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  Cabo Verde
O fim do «Kumbismo» - perfil de Kumba Ialá
- 17-Sep-2003 - 23:37

Três dias depois de ser deposto através de um golpe de Estado, Kumba Ialá renunciou hoje oficial e formalmente à Presidência da República, mas a sua tenacidade reflectiu-se na forma como terminou o discurso: "a luta política continuará".


Por José Sousa Dias
da Agência Lusa

Combativo, Kumba Ialá demonstrou isso mesmo ao deixar no ar a ideia de que não pretende abandonar o país e que, mesmo desconhecendo o futuro, irá regressar à política assim que lhe for possível.

Empossado a 17 de Fevereiro de 2000, depois de uma vitória esmagadora na segunda volta das eleições presidenciais realizadas a 16 de Janeiro do mesmo ano, em que recolheu 72,5 por cento dos votos, Kumba Ialá acabou por renunciar ao cargo precisamente três anos e sete meses depois.

Antes de chegar ao poder, o então líder do Partido da Renovação Social (PRS, que fundou em 1992 e que vencera as legislativas de Novembro de 1999) era tido como um dos políticos mais ambiciosos e populares da Guiné-Bissau, facto comprovado com os excelentes resultados alcançados nas duas eleições realizadas no país.

Em 1994, nas primeiras eleições livres e multipartidárias na Guiné-Bissau, obrigou o então presidente João Bernardo "Nino" Vieira a uma impensável segunda volta nas presidenciais, tendo saído derrotado por apenas 04 por cento dos votos.

No entanto, e no rescaldo do conflito militar que assolou a Guiné-Bissau entre 07 de Junho de 1998 e 07 de Maio de 1999, período em que é acusado pela actual oposição de se ter refugiado no interior, acabaria por vencer as presidenciais.

Nessa votação, o intelectual de etnia balanta, de 50 anos, licenciado em Filosofia, Direito e Teologia, conseguiu congregar à sua volta quase toda a oposição ao antigo partido único, o Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Na altura, obteve na primeira volta 38,8 por cento dos votos expressos, contra 23,4 por cento do candidato do PAIGC, Malam Bacai Sanhá.

Depois da vitória, Kumba Ialá afirmou ser sua intenção "humilhar o PAIGC", partido em que foi professor da Escola de Quadros e no qual militou entre 1962 e 1990, ano em que foi expulso.

"Eu fui professor do 'Nino' durante cinco anos. Mas do que eu ensinei não lhe entrou nada na cabeça", disse então Kumba Ialá, um dirigente político dotado de grande sentido de humor e com uma língua "afiada", tal como sempre ficou comprovado nos comícios eleitorais, em que conseguia manter atenta ao longo de mais de duas horas uma assistência de dezenas de milhar de guineenses.

Ao longo dos 43 meses que esteve no poder, Kumba Ialá não correspondeu às expectativas da população guineense, que já vivia abaixo do limiar da pobreza e ficou ainda mais fragilizada ao longo da sua governação.

As crescentes tensões sociais - a maioria dos funcionários públicos não recebe salários há quase um ano -, os seus maus humores e precipitações - demitiu e remodelou cinco primeiros- ministros e mais de cinco dezenas de ministros e secretários de Estado - e a sua pouca sensibilidade para questões de ordem política, deitaram por terra a sua popularidade e levaram ainda ao descontentamento dos militares.

Foram esses mesmos militares, que curiosamente havia condecorado dois meses antes, que, congregados em torno do Comité Militar para a Reposição da Ordem Constitucional e Democrática (CMROCD), o derrubaram no domingo passado.

Nesse mesmo dia, o seu antigo "braço-direito" e chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general Veríssimo Correia Seabra, auto-proclamou-se presidente interino do país.

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e em Direito pela Faculdade de Bissau, cursando ainda Teologia na Universidade Católica de Lisboa, Kumba Ialá nasceu em Bula, 30 quilómetros a norte de Bissau, a 15 de Março de 1953, filho de pais camponeses.

A 20 de Março de 1990, após a abertura ao pluralismo em Bissau, é um dos co-fundadores da Frente Democrática Social, ao lado de Rafael Barbosa, um dos históricos da luta pela independência.

A sua irreverência e ambição levaram-no a deixar a FDS, formando, a 14 de Janeiro de 1992, o seu próprio partido, o PRS, de que foi presidente até Março de 2000, já depois de eleito chefe de Estado guineense.

Culto e poliglota, fala e escreve fluentemente português, espanhol, francês e inglês, além de ter aprendido latim, grego e hebraico, segundo a sua biografia oficial. Já este ano, publicou dois livros de "Pensamentos Político-Filosóficos", cuja edição esgotou rapidamente na Guiné-Bissau.

Quando jovem jogou futebol como avançado-centro ou extremo- esquerdo no Louletano, clube da cidade de Loulé, sul de Portugal, de onde guarda muitas recordações e "alguns bons amigos" e onde passa normalmente as suas férias em Portugal. Rezam as crónicas que era um bom rematador, rápido e com bom drible.

Quanto ao seu futuro político, Kumba Ialá deu a entender que promete regressar.

O "Kumbismo", tal como ficou conhecida a sua "doutrina", fica para a História.


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