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Actores negros reclamam mais oportunidades de trabalho
- 17-Jul-2003 - 21:48
Ser actor negro em Portugal significa enfrentar de "cabeça erguida" algumas discriminações raciais e salariais, poucas oportunidades de trabalho e lutar ferozmente pelos sonhos de infância, especialmente nos meios televisivo e do cinema.
Por Isabel Marisa Serafim
da Agência Lusa
Numa tarde de domingo, a Agência Lusa juntou no Teatro da Comuna, em Lisboa, um grupo de actores de origem africana e questionou- os sobre a pouca presença de indivíduos de raça negra nas produções televisivas nacionais.
A resposta foi uníssona: não há oportunidades para actores negros no cinema e na televisão, o teatro é a área mais aberta, embora a maioria das companhias não tenha actores negros fixos.
Num país onde a televisão tem tido um papel fundamental no tratamento, através da ficção, de assuntos que até há pouco tempo eram considerados tabú, como a homossexualidade, a toxicodependência ou a violência doméstica, os actores negros continuam a queixar-se de discriminação racial, e a possibilidade de a eliminar junto do público continua fora de alcance.
Patrícia Bull, actriz de origem africana, conhecida por entrar nas telenovelas portuguesas, disse à Lusa que nunca se sentiu discriminada, devido à sua aparência física, loura e de olhos azuis, "mas sente discriminação em relação aos colegas".
"Nas produções que faço, a minha família nunca aparece", salientou Patrícia, acrescentando "que a televisão deve retratar a realidade".
E qual é a realidade portuguesa? - Mais de 114 mil emigrantes de países de África vivem em Portugal e 107 880 são de países onde o português é a língua oficial, segundo os últimos dados divulgados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
A este número devem juntar-se os indivíduos de raça negra que já nasceram em Portugal e que, de acordo com um estudo realizado pelo ISCTE, em Maio 2002, a pedido da Secretaria de Estado da Juventude, "não se identificam com os portugueses".
O ISCTE chegou também à conclusão que somente 04 por cento desses jovens se revêem na sociedade portuguesa.
Um número que a actriz Catarina Matos, portuguesa de gema, filha de um médico e ex-estudante do Colégio Moderno, justifica com a sua própria experiência.
Apesar de culturalmente portuguesa, no princípio da sua carreira interpretou papéis de personagens africanas, brasileiras e até indianas, o que lhe deu o triplo do trabalho, porque, devido à cor da pele, é sempre "requisitada para representar culturas diferentes".
O jovem negro não se identifica com a sociedade portuguesa, porque não tem referências de destaque, excepção para o desporto e para a música.
No mundo televisivo, não existem apresentadores negros, pivots de noticiário negros (excepção para a RTP África, um canal disponível mediante a instalação da TV Cabo), nem actores negros nas produções nacionais que retratem histórias comuns do quotidiano português e que são vistas por milhares de pessoas.
O grande sucesso da TVI "Anjo Selvagem" não tinha um único actor negro no elenco principal, enquanto na sua mais recente produção "Saber Amar" existe a personagem Zé Café, interpretada pelo actor Milton Lopes, que mais uma vez não tem um núcleo familiar, ao contrário dos restantes interpretes.
Isabel Ferreira, actriz angolana e advogada, "acha que Portugal está a regredir" em relação a vários países europeus, onde é normal ver actores negros a fazer televisão, teatro, cinema e publicidade.
A actriz denunciou ainda que os acordos culturais no âmbito da CPLP (Comunidades de Países de Língua Portuguesa), "não são postos em prática", explicando que "os brasileiros gravam em todo o lado, mas, por exemplo, os angolanos não".
"Tenho notado que em Portugal há uma certa discriminação, já fiz vários +castings+ e fico sempre com essa a sensação", salientou a actriz, que está em Portugal a completar a sua formação no Instituto Superior de Teatro e Cinema.
Uma situação que a NBP, produtora nacional responsável pela maior parte da ficção nacional, pretende começar a alterar.
