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  Entrevista
«Força de estabilização não deve desviar atenção dos problemas»
- 8-Aug-2010 - 0:02


O bispo de Bissau, José Camnate, entende que o eventual envio de uma força internacional de estabilização para a Guiné “não deve desviar a atenção” dos outros problemas do país.


“É importante que se faça uma radiografia completa, autêntica, da situação do país e que se invista em tudo quanto possa criar condições para que haja um diálogo sincero, para que se possam construir consensos que permitam pôr uma base sólida para uma vida política, social e económica capaz de dar ao guineense aquela tranquilidade e serenidade interior de que precisa para pensar no seu futuro”, disse.

Em entrevista à agência Lusa, D. José Camnate afirmou que o povo guineense está a sofrer porque vive numa sociedade “ainda não bem organizada”, que não consegue fazer “emergir líderes carismáticos” nem criar um projecto de desenvolvimento “que leve cada guineense a sentir o desejo de contribuir para a realização desse mesmo projecto”.

O bispo de Bissau, que presidiu a uma missa de oração por África, na igreja da Santíssima Trindade, em Fátima (Portugal), defendeu que a comunidade internacional deve apoiar os guineenses a combater o narcotráfico, “um fenómeno novo e muito preocupante”.

Por outro lado, apelou a um trabalho de sensibilização, sobretudo junto dos jovens, para que “entendam o perigo real da droga”, e a uma “vontade política forte”.

Só com essas três vertentes “é possível travar este fenómeno”, afirmou.

Na homília que proferiu na missa que reuniu alguns milhares de católicos da comunidade africana na diáspora, José Camnate apelou à crença sincera nos valores da justiça que, disse, têm “mais força que as armas e a droga”.

“A política partidária não facilita o desenvolvimento harmonioso” e as armas e a droga “são fator de violência”, disse, sublinhando que a paz “não se consegue com o coração cheio de inveja e violência”, mas sim com “diálogo, compreensão e obras concretas de caridade”.

O bispo de Bissau disse que quis participar na peregrinação para dizer aos guineenses e a todos os africanos na diáspora que devem olhar para o continente e os seus países “de forma objectiva”, reconhecendo os “problemas graves” que o afetam e tentando compreender as suas causas, mas “olhando tudo isto de forma positiva, acreditando”.

“Apesar das nossas dificuldades, temos elementos positivos da nossa cultura tradicional, e também da cultura moderna, que está a crescer na Guiné Bissau”, disse, apontando a fé em Deus como fonte de esperança e um dos elementos de força na construção do diálogo.

José Camnate referiu a presença na celebração de hoje de representantes da Igreja Evangélica e da Comunidade Muçulmana de Bissau como “mais um sinal visível” não só da “estima recíproca” mas também de uma “vontade real de colaboração” entre as diferentes religiões.

Como exemplo apontou a presença de missionários em aldeias de população muçulmana, trabalhando nas áreas social, de saúde e ensino.

“São sinais que encorajam e que dizem que é possível partir das confissões religiosas para unir o povo da Guiné Bissau para ultrapassar os diferendos”, afirmou.


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