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  Cabo Verde
Projecto cultural inovador na Cidade da Praia
- 5-Nov-2002 - 20:08

Uma livraria-biblioteca, uma escola de música e uma galeria de artes plásticas fazem parte desde hoje do mais importante projecto cultural não governamental de Cabo Verde, o «5al (quintal) da Música», na Cidade da Praia.


«Isto vai no sentido do projecto sonhado do «Quintal da Músical», declarou o músico e escritor Mário Lúcio Sousa, um dos principais dinamizadores da Associação «5al da Música», com pouco mais de dois anos de existência.

Desde a sua fundação, o «5al da Música» tem-se dedicado à promoção das artes e a estimular o surgimento de novos talentos, com especial incidência na música, através do seu espaço de café-concerto permanente.

A nova face do projecto inclui uma galeria para exposições de artes plásticas, que se intitula «Galeria dos Escondidos», que será gerida pelas Associação Talentos Escondidos, constituída por jovens artistas originários das nove ilhas habitadas do arquipélago.

«A nossa ideia é levar a arte às pessoas e participar na educação dos jovens. Então optámos por criar uma ciber-galeria», com computadores para acesso à internet, aproveitando a sua estratégica inserção numa zona da cidade próxima de uma importante liceu, disse.

Segundo Mário Lúcio Sousa, isso vai implicar que «obrigatoriamente as pessoas tenham de ver os quadros», quer sejam os alunos, quer os cidadãos, nacionais e turistas, que têm no «5al da Música» um espaço de referência obrigatório na Cidade da Praia.

O «Salão Musical» terá duas vertentes, a de formação, com uma escola, e a de comércio, «a preços acessíveis», de instrumentos e acessórios, quer para iniciação, quer para executantes mais exigentes, preenchendo uma lacuna em Cabo Verde.

«O Salão será um espaço aberto, em que as pessoas poderão ir a qualquer hora. Haverá pessoas para ensinar através do método tradicional ou empírico. Durante o dia quem queira aprender passa por ali para receber lições», explicou.

Segundo Mário Lúcio Sousa, trata-se do embrião da escola de música do «5al» e começará com guitarra, violino, piano, percussão africana e percussão latina. Seguidamente será o acordeão.

«A nossa grande aposta é preservar os métodos e as técnicas tradicionais e gradualmente alargá-la», explicou, salientando que actualmente já possui outros instrumentos, como clarinetes e saxofones, mas não existem no país professores para essas aprendizagens.

No entanto, o «5al da Música» estabeleceu contactos com instituições austríacas, nomeadamente com a escola de música da cidade de Bad Ischl, e com a academia Mozarteum, de Viena, para assegurar deslocações periódicas, de um ou dois meses, para o complemento da aprendizagem e partilha de experiências.

«Ao mesmo tempo que dão estágio aos professores residentes deixam lições científicas para complementar o método tradicional», disse Mário Lúcio Sousa, frisando que essas instituições austríacas irão atribuir títulos académicos aos estudantes, que lhe abrirão as portas para o exercício de uma profissão ou prosseguimento de estudos musicais.

No entanto, a intenção é conseguir o reconhecimento oficial dos graus atribuídos e também integrar a aprendizagem da escola do «5al da Música» no sistema de ensino cabo-verdiano, tendo para o efeito já encetado contactos com o Ministério da Educação.

«A nossa estratégia e salvação é funcionar como funcionam os pobres agricultores deste país. Temos de sobrevir com o que temos, inventando métodos», salientou Mário Lúcio Sousa em alusão à estratégia adoptada para erguer o projecto.

Os professores residentes serão pagos pelos alunos e para as crianças que não tiverem meios serão angariados patrocínios para custear a sua formação. E sempre que se desloque a Cabo Verde um concertista será aproveitada a sua experiência para a pôr ao serviço da escola.

Os métodos pedagógicos serão definidos previamente, mas cada professor tem autonomia para os pôr em prática. E não haverá recurso a processos de administração convencionais. Cada um terá os seus alunos e poderá até ensiná-los na sua própria casa.

«Nós não temos uma academia de música, mas um atelier de música. É recriar aqueles espaços tradicionais de há 20 ou 30 anos, onde em cada esquina havia um velho que ensinava toda a comunidade. Foi assim que eu aprendi», afirmou Mário Lúcio Sousa.

A escola tem suscitado o interesse não apenas das crianças mas também de adultos que desejam aprender outro instrumento, aprofundar os seus conhecimentos ou simplesmente aprender a ler e escrever música em pauta.

A «Biblioteca-Livraria Eugénio Tavares» é «outro sonho do 5al da Música», de ter uma biblioteca especializada em artes, onde se possa encontrar toda a literatura cabo-verdiana, «o melhor da literatura portuguesa» e obras de referência da literatura mundial, traduzidas ou no original.

E possuirá ainda um fundo bibliográfico de obras especializadas em arquitectura, pintura ou música, preenchendo uma carência no país, e «ajudando os alunos do liceu a melhor escolher os caminhos que pretendam seguir».

A escolha do nome de Eugénio Tavares, poeta, compositor e jornalista, para a biblioteca-livraria, teve em vista homenagear esse escritor que Mário Lúcio Sousa considera um génio - «Eu génio Tavares», grafia com que aparece na indicação do novo espaço.

Foi também considerado um dos renovadores da morna, a canção nacional, e algumas das mais belas e mais cantadas têm o seu cunho.

Eugénio Tavares nasceu na ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, mas apenas foi registado a 05 de Novembro desse ano, há precisamente 135 anos. Faleceu a 1 de Junho de 1930.

Para erguer este projecto, a associação «5al da Música» socorre-se da disponibilidade de amigos, de dádivas e das receitas do bar onde funciona o café-concerto. Não tem apoios oficiais, disse Mário Lúcio Sousa.

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