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  Entrevista
Correia de Campos admite excessos e fraudes, mas diz que são normais
- 4-Feb-2009 - 11:46


O ex-ministro da Saúde António Correia de Campos admitiu hoje a existência de "excessos" e até de "fraudes" no sector, classificando-as como "perfeitamente normais".


Por Sandra Moutinho
Agência Lusa

"Que haja dois, três, cinco por cento de fraudes no Serviço Nacional de Saúde (SNS) é perfeitamente natural", disse Correia de Campos, em entrevista à Agência Lusa.

O ex-ministro, substituído há um ano pela pediatra Ana Jorge, mostrou-se "convicto das virtudes da transformação dos hospitais em Empresas Públicas Empresariais (EPE)" e mais crente do que nunca no SNS, criado há 30 anos.

No entanto, António Correia de Campos admitiu ser "sempre passível haver aqui e ali excessos, exageros, uma ou outra fraude".

"O que o gestor máximo tem de fazer é estar atento e ter mecanismos de intervenção", disse, recordando o sucesso da mediação que fez em 2005 quando, numa cerimónia pública no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, revelou que a nova direcção desta instituição, onde foram registadas fraudes com o aprovisionamento, estava a receber ameaças de morte.

"A minha presença ali teve a ideia de fazer passar para fora das paredes do Hospital de Santa Maria e para todo o sistema que não estávamos a brincar e não nos deixávamos intimidar com a pequena ou grande vigarice", referiu.

A medida, disse, "teve um resultado óptimo porque se resolveu o assunto naquele hospital e, provavelmente, preveniram-se casos em outros sítios".

Mas Correia de Campos tem consciência de que o sector não é impermeável a fraudes e atribui as mesmas à "organização humana". "Em todas as grandes organizações há sempre ovelhas escuras, ranhosas, ovelhas negras", disse.

Apesar disso, o ex-ministro continua a defender a transformação dos hospitais em EPE. "É uma linha absolutamente lógica que tem naturalmente os seus riscos, como todas as reformas", disse.

Recentemente, a sua sucessora, Ana Jorge, sustentou que o principal problema do sector é "organizacional", uma doença cujas causas estão nos "administradores e directores de serviço hospitalares".

"Um dos grandes problemas da Saúde em Portugal é organizacional", disse Ana Jorge, numa entrevista à Lusa a propósito do primeiro ano à frente do Ministério.

Correia de Campos não comenta o desempenho da sua sucessora, mas considera que esta está a dar continuidade, “e muito bem”, a algumas das reformas que protagonizou.

O ex-ministro elege como as medidas mais emblemáticas da sua passagem de três anos pelo actual Governo a reforma dos cuidados de saúde primários, a criação dos cuidados continuados e a saúde oral.

Medidas que não geraram polémica, ao contrário da concentração dos blocos de parto e da reestruturação dos serviços de urgência.

Sobre o fim dos protestos de utentes e autarcas, que estavam no auge aquando da sua substituição, há um ano, o agora professor no Instituto Nacional de Administração (INA) reconheceu que a sua saída apaziguou os ânimos.

Em relação à justiça ou injustiça da sua saída, Correia de Campos escusou-se a partilhar "estados de alma", revelando apenas que se sente "profundamente compensado politicamente".

"Não tenho nenhuma falta de auto-estima nessa matéria. Pelo contrário, recebo comentários de apreço em todo o país e ainda hoje sou interpelado na rua por pessoas que me dizem que eu fiz alguma coisa pelo SNS", disse.

"Saí bem, saí na altura certa", disse, adiantando que não aceitaria outro cargo na Saúde, mas que está "pronto para servir o país".

"Estou vivo e de boa saúde e, portanto, pronto para servir o país", afirmou ainda Correia de Campos.


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