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Armando Guebuza: o poeta mais caro da história de Moçambique
- 22-Feb-2007 - 17:58

As obras de Eduardo Mondlane, José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Kossa, nomes que figuram entre os cem melhores escritores do século XX, não chegam a custar metade do preço do livro “Os Tambores Cantam”da autoria de Armando Guebuza, com a chancela da editora «Produções Lua–Meia Noite – Armando Guebuza e Herdeiros»


O presidente da República e também do partido Frelimo, Armando Guebuza, pode orgulhar-se de ser o autor do livro mais caro da literatura moçambicana.

O seu livro “Os Tambores Cantam” lidera o ranking dos livros mais caros da literatura nacional.

O livro, uma colectânea de poemas, custa 1.000 MT (cerca de 40 US dólares) e supera de longe o preço dos livros de alguns dos principais ícones da literatura moçambicana.

O «Canal de Moçambique» esteve em duas das principais livrarias da cidade de Maputo, «Livraria Escolar Editora» e «Livraria Mabuko» e, não sem espanto, ficou a saber que os livros de autores moçambicanos que constam da lista dos 100 melhores autores africanos do Século XX custam bem muito menos que o livro do presidente da República que repetidamente vai insinuando que o seu maior empenho é “combater a pobreza absoluta”.

Uma das formas de manifestação da pobreza é a ausência de oportunidades e, com o preço do seu livro o presidente da República vedou a muitos moçambicanos, razão da “nossa agenda nacional”, a oportunidade de conhecerem a sua literatura.

Na visita que o «Canal de Moçambique» efectuou as referidas livrarias ficou a saber que o livro de Eduardo Mondlane - primeiro presidente da Frelimo frente e não partido e de quem Guebuza foi secretário - «Lutar por Moçambique», pode ser adquirido por 200 MT (cerca de 8 US dólares).

Nas mesmas livrarias, o «Canal de Moçambique» pôde saber que livros dos escritores José Craverinha, Luís Bernardo Honwana, Ungulani Ba Ka Khossa e Mia Couto podem ser adquiridos a preços que variam entre os 100 MT (cerca de 4 US dólares) e os 600 MT (cerca de 24 US dólares).

Serve de referência lembrar que José Craveirinha foi o primeiro escritor africano a ser galardoado com o «Prémio Camões» tido como o maior prémio literário dos países que se expressam oficialmente em português.

Tal como Eduardo Mondlane, os autores acima mencionados constam da lista dos 100 melhores escritores africanos do século XX. Isto é, os referidos autores moçambicanos constam da mesma lista onde também estão os nomes dos já laureados com o Prémio Nobel da Literatura – Wole Soyinka e Nadime Godimer – sabido como é, Prémio tido como o maior galardão da área.


Publicado só depois de ser Presidente

Pese o facto de Armando Guebuza escrever textos literários muito antes de assumir a Presidência da República, o seu livro só foi publicado depois de ele chegar ao cargo que actualmente ocupa.

Armando Guebuza, tal como outras figuras de velha proa do partido Frelimo tem parte da sua produção literária publicada na antologia «Poesia de Combate», uma publicação do próprio partido com Sede na Rua Pereira do Lago que já teve 3 número. Contudo, antes de se tornar chefe de Estado a obra literária de Armando Guebuza parece que nunca chegou a entusiasmar as editoras. Informações na posse do «Canal de Moçambique» indicam que a obra de Armando Guebuza já esteve para ser publicada pela Associação Moçambicana de Escritores (AEMO), e também pela Imprensa Universitária, mas por razões ainda não tornadas públicas isso não chegou a acontecer.


“Produções Lua-Meia Noite – Armando Guebuza e Herdeiros”

Talvez isso explique a opção que Armando Guebuza fez pela sua própria editora. O livro “ Os Tambores Cantam” tem a chancela das «Produções Lua – Meia Noite – Armando Guebuza e Herdeiros».

Nos meios literários, mesmo em surdina, questiona-se o facto do poeta Armando Guebuza ter escolhido o IX Congresso do partido que lidera como o palco para o lançamento do seu livro. A ideia dominante, dos que questionam essa escolha, defende que “Guebuza usou o caminho mais fácil para tornar o seu livro um “best- seller”.

E argumentam nos seguintes termos: “os delegados não compraram o livro do poeta mas, sim, o livro do presidente”.

Presente na cerimónia do lançamento do livro “Os Tambores Cantam” o «Canal de Moçambique» apercebeu-se que todos os delegados ao IX Congresso do partido Frelimo que teve lugar em Quelimane no último mês de Novembro, fizeram questão de comprar o referido livro.

Alguns dos delegados compraram mais do que um exemplar do livro mais caro da literatura moçambicana.

No IX Congresso do partido Frelimo estiveram presentes 1326 delegados. Talvez o marketing do presidente Armando Guebuza explique as razões do seu livro não estar disponível no circuito comercial de livros.

Aparentemente, todos os exemplares disponíveis esgotaram em Quelimane.

A operação de marketing do poeta Armando Guebuza não olhou a meios para ser o maior. O autor do prefácio do seu livro, o director do «Centro de Estudos Brasileiros - CEB», Calane de Silva, esteve na capital da Província de Zambézia por escassas três horas de tempo com intuito de ler o seu prefácio.

Nunca antes o meio literário em Moçambique tinha vivido tamanho investimento para o lançamento de um livro, do autor do poema das dores. “As minhas forças, mais as tuas forças, vão vencer o imperialismo”.

(Énia Armindo, Ednizinda Nhaúle, Celso Manguana e Luís Nhachote)


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