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Eugénio Costa Almeida
Hillary Clinton em Angola para…?
A Secretária de Estado (similar ao Ministro das Relações Exteriores) Hillary Clinton, no périplo que está a fazer por África, esteve em Angola (depois do Quénia e da África do Sul visitará ainda a R. D. Congo e Cabo Verde) onde assinou alguns acordos, por certo, e onde deixou alguns dardos quer para o Governo, quer para a oposição, ou seja, como alguém muito bem escreveu, arriou “uma no cravo e duas outras na ferradura”.
A senhora Clinton, recebida no 4 de Fevereiro – que segundo me disseram já acabou de reformular a sua gare internacional – pelo Ministro das Relações Exteriores, o embaixador Assumpção dos Anjos, manteve vários contactos a nível de Estado, nomeadamente com o ministro dos Petróleos, Botelho de Vasconcelos, com o presidente da Assembleia Nacional, Fernando Piedade dos Santos, e com o Chefe de Estado, Eduardo dos Santos.
De acordo com as notícias de Luanda, a visita terá sido politicamente – e economicamente, ou não saísse de Angola 7% do crude consumido nos States – muito proveitosa.
Economicamente porque as principais empresas petrolíferas que operam em Angola são norte-americanas e ainda há uns dias anunciaram a descoberta de crude de altíssima qualidade, o que não acontece com o crude que, actualmente, é explorado em Angola.
Como se sabe, o crude angolano é de qualidade semi-dura, ou seja, intermédia e de cotação própria, isto é, não se enquadra nem no do mercado Brent nem do de New York.
Por outro lado houve assinatura de acordos/memorandos para ajudar a agricultura angolana que, recordou, deve ser revitalizada dado, em tempos, ter sido, no passado, “um sector económico vital, produtor, que proporcionou muitos empregos, e sector que foi destruído pela guerra, mas que no futuro se pode tornar um motor económico importante”.
É bom, porque assim, talvez, deixemos de explorar primordialmente a soja, como algumas inteligências preconizavam para fazer face às necessidades chinesas e brasileiras – actualmente, e cada vez mais, dois dos nossos principais parceiros económicos –, nem nos especializarmos em agricultura biotecnológica, ou seja, para reconverter em combustíveis. As terras angolanas são demasiado ricas para servirem quase somente monoculturas e, a maioria, para exportação.
Mas se economicamente os benefícios podem ser muitos, politicamente nem por isso algumas farpas foram deixadas na mala diplomática da senhora Clinton.
Uma das vontades dos angolanos, nomeadamente, dos activistas de direitos humanos e da oposição, por que tanto reclamaram parecem terem chegado aos ouvidos da secretária de Estado norte-americana.
De facto, Hillary Clinton também teve contactos não só com deputados oposicionistas como com a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Nacional e fez transmitir que as eleições presidenciais não devem ser adiadas. Este adiamento poderia ser classificado – e creio que muito bem – como uma machadada nas aspirações democráticas dos angolanos.
Tal como não deixou de recordar que a transparência na vida política é dos meios mais creditícios que um Governo pode apresentar perante a comunidade internacional e perante o FMI com quem Angola voltou a ter encontros (e, segundo se consta nos “mentideros” da diplomacia angolana, por imposição de Eduardo dos Santos; eleições oblige…).
Mas se a transparência política é necessária e obrigatória, a defesa dos interesses populacionais não o são menos. Esperar que o Presidente faça uma declaração televisiva para que eventuais assassinos da deputada Beatriz Salucombo e de seu irmão tenham sido detidos enquanto outros assassínios de deputados mantenham–se esquecidos não demonstram uma boa e justa política social.
Há que alterar as coisas e dar mostras à população que o compadrio, a corrupção, as fraudes, e os diversos atentados à dignidade humana em Angola não estão dependentes de uma palavra do, ainda, mais alto Magistrado da Nação.
Esperemos, por isso, que as palavras – as ditas e as subentendidas – da senhora Clinton não tenham escorregado num saco roto e que a visita ao Congo Democrático não se torne uma dor de cabeça para o vizinho – e já potência regional, como Hillary Clinton reconheceu – do sul com quem anda a disputar umas pretensas fronteiras reformuladas…
10/Ago/2009
elcalmeida@gmail.com
http://elcalmeida.net
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