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Violência é grito de revolta, diz colunista australiana
- 13-Apr-2007 - 14:30


A violência que ciclicamente afecta Timor-Leste "é um grito de revolta" e "não um sinal de grande agitação", defende hoje, num artigo de opinião, uma jornalista australiana num dos principais diários da Austrália.


Judy Charnaud, colunista do Sydney Morning Herald, critica duramente a imprensa, nomeadamente a australiana, a quem acusa de "empolar" as sucessivas crises timorenses, questionando se estará a "apoiar os interesses" do governo de Camberra.

Mas a colunista, que lembra ter vivido seis anos no enclave timorense de Oecussi, na parte oriental da ilha de Timor, lança um "grito de alerta" em prol do povo de Timor-Leste, sublinhando que a questão de fundo não é o propagado "clima de tensão político".

"Não será antes uma indicação de que os jovens estão descontentes e a população frustrada pela lenta mudança, sobretudo pela falta de condições de vida e pelo grande desapontamento, que estão longe do prometido na hora da independência?", questionou a colunista.

Como exemplo, Judy Charnaud relembra que, tal como no passado, durante a ocupação indonésia, milhares de pessoas continuam a viver em campos de refugiados.

"(No Timor-Leste independente) imagine que teria de viver 12 meses numa tenda, sem qualquer comodidade, à mercê da chuva torrencial e das altas temperaturas próprias dos trópicos, com doenças, sem sanitários, pouca água potável e pouca comida. Tudo em conjunto com milhares de outros (refugiados), numa área não muito maior do que um campo de futebol", sustenta a colunista.

"Não haveria lugar para que os seus filhos e filhas expressassem alguma frustração, e talvez a violência, em relação às autoridades?", questiona.

Judy Charnaud lembra, nesse sentido, "a surpresa dos media" ao relatar o facto de meio milhão de pessoas terem "aguardado pacientemente ao sol, algumas durante horas a fio, para votar nas primeiras eleições democráticas desde que (Timor-Leste) acedeu à independência".

"Porque ficaram surpreendidos? Porque estão a indiciar que irá prevalecer um sério clima de tensão? Onde obtêm a informação? Ou isto é apenas a lança do nosso governo (de Camberra) a intrometer-se nos assuntos deste pequeno país em desenvolvimento?", questiona a articulista.

"Parece-me que o que as eleições (de segunda-feira) demonstram é que o povo de Timor-Leste quer a paz e a estabilidade e que está desejoso de encarar o futuro com força e determinação. Devíamos felicitá-lo pela forma como se comportou nas eleições", acrescentou.

A colunista lembra que muitas das localidades timorenses estão "extremamente isoladas" e que, mesmo assim, toda a logística da votação foi entregue "a tempo e horas".

Por essa e outras razões, Judy Charnaud apela à comunidade internacional para continuar a ajudar o povo timorense, que necessita praticamente de todo o apoio e assistência humanitária.

A colunista recorda também as palavras do antigo líder da Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste, o diplomata brasileiro, Sérgio Vieira de Mello, já falecido, proferidas três anos depois de chegar ao país.

"O que é fascinante é a coragem, determinação, resistência e paciência do povo timorense, que não pode nem ser ensinada ou aprendida", escreve Judy Charnaud, citando Vieira de Mello, morto em Agosto de 2003 numa missão idêntica em Bagdad, Iraque.

"Após seis anos a trabalhar no enclave de Oecussi, apenas posso subscrever as suas palavras. Os timorenses merecem o nosso encorajamento e assistência, não os comentários negativos que surgem frequentemente nos media", conclui a colunista.


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