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  Cabo Verde
O hospital à distância de apenas um euro
- 23-Oct-2003 - 15:02

Um bilhete de autocarro custa um euro, o valor que uma mãe cabo-verdiana, oriunda de São Tomé e Príncipe, pede, há um ano, para levar o filho ainda pequeno a consultas de ortopedia no Hospital D. Estefânia, em Lisboa.


Por Vera Magarreiro
da Agência Lusa

Com ar comprometido, por estar a bater a mais uma porta, Maria de Lourdes Baessa procura na sede da Associação Unidos de Cabo Verde, nas Portas de Benfica, limite entre os concelhos de Lisboa e da Amadora, a solução para o seu problema.

A comida, diz, acaba por aparecer todos os dias em casa da irmã, pelo que pede apenas ajuda para pagar o transporte entre o Casal da Boba, na Amadora, onde vive, e o Hospital D. Estefânia, onde leva, com regularidade, o filho de oito anos para tratar do "problema dos ossos nos joelhos".

Queixa-se do "abandono" por parte da Embaixada de São Tomé e Príncipe em Lisboa, onde já se dirigiu várias vezes, regressando sempre com a mesma resposta: "Não podemos fazer nada".

A mesma que a Lusa obteve junto de Elisa Barros, ministra conselheira da embaixada, que considera este um entre "muitos casos dramáticos" que surgem todos os dias.

"Não podemos ajudar todas as pessoas. Há cerca de 300 doentes são-tomenses a receber tratamento médico em Portugal e todas as semanas chegam mais", disse.

A responsável justifica a falta de apoio com o "muito magro orçamento da embaixada". "Estamos a utilizar dinheiro do orçamento previsto para outras áreas para ajudar os doentes", salientou, acrescentando que, todos os dias, "os próprios funcionários da embaixada dão do seu próprio bolso para ajudar estas pessoas".

"Somos quase uma instituição de caridade", frisou.

Mesmo assim, Elisa Barros sugeriu que Maria de Lourdes tente mais uma vez um pedido de ajuda, para que a embaixada avalie "o que se pode fazer".

Incomodada por depender em tudo da irmã, Maria de Lourdes conta pelos dedos das mãos o número de pessoas que vive numa casa com dois quartos e chegou até nove. Ela dorme com a mãe e o filho na mesma cama. O seu sobrinho mais velho "procura todos os dias onde dormir junto de amigos" porque "já não há espaço".

A tentativa de arranjar trabalho para ajudar a família e não se sentir um "fardo" não tem tido melhores resultados. Maria de Lourdes tem a referência "Estada Temporária" no visto, o que não lhe permite trabalhar em Portugal.

Da parte da presidente da Associação Unidos de Cabo Verde, Maria João Marques, surgiu a promessa de um contacto com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) para que lhe seja concedida uma autorização de residência em Portugal com o fundamento da necessidade de assistência médica.

Caso este pedido tenha resposta positiva, Maria de Lourdes, já legalmente habilitada, vai voltar a procurar emprego e, se o conseguir, terá parte do problema resolvido.

"Amor de filho" é como define a outra parte do problema: os outros cinco filhos, todos mais velhos, que deixou em São Tomé. Apesar da confiança que diz ter nos mais velhos, a tomarem conta dos mais novos, não esconde o "aperto no coração" perante a possibilidade de ter que viver mais tempo longe deles.

Maria de Lourdes Baessa é filha de pais cabo-verdianos, nasceu em Angola e vive em São Tomé e Príncipe. Fala das dificuldades que as pessoas das zonas rurais de São Tomé enfrentam e tenta, em vão, esconder a emoção ao recordar o país onde deixou os filhos.

À pergunta "que idade tem?", responde, enquanto procura apressadamente o passaporte: "sabe, às vezes esqueço a idade".

Ainda tenta fazer um cálculo: "vinte e tal", mas a Lusa confirma-lhe, depois de consulta ao passaporte, que tem 42.

Apesar das adversidades que tem encontrado, Maria de Lourdes demonstra uma extraordinária força de vontade em continuar a bater a mais portas para melhorar, além da saúde do filho mais novo, as condições de vida de toda a família.

E um bom começo pode ser o tal euro.


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