defendemos a Petrobras e o Banco do Brasil como empresas públicas e não como estão a ser utilizadas hoje para benefício do próprio partido de Lula", disse.

O ex-Presidente defendeu a venda de empresas estatais, durante o seu governo, nomeadamente nos sectores de telecomunicações e de mineração.

"Se a venda de estatais foi errada, como diz o Lula, porque ele não mudou essa situação logo que assumiu o poder? Criticar agora é pura demagogia", afirmou.

"Estão mentindo e estimulando uma visão atrasada. O Brasil vai ficar para trás entre os países emergentes, como China, Índia e Rússia", realçou.

Lula da Silva, favorito para vencer as eleições, segundo as últimas sondagens, e Geraldo Alckmin, aliado de Fernando Henrique Cardoso, disputarão a segunda volta das presidenciais, a 29 de Outubro.


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