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  Cabo Verde
Cânticos para salvação das almas resistem em S. Nicolau
- 2-Nov-2003 - 22:37

Em povoados recônditos da ilha de S. Nicolau, em Cabo Verde, o povo ainda preserva hoje um culto secular de fazer cânticos oratórios para salvação das almas do purgatório.


Por Francisco Fontes
da agência Lusa

O culto de orar pelas almas dos falecidos, que instituiu no ano de 998 o abade S. Odilón, de Cluny (França), é reeditado em S. Nicolau no dia dos fiéis defuntos, a 2 de Novembro de cada ano.

São orações legadas de geração em geração, ou improvisadas pelos próprios diante das campas, a pedir a Deus para enviar para o céu a alma dos seus antepassados, e de outras pessoas que na terra já não tem quem por eles peça.

É uma tradição que envolve homens e mulheres, embora estas sejam mais propensas a realizá-la. No entanto, é também uma tradição que se vai perdendo por não encontrar aderentes entre as pessoas mais jovens.

A septuagenária Serafina Eugénia Soares, da localidade de Praia Branca, esquecida no interior da ilha, é uma das poucas pessoas que mantêm há décadas esse hábito de entoar os cânticos oratórios pelas almas do purgatório.

João Lopes Filho, nascido nesta ilha, e actualmente professor na Universidade Nova de Lisboa (Portugal), afirma que a permanência do bispado em S. Nicolau durante quase dois séculos, desde 1786, "determinaram de certa maneira a religiosidade do sanicolense".

Com algumas similitudes com os cânticos "para as almas", existem as "Divinas", igualmente hinos religiosos que antigamente eram entoados em festejos e nos rituais fúnebres.

Esta tradição, das "Divinas", que se presume enraizada também desde a segunda metade do século XVIII, encontra-se já em extinção e apenas é reeditada pontualmente nalguma cerimónia fúnebre.

O antropólogo João Lopes Filho afirma tratar-se de um cântico religioso não litúrgico que a tradição oral deixa antever que teria sido organizada pelo bispo Frei Cristóvão de S. Boaventura.

De acordo com esse professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, uma das versões sobre a origem desta devoção é de que um barco pertencente a um armador sanicolaense foi apanhado por um temporal e andou largo tempo à deriva. Nessa angústia compôs uns versos à Virgem Maria prometendo canta-los se a sua tripulação se salvasse.

O barco conseguiu chegar a terra, presumivelmente por altura das festas de Nossa Senhora do Rosário, passando então a associar-se a este culto, celebrado no primeiro Domingo de Outubro.

Outra versão, inscrita por Lopes Filhos na sua obra "Retalhos do Quotidiano", é que as "Divinas" são cânticos para chamamento de "boas águas" e, por isso, serem associados ao período considerado mais crítico do ano agrícola.

Primitivamente, as "Divinas" seriam associações religiosas de carácter mutualista (de entreajuda entre os seus membros), para a qual contribuíam os associados com uma quota mensal ou anual. Uma tradição enraizada em Cabo Verde e que hoje se preserva na ilha de Santiago através das associações de "Tabanca".

Cada bairro da vila da Ribeira Brava, sede administrativa da ilha, e da diocese de Cabo Verde, tinha a sua divina, e a partir daí foi-se difundindo para as principais aldeias, tendo cada uma o seu patrono.

Antigamente organizavam festas, que terminavam com um leilão de produtos agrícolas. Entoavam também os cânticos, versos rimados que a tradição oral foi adulterando e modificando, mercê da criatividade ou das "poucas letras" de quem os ia transmitindo.

Esses cânticos, originalmente - segundo João Lopes Filho -, estavam divididos em várias partes. "Rosário de Maria", "Santíssima Trindade", "Salve-Rainha", "Jesus Santíssimo", "Ave-Maria" e "Clemência".

Conta-se que antigamente cantavam também as "Divinas", na Quaresma, na Sexta-feira da Paixão, e nas cerimónias fúnebres de algum membro da associação mutualista.

Na aldeia da Praia Branca esta tradição ainda existe, mas quase só na memória de pessoas idosas. E na ilha de S. Nicolau, dizem, ainda existem alguns resquícios dela no povoado vizinho de Ribeira da Prata.

Antónia Josffa, Maria José e Maria da Luz Lopes (ou Bia Naná) antigamente chegaram a cantar as "Divinas" na Praia Branca, mas afirmaram à agência Lusa que essa tradição já não existe na sua genuína dimensão.

O desinteresse dos mais jovens, e o avançar da idade de quem tinha a tradição enraizada, ditam o declínio. Bia Naná admite que esses cânticos chegam por vezes a ser entoados na igreja e na casa, por homens e mulheres, nas cerimónias fúnebres de uma pessoa amiga. E também entre o sétimo e o nono dia após o falecimento, a pedir pela salvação da alma do defunto.

Bia Naná, hoje com 71 anos, aprendeu a cantar "Divinas" aos 14 anos com a sua mãe. A sua avó também era cantadeira. Normalmente a tradição difundia-se assim, de pais para filhos.

Estes cânticos presumivelmente surgidos na segunda metade do século XVIII, quer das "Divinas", quer "Para as Almas", são hoje entoados em crioulo e português. Mas, o musicólogo e compositor cabo- verdiano Vasco Martins adianta que chegou a haver cânticos das "Divinas" em latim arcaico.

Nas igrejas aos cânticos das "Divinas" costumava associar-se o pároco, o que faz lembrar uma tradição que pontualmente ainda se vai fazendo em Portugal, em aldeias, a das "missas cantadas".


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