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  Entrevista
Cidade Velha mais importante que ilha de Gorée, diz historiador
- 3-Oct-2007 - 16:12


A Cidade Velha de Cabo Verde é um local historicamente muito mais importante do que Gorée, marcada pela antiga casa de escravos no Senegal e património mundial desde 1978.


É assim que Daniel Pereira, historiador e diplomata cabo-verdiano defende a candidatura da Cidade Velha de Santiago a património da humanidade, um dossier que o governo de Cabo Verde apresenta à UNESCO no início de 2008.

No dia em que começa na Cidade Velha uma conferência internacional de três dias sobre o tema "Cidade Velha: O Futuro do Passado" o historiador disse que a candidatura da ilha de Gorée a património mundial só teve êxito porque teve o apoio francês, deixando assim implícito que a decisão é técnica mas também política.

Para Daniel Pereira, Gorée era apenas uma prisão de escravos mas a Cidade Velha representa muito mais, nomeadamente é "o berço" do primeiro caso de "globalização".

"A Cidade Velha era uma espécie de estação de serviço dos barcos. Estamos a falar do século XV, quando grande parte dos barcos nunca chegaria ao seu destino se não fosse a Cidade Velha", afirmou em entrevista à Agência Lusa, em pleno centro da mais antiga cidade cabo-verdiana.

Pela sua localização, a meio caminho entre África, América e Europa, Cabo Verde, e especialmente a Cidade Velha, foi palco de experiências de miscigenação mas também por aqui se cruzaram plantas e descobertas entre continentes, afirmou.

"A primeira globalização do mundo dá-se aqui. Recebemos de todos os sítios e demos a todos os sítios", defende Daniel Pereira, actualmente embaixador de Cabo Verde no Brasil e um forte defensor da candidatura, que crê vencedora, não pelos monumentos que conserva mas pelo significado para o mundo que o local encerra.

Menos optimista mas com a mesma ideia, Alexandre Mimoso, arquitecto português, entende que a candidatura a património da humanidade tem de assentar na relação entre culturas que se estabeleceu na Cidade Velha a partir do século XV.

Alexandre Mimoso foi responsável pela recuperação do que resta da antiga Sé da Cidade Velha (a segunda parte da recuperação está a cargo do arquitecto Siza Vieira) e acredita que o seu trabalho possa ajudar a candidatura cabo-verdiana, embora a história e o "laboratório de experiências" que foi o local possam ter um peso maior.

Ainda assim, lamenta a falta de "um trabalho de gestão urbana" por parte das autoridades de Cabo Verde.

A Cidade Velha, primeiramente chamada Ribeira Grande e com a categoria de cidade desde 1533, foi ao longo dos anos perdendo os edifícios históricos, já pouco restando na actualidade.

Mesmo as casas de traça colonial estão em risco, já que os seus moradores preferem descaracteriza-las para as tornar mais confortáveis.

Rosalinda Barreto, que nasceu e sempre viveu na Rua Banana, proprietária de uma dessas casas típicas, é uma das que não concorda que se destrua património, embora aponte o dedo também ao governo, que "ainda não deu explicações ao povo" sobre o que é que quer fazer ali.

Sentada à soleira da porta garante que não vai perder nada da conferência e defende que será muito bom se o local for aprovado como património da humanidade. "Traz turistas e melhoras mas a maioria das pessoas não sabe. O Ministério da Cultura devia criar um departamento para explicar às pessoas o que é a candidatura".

E depois, peremptória, afirma que até já se fez uma discoteca num local que também era histórico, construído pelos portugueses.

A Cidade Velha começou a ser construída pelos portugueses em 1462, dois anos depois da descoberta das "ilhas do Cabo Verde" por António de Noli (genovês ao serviço da coroa portuguesa) e Diogo Gomes, navegador português (as ilhas do Barlavento - Santo Antão, São Vicente e São Nicolau foram encontradas depois).

Pela posição geográfica, a meio caminho entre três continentes, a Cidade Velha rapidamente se tornou um importante entreposto comercial e de tráfico de escravos. Na Cidade Velha abasteciam-se os navios que viajavam das índias ou entre os continentes africano e americano.

É essa história que os responsáveis pela candidatura querem elevar a património mundial e que hoje se começa a discutir, com especialistas portugueses, espanhóis, cabo-verdianos mas também de países da América do Sul e do continente africano e da própria UNESCO.

O processo de candidatura começou a ser preparado em 2006 e será apresentado à UNESCO em Janeiro do próximo ano. Só em 2009 é esperada uma decisão.


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