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Defender a Lusofonia
- 12-Nov-2002 - 11:11

Na semana em que se comemora mais um aniversário da independência de Angola, comemora-se também - devemos lembrá-lo - o aniversário do nascimento de mais um país lusófono. É, sem dúvida, um excelente momento para uma pequena reflexão sobre a Lusofonia.

Após a independência do Brasil e das ex-colónias portuguesas em África e, mais recentemente, de Timor Leste passaram a ser oito os países de língua oficial portuguesa, num total de cerca de 220 milhões de habitantes, correspondendo a 3,6 por cento da população mundial.

Segundo o Secretário Executivo da CPLP, embaixador João Augusto de Médicis estes cerca de 220 milhões de falantes da língua de Camões estão muito mal tratados e, «corremos o risco de desaparecer ou ficar muito diminuídos» se não forem tomadas medidas na defesa da Lusofonia. Estamos plenamente de acordo.

Se é verdade que a lusofonia existe só por si - basta que exista um conjunto de países e de pessoas que se exprimem em português - não é menos verdade que, se não forem tomadas uma série de medidas concertadas com o objectivo de manter e incrementar o ensino e a divulgação da língua corremos o sério risco de ver a percentagem de luso-falantes diminuir apesar do crescimento da população.
Basta pensar no investimento que outros países realizam em bibliotecas e educação directa em países como a Guiné-Bissau, Cabo Verde ou Moçambique onde o português perdeu terreno para o francês ou italiano. Basta pensar que, por exemplo, na Guiné-Bissau altos funcionários da administração falam mal o português e se exprimem naturalmente nas línguas nativas. Basta pensar, enfim, nos milhares de luso-descendentes de segunda e terceira geração que não aprendem e pura e simplesmente não falam o português.

A acrescentar a isto deveríamos também meditar sobre outro facto não menos interessante: Existem muitos países que embora não sendo lusófonos, tiveram forte influência portuguesa e onde ainda existe alguma população luso-descendente que, apesar de uma total ausência de apoios ou incentivos, continua tentando preservar as suas raízes e (pasme-se!) tem mesmo orgulho das mesmas. Basta lembrarmo-nos apenas de comunidades existentes em alguns países como a Malásia, o Japão, a Índia, ou a China onde existem pessoas que tentam orgulhosamente preservar algumas palavras, um monumento ou até uma receita culinária de origem portuguesa e onde, como é o caso de Goa, estão a realizar um esforço para que o português volte a ser ensinado nas escolas.

E o que queremos dizer com isto? Queremos dizer que os tais 220 milhões que correm o sério risco de diminuir poderiam ser muitos mais e aumentar todos os anos. O português poderia ser uma língua com muito maior expressão a nível mundial se os governos, começando pelo português, naturalmente, investissem mais em acções de educação e cooperação que fomentassem o ensino e divulgação da língua e de um imenso património cultural comum.

O investimento no incremento de acções de intercâmbio, envio de literatura, constituição de bibliotecas, apoio ao ensino do português noutros países ou apoio a inicitivas particulares que, a diversos níveis, têm provado que a aproximação entre os luso-falantes se pode fazer com sucesso fora das reuniões ministeriais não é, por certo, tão mediático como uma exposição mundial ou um campeonato europeu de futebol mas deixaria, com certeza, uma impressão muito mais duradoura e contribuiria certamente para que esses 220 milhões fossem cada vez mais e se orgulhassem das suas raíses comuns.


António J. Ribeiro

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