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  Entrevista
Doentes com Sida em Moçambique sentem-se discriminados pelo Governo
- 10-Sep-2009 - 23:56


Organizações Não Governamentais lideram protestos, mas tem sido em vão

A degradação no atendimento dos seropositivos e a falta de resposta do governo moçambicano aos reptos para promover mudanças, levaram as ONG MATRAM e EuDream a organizar mais protestos em todo o país.


Na sequência dos protestos de Agosto em Maputo e Beira, que reuniram milhares de pessoas, a “Liga contra o estigma” promoveu hoje marchas em Nampula e no dia 11 em Lichinga, Pemba, Tete, Quelimane, Xai-Xai, Chimoio e Inhambane.

A Liga promoveu uma conferência de imprensa para divulgar a mobilização e denunciar que “este governo não está preocupado com as questões que estão a ser levantadas”, segundo o coordenador-geral da MATRAM, Cesar Mufanequisso.

A principal reivindicação do movimento é a melhoria no atendimento e no tratamento dado aos seropositivos. A Liga afirma que cerca de 40 por cento dos seropositivos que estavam a receber tratamento antiretroviral o abandonaram.

Esta realidade deve-se ao facto de em Março de 2008 o ministro da Saúde ter decidido fechar os hospitais-dia exclusivos para seropositivos e desmantelar a rede de apoio das ONGs.

Esmeralda Gune, 35 anos, é uma das que desistiram do tratamento. Ela parou de tomar os medicamentos em Julho do ano passado e conta que o fez porque tinha de subornar os enfermeiros para ser atendida com alguma rapidez. Ela também sentia que sua saúde estava a piorar, mas o médico dizia que estava bem.

“Nunca fui bem tratada no Hospital Central e tinha sempre que dar dinheiro de refresco para que me atendessem. Dava entre 50 a 100 meticais aos serventes e ao pessoal da enfermaria”, afirma Gune.

Depois da mudança para um hospital comum, conseguiu fazer também com suborno um teste CD4, que mede a força do sistema imunitário, mas os resultados nunca lhe foram mostrados.

“Queremos de volta o bom tratamento aos doentes nos hospitais”, exigiu o coordenador-geral da MATRAM, Cesar Mufanequsso.

Pedro, 30 anos, recebia o tratamento antiretroviral no hospital-dia José Macamo e foi transferido para o Centro de Saúde da Matola. Ele afirmou que no último hospital não há salas próprias para o atendimento aos pacientes seropositivos e muitas vezes sente-se discriminado.

“Nunca te podes sentir bem, se te atendem no meio de outras pessoas que ao saberem que és seropositivo olham-te como se não fosses um ser humano”, disse.

Na época do fecho dos hospitais, o ministro da Saúde, Paulo Garrido, justificou a decisão com a tese de que os seropositivos sofreriam menos discriminação se fossem atendidos nos mesmos locais dos outros pacientes. Segundo Garrido, a existência dos hospitais aumentava o estigma das pessoas seropositivas.

Houve protestos na época e críticas de que o governo tomou a decisão sem consultar a sociedade civil e as pessoas envolvidas.

Mufaniquisso explica que as instituições ligadas ao HIV/SIDA fizeram várias tentativas de diálogo e de persuasão. Como nada adiantou e o acesso ao tratamento ficou cada vez mais difícil, decidiram partir para o protesto.

“Os moçambicanos não reclamam logo. Eles esperam que o problema se agrave”, disse Flávio Ismael, da Eu Dream.

“Apesar de terem sido cépticas, as pessoas pensaram que haveria de facto uma transferência fiel dos serviços, o que nunca aconteceu”, sublinhou Leonel Xavier, activista da MATRAM.

Mas a mobilização ainda não sensibilizou o governo. No dia seguinte às manifestações de 3 de Agosto, o ministro Garrido disse em entrevista à rádio Antena Nacional que a decisão de fecho dos hospitais-dia é irreversível.

Mufanequisso rebate: “Não nos importamos com o nome. Queremos a melhora no atendimento e o resgate das boas práticas dos hospitais-dia”. Ele acredita que “este governo não está preocupado com as questões que estamos a levantar”, e que “não há justificativa técnica para o desmantelamento da rede comunitária” que garantia o bom atendimento dos seropositivos.

A rede a que se refere era formada por grupos de apoio que auxiliavam na parte administrativa dos hospitais-dia, visitavam os pacientes que deixavam de ir às consultas ou de levantar os antiretrovirais, auxiliavam nos testes e aconselhamento. Médicos, voluntários e activistas recebiam subsídios com recursos de instituições estrangeiras para integrar os grupos.

“Muitas das instalações, dos hospitais que faziam o atendimento foram construídos por estas ONGs”, ressalta Mufanequisso.

A liga denuncia que as unidades sanitárias para onde os seropositivos passaram a ser tratados não foram preparadas para prestar aquele tipo de serviços. Enfretavam problemas de falta de técnicos especializados, com formação clínica adequada e insuficiência de equipamentos.

“O tratamento foi introduzido de forma brusca nas unidades sanitárias. Foi rápido e não se construiu alicerces antes disso. Essa foi uma grande falha”, acredita Xavier.

Magumba, confessa que “para além de questões médicas as clinicas especializadas para cuidados e tratamento antiretroviral serviam também de lugar onde os seropositivos trocavam ideias e aprendiam melhores práticas conducentes a uma vida positiva”.

Entretanto, Mazuze apela ao MISAU a criar uma equipa de monitoria para medir o actual grau de estigma e discriminação a seropositivos nas unidades sanitárias, de modo a ter uma melhor visão clara no terreno daquilo que a decisão esta surtir.

O processo de fechamento dos hospitais-dia foi gradual e alguns, como João*, foram transferidos recentemente. Há dois meses ele levanta seus ARVs em um hospital comum e reclama do tratamento recebido dos farmacêuticos: “O comportamento dos farmacêuticos está a nos empurrar para a morte e nos desancoraja a seguir a terapia”, disse.

Fonte: PlusNews/NL


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