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  Cabo Verde
Germano Almeida lança «Viagem pela História das Ilhas»
- 18-Jun-2003 - 14:20

Contar a História como se fosse uma estória e mostrar curiosidades que ela encerra foi a intenção do escritor Germano Almeida ao escrever "Cabo Verde - Viagem pela História das Ilhas", a lançar hoje no Mindelo.


A obra, publicada pela Ilhéu Editora, será lançada igualmente sexta-feira na Cidade da Praia, capital cabo-verdiana, e a sua edição para Portugal, da Editorial Caminho, será apresentada ao público no próximo dia 2 de Julho, em Lisboa.

Com 270 páginas, acompanhada de fotografias do jornalista português José António Salvador, está estruturada em duas partes, uma que aborda a História de Cabo Verde desde o seu achamento, outra que narra a história de cada uma das ilhas do arquipélago cabo-verdiano, composto por nove habitadas e uma desértica.

Germano Almeida contou à Agência Lusa que anda desde 1995 "às voltas" com "Cabo Verde - Viagem pela História das Ilhas", e que a sua preparação lhe exigiu aturadas pesquisas, a maioria em Portugal, designadamente na Sociedade Portuguesa de Geografia.

Apaixonado confesso pela História, disse que quando idealizou o projecto pensava que sabia muito sobre o assunto, mas, ao longo das pesquisas, concluiu que nem 20 por cento conhecia, dada a riqueza revelada.

"O que me interessou de facto foram as curiosidades da História", salientou, frisando essa aventura pelo que desconhecia do seu povo foi também uma forma de descobrir coisas sobre si próprio.

Entre esses episódios pouco conhecidos do percurso cabo- verdiano Germano de Almeida conta que, por volta de 1720, a ilha de Santo Antão foi vendida aos ingleses pelo seu donatário, que ali instalaram tropas e colonos. Durante anos, foi uma possessão inglesa sem que isso se soubesse nas outras ilhas ou em Portugal.

Já de si terra de pouca chuva, Cabo Verde tem sido fustigada ao longo dos séculos por secas, e fomes. E o autor desentranha histórias em que, nesse drama, algumas mães terão ajustado entre si o consumo de filhos pequenos que iam matando à vez.

E mostrar a história dessa resistência do povo cabo-verdiano, que ao longo dos séculos o talhou com um peculiar perfil psicológico, foi uma das principais razões que mobilizaram Germano de Almeida para este projecto.

Está convicto que, se os governantes conhecessem melhor a História do país, não teriam tomado medidas tão erradas como aconteceu especialmente no período de ascensão ao poder do Movimento para a Democracia (MpD), em 1991, após a abertura do país ao multipartidarismo, nomeadamente no domínio das privatizações e liberalização da economia.

"Cabo Verde sempre precisou de um Estado forte. Então, a minha ideia inicial era provar que ao longo da História sempre que o Estado abandonou o cabo-verdiano ele morreu à fome. Sempre que o Estado o amparou, mesmo nas situações de crise, ele sobreviveu", explicou à Lusa.

No entendimento de Germano de Almeida, "é preciso conhecer as coisas, mesmo as mais dolorosas", para as pessoas se poderem situar na realidade.

E, para reforçar a sua tese, recorre a uma citação, que lhe é cara, do ensaísta português Eduardo Lourenço, em que diz que "perder a memória do passado é para o presente falhar o futuro".

Ao reportar-se à forma como realizou "Cabo Verde - Viagem pela História das Ilhas", o escritor confessou que a sua intenção não foi respeitar o rigor científico com que uma obra de História é elaborada, mas fazer um trabalho de leitura fácil.

Embora não fundamente cada uma das afirmações que produz através de notas, diz que elas se encontram escritas e a maioria são extraídas das diversas fontes bibliográficas indicadas nas páginas finais do volume.

"Não tenho a preocupação do rigor histórico no sentido de dizer garanto, suporto tal afirmação em tal fonte. Não tenho essa preocupação. Se me interessa essa afirmação uso-a, não invento. Uso-a com base em alguma coisa que já foi escrita", explicou.

Outra das intenções em escrever a obra foi também para tentar mostrar que "cada ilha tinha criado um homem diferente", apesar de existir um "núcleo comum" a todos eles. Uma identidade talhada pelo isolamento e pelos condicionalismos da natureza e da história.

Esta longa pesquisa permitiu ainda a Germano de Almeida descobrir pistas para o seu ofício literário. E tão fascinando ficou com certos episódios do século XVIII, do tempo do Marquês de Pombal, que está a pensar escrever uma narrativa histórica.

Em Cabo Verde a edição da obra, pela Ilhéu Editora, teve uma tiragem de 1.000 exemplares, e apenas uma pequena parcela ainda está disponível para venda. A portuguesa, pela Editorial Caminho, é de 2.000 exemplares.

Germano de Almeida encara a possibilidade de vir a reeditar a obra brevemente, e também numa edição popular, para a tornar economicamente mais acessível, sem aparência luxuosa e desprovida de fotografias.

Em fase de conclusão, o escritor tem uma outra obra, que é um conjunto de estórias cujo elemento de união é o facto de as personagens se encontrarem na praia.

Desde a sua estreia, em 1989, com "O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", Germano de Almeida já publicou "O Meu Poeta", "A ilha Fantástica", "Os Dois Irmãos", "Estórias de Dentro de Casa", "A Família Trago", "Estórias Contadas", "Dona Pura e os Camaradas de Abril", "O Dia das Calças Roladas" e "As Memórias de Um Espírito".

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