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  Entrevista
Secretário-geral do PAICV abandona cargo por razões de saúde
- 26-Jan-2008 - 19:32


O secretário-geral do Partido Africano da Independência de Cabo Verde vai dedicar-se ao estudo e à escrita depois de ter sido "obrigado" a mudar-se para Portugal e a renunciar ao cargo por causa de um problema de saúde.


Uma insuficiência renal e a falta de um centro de hemodiálise em Cabo Verde foram os motivos que levaram Mário Matos a viver em Lisboa e a abandonar a vida política em Cabo Verde.

Na quarta-feira, o político renunciou formalmente ao cargo de vice-presidente da Assembleia Nacional e vai deixar este fim-de-semana o de secretário-geral do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV).

"Este fim-de-semana haverá uma reunião ordinária do conselho nacional, onde me deverão substituir", disse hoje Mário Matos.

Numa entrevista à Agência Lusa na véspera de deixar o cargo de secretário-geral do PAICV, o líder partidário avançou que quem o deve substituir é "provavelmente" Eduardo Monteiro, deputado e membro da comissão política.

Para Mário de Matos, Eduardo Monteiro é "sem dúvida" uma boa escolha para o substituir porque é um "quadro com grande experiência partidária".

No entanto, em Cabo Verde o nome que surge como próximo secretário-geral do PAICV é o do antigo ministro da Administração Interna, Júlio Correia.

Na entrevista à Lusa, o líder partidário sublinhou que se recusa, no entanto, a renunciar ao mandato de deputado.

"Por razões bem fortes, não renuncio (ao mandato de deputado), vou suspendê-lo. Não gostaria de romper a ligação com o eleitorado por causa de uma questão de saúde", afirmou.

A fazer hemodiálise três vezes por semana, o ainda secretário-geral do PAICV disse que esta saída de Cabo Verde "é uma grande mudança", mas não está a ser tão difícil quanto esperava.

"Tinha previsto, por causa do problema de saúde, a retirada do cargo antes de 2008, mas não foi possível. No entanto, está a ser menos duro do que esperava, porque constato que me vinha a preparar psicologicamente para isso. (A saída) não era uma hipótese remota, era algo que se afigurava como possível", afirmou.

Mário Matos encara a vinda para Portugal com optimismo e vê esta nova etapa como uma "grande mudança", que implica "reprogramar" toda a sua vida.

"Vou aproveitar para fazer coisas que gosto como escrever", disse o político à Lusa, adiantando que está a pensar em ter uma coluna de opinião política semanal num jornal cabo-verdiano.

Para já tem um compromisso de escrever para a nova página de Internet do PAICV, que vai ser apresentada este fim-de-semana, durante o conselho nacional, vai coordenar as estruturas do PAICV na Europa, tirar um mestrado e não exclui a possibilidade de lançar um livro de poemas em crioulo.

"Vou tirar em Lisboa um mestrado em Ciência Política, que começa em Setembro, e até lá vou aproveitar para fazer leituras. Ao mesmo tempo vou exercer o cargo de coordenador das secções do partido na Europa", afirmou.

De acordo com o político cabo-verdiano, o partido tem estruturas na emigração em vários países da Europa, nomeadamente Portugal, Espanha, França, Itália, Holanda e Luxemburgo.

Mário Matos tem uma insuficiência renal terminal, que implica ter de fazer hemodiálise com regularidade até ao fim da sua vida.

Outra hipótese será um transplante renal, mas o político afirmou que essa é uma possibilidade remota porque mesmo conseguindo um rim, há sempre "o problema da compatibilidade".

No horizonte está, porém, a possibilidade de Cabo Verde ter o seu primeiro centro de hemodiálise em 2009, mas Mário Matos admite que mesmo assim não irá regressar de imediato ao arquipélago.

"Não direi que vou regressar, mas já me daria outra logística para ir e vir", afirmou à Lusa, adiantando que "não vai parar o mestrado".

"Gosto de estudar. Vou mais para a frente", disse.

Questionado pela Lusa sobre os motivos da inexistência de um centro de hemodiálise em Cabo Verde, Mário Matos apontou prioridades e opções que se tiveram de fazer no país.

"Em 1975 morria-se em Cabo Verde de problemas como diarreia, doenças respiratórias infecciosas e tínhamos uma grande taxa de mortalidade infantil. Essas é que eram as prioridades. Agora estamos no momento de ter os cuidados especiais", indicou.

De acordo com Mário Matos, a luta contra o cancro, tratamentos de quimioterapia e hemodiálise são as "preocupações" do momento.

O político veio para Lisboa ao abrigo do protocolo de cooperação com Cabo Verde na área da saúde, que permite ao arquipélago enviar para Portugal até 300 doentes por ano que não podem ser tratados no país.

Portugal fica responsável por todos os tratamentos e internamentos (quando necessários) e Cabo Verde pelas passagens e estada na capital portuguesa.

"É uma ajuda fulcral que a cooperação portuguesa dá", sublinhou o político, admitindo que o subsídio que o governo de Cabo Verde dá para os doentes cabo-verdianos pagarem as suas despesas é pequeno.

"Não falo por mim, que tenho outras formas de subsistência, mas não é um grande subsídio para os que cá estão", afirmou, lembrando que muitos têm de ficar em pensões porque não podem suportar os custos de uma casa.

A viver com a filha mais nova, que estava a estudar em Portugal, Mário Matos espera que a mulher, professora universitária em Cabo Verde, se venha juntar à família ainda no primeiro trimestre de 2008.

Para já, disse estar a encarar a sua doença de uma forma positiva e promete continuar a estar atento à política cabo-verdiana e a intervir nos problemas do seu país.


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