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  Brasil
Pragmatismo chinês soma
pontos onde outros falham

- 27-Feb-2007 - 11:30


África é a aposta forte e dura de Pequim e, para já, tudo resto é paisagem

No final do mês de Janeiro, o primeiro-ministro português, José Sócrates, foi visitar a China mas não encontrou o presidente chinês no país porque estava em visita oficial por terras africanas. O Dalai Lama, líder máximo espiritual dos tibetanos, quis visitar o Quénia, mais especificamente uma reserva natural, mas não pôde porque viu a sua entrada negada pelas autoridades quenianas. Pergunta-se: o que têm as duas situações em comum? Muito simples: a República Popular da China e o seu pragmatismo político-económico.


Por Eugénio Costa Almeida

No primeiro caso a China considerou que Portugal não lhe ia trazer mais-valias políticas, sociais e económicas que justificassem a presença e, consequentemente, a alteração da visita do presidente Hu Jintao ao continente africano.
Alguns analistas portugueses não têm problemas em admitir que a visita à China interessou, e interessa, mais a Portugal do que este país possa interessar à China.

A prova disso está nas iniciativas económicas de relevo que partiram de Portugal, como a abertura do Consulado Geral e de uma Delegação do ICEP em Xangai, ou a criação de Centros Portugueses de Negócios em Xangai e Macau.

Da China só uma pequena e velada crítica chinesa a uns certos comentários do líder regional da Madeira quanto à presença chinesa em Portugal, no que foi bem interpretada pelo destinatário que se calou de imediato.

A visita do Dalai Lama, mesmo que para visitar o parque nacional de Maasai Mara, iria acontecer no preciso momento que se realizava um Fórum Social Mundial (FSM), um projecto antiglobalizante que teve o seu início em Porto Alegre, Brasil, nos idos de 2001.

E nós sabemos como o carismático líder religioso não aprecia, de sobremaneira, o papel globalizante de certas potências mesmo que emergente.

E, por isso, e pela segunda vez em 8 anos, viu a sua entrada no Quénia negada.

Pois porque a força globalizante da China já se faz sentir fortemente em África, que o presidente Hu Jintao preferiu visitar alguns países africanos – mais concretamente 8 Estados, África do Sul, Camarões, Libéria, Seicheles, Sudão e, nomeadamente, Moçambique, onde “ofereceu” um perdão total da dívida pública orçada em cerca de 20 milhões de euros.

Mas, como será natural, esse perdão trará, certamente, as suas efectivas contrapartidas, apesar de certas mercadorias moçambicanas poderem, futuramente, entrar na China sem pagamentos alfandegários.

Entre as contrapartidas regista-se a já forte e não recente denúncia da exploração desenfreada e não bloqueada pelas autoridades moçambicanas de madeiras preciosas no vale de Zambézia, um empréstimo preferencial, não se sabe a que juros, de preferencial de cerca de 120 milhões de euros, um crédito do banco chinês Eximbank no valor de cerca de 30 milhões de euros, financiamento do futuro Estádio Nacional de Moçambique, orçamentado em cerca de 10 milhões de euros (Moçambique quer ser um dos países-apoio ao Mundial de Futebol, na África do Sul, em 2010).

Ou seja, genericamente a dívida pública moçambicana à China foi “resgatada” através de diversos protocolos que, globalizam cerca de 180 milhões de euros.

Interessante, o montante da dívida pública de Moçambique à República Popular da China é anulado, mas os novos empréstimos e financiamentos…!!!

África é o novo el-Dourado para a China. Mesmo que para isso os chineses tenham de aprofundar o seu utilitarismo e melhorar o efeito Mahjong.

Não foi em vão que o presidente chinês ao visitar a África do Sul afirmou que as relações China-África eram relações de vencedores-vencedores…

A mesma China que tem deslocado milhares de cidadãos para os seus novos “países-cooperadores” ao ponto da companhia aérea chinesa China Southern ir iniciar, este ano, voos directos entre Cantão, sul da China, e Luanda mas prever que os mesmos possam, futuramente, partir de outras localidades chinesas.

Esta rota aérea deve-se, segundo as autoridades chinesas ao facto de Angola ser, hoje em dia, o maior parceiro económico africano com um comércio bilateral superior a cerca de7,1 mil milhões de euros, contra os 5,21 mil milhões de euros da África do Sul, o antigo grande parceiro da China.

A mesma China que afirmou ir cancelar as dívidas dos Países Menos Avançados (PMA), com maturidade em finais do ano 2005, excepto as de alguns países que não têm relações diplomáticas com a China por terem preferido reconhecer Taiwan, caso de São Tomé e Príncipe.

É o novo pragmatismo chinês em emergência consubstanciado no papel que teve nas recentes conversações para a desnuclearização (??) da Coreia do Norte! Não esquecer que, apesar dos norte-americanos dizerem não temer a forte e incisiva penetração chinesa no continente africano, nomeadamente através da clara presença nos principais países produtores de petróleo do continente – Angola, Sudão e Nigéria – e, em alguns caso, na sua própria gestão, caso do Sudão, os EUA criaram, recentemente, um comando militar só para África, a “Afcom”.

Um pragmatismo a não fiar porque, “doucement”, a China vai gravando a sua pata globalizante onde outros já tentaram e acabaram falhando.

Nota: Artigo também publicado no semanário sãotomense Correio da Semana


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