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  Cabo Verde
A «estrela» de Kumba Ialá caiu
- 14-Sep-2003 - 14:15

Kumba Ialá, o presidente guineense hoje deposto, era tido, antes de chegar ao poder, em 2000, como um dos políticos mais ambiciosos e populares da Guiné-Bissau, facto comprovado nas duas eleições realizadas no país, em que obteve excelentes resultados.


Por José Sousa Dias
da Agência Lusa

Em 1994, nas primeiras eleições livres e multipartidárias na Guiné-Bissau, obrigou o então presidente João Bernardo "Nino" Vieira a uma impensável segunda volta nas presidenciais, tendo saído derrotado por apenas 4 por cento dos votos.

No entanto, e no rescaldo do conflito militar que assolou a Guiné-Bissau entre 07 de Junho de 1998 e 07 de Maio de 1999, período em que é acusado pela actual oposição de se ter refugiado no interior, acabaria por vencer, embora também à segunda volta, as presidenciais de 16 de Janeiro de 2000.

Na segunda volta das presidenciais de Janeiro de 2000, o intelectual de etnia balanta, de 50 anos, licenciado em Filosofia, Direito e Teologia, conseguiu congregar à sua volta quase toda a oposição ao antigo partido único, o Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Na altura, obteve na primeira volta 38,8 por cento dos votos expressos, contra 23,4 por cento do candidato do PAIGC, Malam Bacai Sanhá.

Então líder do Partido da Renovação Social (PRS), a força política que saiu vencedora das legislativas de 28 de Novembro de 1999, Kumba Ialá afirmou na ocasião ser sua intenção "humilhar o PAIGC", partido em que foi professor da Escola de Quadros e onde militou entre 1962 e 1990, ano em que foi expulso.

"Eu fui professor do 'Nino' durante cinco anos. Mas do que eu ensinei não lhe entrou nada na cabeça", disse então Kumba Ialá, um dirigente político dotado de grande sentido de humor e com uma língua "afiada", tal como sempre ficou comprovado nos comícios eleitorais, em que conseguia manter atenta ao longo de mais de duas horas uma assistência de dezenas de milhar de guineenses.

Empossado em Fevereiro do mesmo ano, Kumba Ialá esteve cerca de três anos e meio à frente dos destinos do país, sem, contudo, concretizar as esperanças de uma população guineense que vivia já abaixo do limiar da pobreza e que ficou ainda mais fragilizada com o conflito.

As crescentes tensões sociais - a maioria dos funcionários públicos não recebe salários há quase um ano -, os seus maus humores e precipitações - demitiu e remodelou cinco primeiros- ministros e mais de cinco dezenas de ministros e secretários de Estado - e a sua pouca sensibilidade para questões de ordem política, não conseguiram manter a sua popularidade e levaram ainda ao descontentamento dos militares.

Está detido desde a madrugada de hoje, na sequência do golpe de Estado protagonizado pelo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general Veríssimo Seabra, que assumiu a liderança da sublevação e a interinidade da Presidência do país, chefiando o Comité Militar para a Reposição da Ordem Constitucional e Democrática (CMROCD).

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e em Direito pela Faculdade de Bissau, cursando ainda Teologia na Universidade Católica de Lisboa, Kumba Ialá nasceu em Bula, 30 quilómetros a norte de Bissau, a 15 de Março de 1953, filho de pais camponeses.

A 20 de Março de 1990, após a abertura ao pluralismo em Bissau, é um dos co-fundadores da Frente Democrática Social, ao lado de Rafael Barbosa, um dos históricos da luta pela independência.

A sua irreverência e ambição levaram-no a deixar a FDS, formando, a 14 de Janeiro de 1992, o seu próprio partido, o PRS, de que foi presidente até Março de 2000, já depois de eleito chefe de Estado guineense.

Culto e poliglota, fala e escreve fluentemente português, espanhol, francês e inglês, além de ter aprendido latim, grego e hebraico, segundo a sua biografia oficial.

Quando jovem jogou futebol como avançado-centro ou extremo- esquerdo no Louletano, clube da cidade de Loulé, sul de Portugal, de onde guarda muitas recordações e "alguns bons amigos" e onde passa normalmente as suas férias em Portugal.

Rezam as crónicas que era um bom rematador, rápido e com bom drible.


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