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«A Guiné-Bissau é terreno
extremamente movediço»

- 29-Jul-2010 - 19:39


Angola não excluiu a intervenção militar para resolver as cíclicas crises político-militares

O Presidente d de Cabo-Verde, Pedro Pires, defendeu hoje em Luanda que a situação na Guiné-Bissau deve ser tratada com “pragmatismo e cautela” e sempre em “consenso com as autoridades legítimas”. Proveniente do Uganda, onde participou na Cimeira da União Africana, Pedro Pires alertou para as particularidades guineenses.


O Chefe de Estado cabo-verdiano, que comparou a Guiné-Bissau a “um terreno extremamente movediço”, disse estar esperançado que se encontre uma solução para a situação daquele país, que se pode alcançar através de “um trabalho sério com os guineenses”.

“Não diria que já se vê uma pequena luz ao fundo do túnel, mas estou esperançado que sim, que podemos lá chegar através de um trabalho sério com os guineenses, com pragmatismo, sempre buscando consenso, sempre buscando da parte deles que estejam de acordo connosco”, apontou.

O Presidente cabo-verdiano foi claro ao defender que “não se deve mandar fazer uma intervenção num país qualquer ignorando a posição das autoridades legítimas”.

Durante a Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Luanda, no passado dia 23, o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, embora sublinhando igualmente a necessidade de ouvir as autoridades de Bissau em todas as circunstâncias, não excluiu nenhuma hipótese, inclusive a de intervenção militar, para resolver a questão das cíclicas crises político-militares naquele país.

O Presidente de Cabo Verde considerou, no mesmo tom e em declarações à imprensa angolana, que é preciso dar o “benefício de dúvida” às autoridades políticas guineenses, porque “teria de ter uma outra saída e não tem”.

“Quando buscamos saídas, tem que se fazer contas, quanto é que custa do ponto de vista humano, se nós vamos aprofundar a crise ou vamos encontrar uma solução para ela”, referiu Pedro Pires.

O que vai dizendo a CPLP

O secretário executivo da CPLP disse hoje que concorda com o presidente angolano sobre o eventual envio de uma força militar de intervenção para a Guiné-Bissau, no caso de um pedido explícito das autoridades guineenses.

“Não só concordo, como isso corresponde àquilo que vínhamos a dizer desde abril de 2009”, declarou Domingos Simões Pereira, à margem do lançamento de um pacote de ferramentas linguísticas (Flip 8) da empresa Priberam, em Lisboa.

“Depois da reunião extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP, que teve lugar na Cidade da Praia (em Julho de 2009), nós apoiamos a decisão da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) de mobilizar alguma capacidade interventiva, mas nós dissemos que isso ficava condicionado a um pedido explícito por parte das autoridades guineenses”, acrescentou Simões Pereira.

Em conferência de imprensa após o encerramento da VIII Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, José Eduardo dos Santos realçou que a primeira aposta é no diálogo “construtivo e dinâmico”, para restaurar a confiança entre os diversos atores da Guiné-Bissau.

“A nossa primeira `demarche´ é na busca de uma solução consensual no plano político para restabelecer a confiança e para que as autoridades competentes realizem a missão que lhes compete no âmbito da Constituição da República. Qualquer esforço externo será sempre complementar e esse esforço pode ser de natureza política, militar ou económica e financeira”, descreveu então o Presidente angolano.

Segundo Simões Pereira, “na Guiné-Bissau há uma fragmentação muito forte de toda a estrutura social e esta fragmentação atinge a sociedade dos militares”.

“Então, propor a reconciliação destas forças, a integração destas forças, a criação de uma linha de comando e uma hierarquia única passa por assegurar a todas as partes que a sua colaboração não colocará em causa a sua segurança”, sublinhou.

“Isto, a nosso ver, só se faz criando uma estrutura técnico-militar que possa, não só permitir este diálogo na sociedade castrense (militares), mas que tenha capacidade de intervenção para dissuadir qualquer tentativa de aproveitamento deste processo”, afirmou.

Segundo o secretário executivo, “cada vez mais as partes estão a compreender melhor os argumentos, a visão da CPLP”.

“Não reivindicamos uma visão acabada aqui, continuamos a dialogar com as partes e esperamos poder, a breve termo, encontrar um espaço de intervenção que seja favorável aos desígnios da Guiné-Bissau”, acrescentou Simões Pereira.


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