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Entrevista
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Salvar as aparências e não salvar Portugal
- 23-Oct-2010 - 17:49
Fernando Nobre, candidato às presidenciais, diz que há “milhões de portugueses a ser humilhados e profundamente atingidos na sua dignidade de seres humanos”
O candidato à presidência da República de Portugal, Fernando Nobre, disse hoje, em Tomar, que as negociações entre o Governo e o PSD para eventual viabilização do Orçamento do Estado (OE) visam apenas “salvar a face” e “continuam os tacitismos políticos no seu pior”.
“O que importa é salvar as aparências, não é salvar Portugal”, disse Fernando Nobre durante um almoço com centena e meia de apoiantes, frisando que a discussão que decorre, “numa sala fechada”, se centra nas “parcelas a alterar para que no fim ninguém perca a face e tudo fique na mesma”.
Para o candidato, o acordo “previsível agravará a vida da maioria dos portugueses”, daqueles que “menos têm, dos reformados e desempregados” e “não permitirá que os empresários invistam, criem emprego e riqueza”.
No seu entender, o país precisa de um Orçamento “que não aumente o desemprego e a miséria e que aponte caminhos para o crescimento da economia e um futuro positivo para Portugal”.
Questionando de quem é a responsabilidade pela atual situação do país, Nobre apontou o dedo a “toda uma classe política que tem escondido a verdade aos cidadãos, mais preocupada com a gestão das suas carreiras políticas e dos seus interesses pessoais e financeiros do que com a qualidade de vida dos portugueses”.
Para o candidato, os portugueses “já não acreditam mais nas mentiras, na incompetência, na irresponsabilidade e na ganância desenfreada de alguns mentores do descalabro atual”.
Reafirmando que se candidata à presidência da República por acreditar que o país “precisa de alguém independente, suprapartidário, verdadeiramente solidário e com as mãos livres de constrangimentos e favores a pagar”, Nobre assegurou que tem “as mãos livres”, não tem “contas por saldar” e é o único candidato que "representa e vem da cidadania”.
“A liberdade nunca tem vida fácil quando os personagens do poder não são verdadeiramente livres. Quando estão constrangidos pelos interesses e cegos pelo estatuto e privilégios. O poder deve ser exercido por homens livres porque só isso poderá salvaguardar a democracia”, afirmou.
Fernando Nobre termina hoje uma semana de campanha no distrito de Santarém, que classificou de “terra de liberdade”, invocando o papel e a personalidade de Salgueiro Maia, o homem que, partindo de Santarém, teve papel decisivo no derrube do Estado Novo em 25 de Abril de 1974.
E quanto a Cavaco Silva...
Fernando Nobre diz que o anúncio da recandidatura de Cavaco Silva “não surpreendeu ninguém”, considerando “estranha” mas “consentânea com a política espectáculo” a forma como foi anunciada.
Fernando Nobre, que não quis reagir à entrevista dada hoje por Cavaco Silva ao semanário Expresso, aludiu, no discurso que fez perante centena e meia de apoiantes, em Tomar, à forma como a candidatura do actual Presidente foi anunciada por Marcelo Rebelo de Sousa no seu programa na TVI.
“Dentro de dois dias ouviremos com atenção os motivos da sua recandidatura”, disse, acrescentando que entre eles “não estará certamente o facto de ser um ilustre economista”, já que, em cinco anos, de nada serviu ao país “ter um Presidente cuja mais-valia é perceber de números”.
Reconhecendo que essa não é sua especialidade – médico de profissão, Fernando Nobre invoca uma vida dedicada ao trabalho humanitário e de cidadania, “não nos gabinetes mas perto dos que mais precisaram” -, o candidato assegurou que, se for eleito, procurará os melhores conselheiros para a área económica.
“Não farei jogos retóricos e estarei ao lado dos portugueses, ao lado dos trabalhadores, ao lado dos desempregados, quando o tempo o obriga e a consciência me o impõe”, afirmou, sublinhando que não lhe interessam “os anúncios de audiência a estes ou aqueles”, pois “escondem o essencial, transformar a falta de coragem política em coloridas proclamações”.
Fernando Nobre afirmou que a sua mais-valia “é perceber das pessoas, entender os seus sentimentos, os seus problemas e ambições” e pediu aos seus apoiantes que sejam “semeadores de esperança”.
Críticas ao silêncio de Manuel Alegre
Fernando Nobre disse também que apoia a greve geral convocada pelas duas centrais sindicais para 24 de Novembro, criticando o silêncio de Manuel Alegre sobre a matéria.
“Apoio a greve geral em nome da salvaguarda das necessidades básicas de milhões de portugueses que estão a ser humilhados e profundamente atingidos na sua dignidade de seres humanos”, disse Fernando Nobre.
Nobre lamentou que o candidato apoiado pelo Partido Socialista e pelo Bloco de Esquerda, Manuel Alegre, ainda nada tenha dito sobre o assunto, “porque não tem as mãos livres para o fazer”.
Afirmando que Portugal “vive uma situação dramática”, Fernando Nobre sublinhou que o país precisa de um Presidente “capaz de procurar consensos e promover compromissos”.
“Em toda a minha vida ajudei a que se fizessem compromissos em situações limite de conflito e guerra, agora não conseguiria fazê-lo nos gabinetes políticos?”, questionou, sublinhando que os únicos interesses que defende são os “de Portugal e de cada um dos portugueses”.

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