Segundo a directora artística da NBP, Cucha Carvalheiro, luso- angolana e neta de avó negra, "gostaria de começar a introduzir actores negros nas produções, porque faz parte da realidade portuguesa".
"Acho fundamental que os actores negros apareçam com profissões normais, como arquitectos, engenheiros, advogados, para tentar criar modelos que sirvam de referência às crianças negras".
"Há na NBP uma preocupação de introduzir as comunidades emigrantes, mas é um processo que não depende só de nós, passa também por habituar o público a isso", salientou Cucha Carvalheiros, explicando que a área da publicidade também deveria ter aqui um papel importante.
No entanto, de acordo com Zé Pedro, da empresa Patrícia Vasconcelos Castings, "existem uma série de preconceitos em relação a determinados produtos", salientando que não se lembra de alguma vez ter feito um casting para um banco, que incluísse um actor negro.
Confrontado pela Agência Lusa, com o facto de grande parte dos jovens negros serem portugueses, Zé Pedro adiantou que "o problema passa pela abordagem do universo dos actores e não há muitos meios para os actores negros exprimirem as suas qualidades".
"Há uma certa preguiça em apostar em actores negros", uma situação que acaba por criar "um círculo vicioso".
Mariana (nome artístico), um actor negro que teve a sua primeira experiência no filme "Zona J", disse que nos trabalhos para que tem sido solicitado foi sempre escolhido pela cor e não pela sua qualidade como profissional.
"Na televisão não se aposta na qualidade, os actores são escolhidos pela aparência física e os bons profissionais são postos de lado", referiu Mariana, que trabalha como assistente de produção na MGM - Filmes.
Já Félix Fontura, outro actor negro lançado no "Zona J", afirmou que "se soubesse que ser actor em Portugal não tinha continuidade preferia não ter feito o filme", que o lançou para o estrelato.
"Trabalho numa sapataria na Amadora, as pessoas reconhecem-me e cobram-me por não estar a fazer nada", disse Félix Fontura, salientando que "temos de admitir que não há trabalho para actores negros em Portugal".
Opinião diferente tem Ângelo Torres, nesta profissão há já alguns anos, que afirmou que "é actor porque é negro".
"As primeira vezes que consegui trabalho foi porque era preto", disse Ângelo Torres, que além de teatro, faz cinema e televisão.
No entanto, o actor não deixou de salientar que "há muitas formas de combater a discriminação que há em relação aos actores negros".
Uma delas, segundo o actor Eric Santos, que participa na telenovela "Jóia de África", é conquistar o público, através do trabalho.
Mas a sorte de Eric Santos não foi a mesma de Miguel Sermão, actor residente na companhia de Teatro da Comuna, que não fez a telenovela "Jóia de África", produção da TVI sobre a colonização em Moçambique, porque tinha "rastras"'.
Miguel Sermão defendeu que os actores negros sentem problemas por causa das mentalidades e a sociedade é preconceituosa". No entanto, na Comuna, até de loiro já fez, referindo que na companhia de teatro de João Mota, "não há brancos nem pretos". Existem actores.
Mas, tudo depende do encenador com quem se trabalha. Hélder Costa, da companhia de teatro A Barraca, disse que é raro incluir nos seus projectos teatrais actores negros.
"Como faço peças históricas, o actor negro acaba por ter nos meus espectáculos papéis em posições subalternas, o que não me interessa", justificou à Lusa.
"No meu caso, é mais fácil pôr um branco a fazer o papel de um personagem negro do que ao contrário", disse Hélder Costa, explicando que se integrasse "à força" um actor negro no elenco seria "um sinal racista disfarçado" e não ajudava a comunidade artística negra.
Nesse sentido prefere dar todo o apoio a essas comunidades, para depois serem criadas peças de teatro híbridas, como o caso da peça "Pata de Leão", um projecto de co-produção com o Centro Nacional de Canto e Dança de Moçambique.
E, porque a situação existe, o governo de Durão Barroso anunciou quarta-feira que vai apresentar uma proposta de lei que visa combater a discriminação racial ou étnica e prevê sanções sobre as empresas ou entidades que não apliquem o princípio da igualdade.

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