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Modelo do agro-negócio pode voltar a falhar, diz Fernando Pacheco
- 21-Nov-2007 - 21:56


O modelo do "agro-negócio", agricultura altamente mecanizada e virada para a comercialização em grande escala, não era competitivo em Angola no tempo colonial e pode voltar a falhar no futuro, defendeu hoje o investigador angolano Fernando Pacheco.


O engenheiro e dirigente da organização não-governamental Acção para o Desenvolvimento Rural em Angola, falando numa conferência do Centro de Estudos Africanos do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), defendeu hoje o modo tradicional de produção agrícola em Angola, que, afirmou, não deve ser considerado de "subsistência", uma vez que já está virado para o mercado, e inclusive para a exportação.

"Fala-se muito no agro-negócio como tentativa para resolver o problema da agricultura, mas este não foi nenhum sucesso no tempo colonial. Mesmo no café [de que Angola foi um dos maiores produtores mundiais], a produtividade média de uma fazenda era mais baixa do que a de um camponês na Costa do Marfim", afirmou o investigador, intervindo na conferência "Angola 2007: Que Recomposições e Reorientações?".

Contrariando o que durante a manhã havia afirmado Nelson Pestana, da Universidade Católica de Angola, Pacheco defendeu que a qualidade do emprego no agro-negócio é inferior à da agricultura tradicional.

"Procura-se acreditar que através das fazendas pode-se oferecer emprego com mais qualidade a populações rurais, mas isso não vai acontecer", disse o investigador.

Nelson Pestana, que é um dos responsáveis pela conferência de três dias do ISCTE, havia defendido mesmo que a lusofonia "funcionasse" através da concertação entre empresas portuguesas, brasileiras e angolanas para investir no agro-negócio, nomeadamente nos biocombustíveis, que considerou uma importante fonte de criação de emprego.

"Pensa-se que é possível recuperar o modelo que faliu [agro-negócio], mas está demonstrado que não funciona em Angola", defendeu Pacheco.

Como exemplo de um modelo funcional, deu a produção de feijão no Bié, que atinge altos níveis de produtividade cultivado com as técnicas tradicionais, tendo sido inclusivamente desenvolvida uma rede comercial à volta deste produto.

Transportado por "candongueiros", chamados de "zairenses" (por serem originários do antigo Zaire ou da província angolana do Zaire), o feijão chega a zonas remotas do país e atravessa mesmo a fronteira, em direcção à República Democrática do Congo, afirmou Pacheco.

Ao contrário dos grandes investimentos agrícolas, defendeu que o microcrédito está a alcançar melhoras significativas na agricultura, de que depende a maior parte da população rural angolana.

Pacheco alertou ainda para a existência de conflitos latentes em relação à posse dos solos em Angola - que envolvem pequenos agricultores, fazendeiros, pastores, Estado e comunidades vizinhas - dado que o número de títulos de propriedade existentes é muito reduzido.

Estes conflitos, afirmou, estão nalguns casos a complicar os grandes projectos agrícolas lançados pela administração central ou provincial.

Neste segundo dia da conferência "Angola 2007: Que Recomposições e Reorientações?", houve ainda lugar a intervenções de Margarida Ventura, da Universidade Agostinho Neto, de Teresa Koloma-Beck, da Universidade de Berlim, além de Cristina Rodrigues, do ISCTE, e do já referido Nelson Pestana.

A conferência prossegue amanhã, com um painel inteiramente dedicado aos aspectos políticos, que terá como oradores, entre outros, André Sango, da Universidade Agostinho Neto, e Jorge Cardoso, da Universidade Lusíada de Luanda.


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