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Estudantes africanos em Moscovo vivem com medo
- 26-Nov-2003 - 15:14

O estudante da Guiné-Bissau Hélder Sousa morreu segunda-feira no incêndio de uma residência estudantil em Moscovo, apenas cerca de três dias depois de chegar à capital russa para frequentar um curso na Universidade Patrice Lumumba.


Por Evgueni Mouravitch
da Agência Lusa

Mário Fonseca da Silva, conterrâneo de Hélder, conseguiu salvar-se no incêndio ao saltar da janela do seu quarto, no quinto piso e está agora internado no Centro da Emergência Sklifosofski, o melhor de Moscovo.

Com uma perna fracturada e lesões reversíveis na coluna vertebral, os problemas de Mário são também agora a falta de sangue para as transfusões de que necessita.

O incêndio deflagrou num prédio com mais ocupantes que a lotação prevista, quando os cerca de 500 bolseiros africanos estavam a dormir, e com o fumo a encher os corredores e escadas, com as saídas de emergência fechadas.

O incêndio fez vir ao de cima o conhecimento da situação muito difícil em que vivem e estudam os bolseiros africanos nas universidades russas, sujeitos a dificuldades provocadas pelos atrasos no pagamento dos seus cursos e bolsas, pelas autoridades dos seus países, e ainda por serem alvo de ataques de inspiração racista.

Os bolseiros guineenses, por exemplo, recebem pouco mais de 60 euros mensais, muito menos do que os seus colegas angolanos ou cabo-verdianos.

A Rússia, país com 140 milhões de habitantes, dos quais pelo menos 20 milhões de muçulmanos, continua sem aprender a viver sem ódio étnico, sem aceitar aquele que é diferente, que vem de outras latitudes, que pertence a outras etnias.

Moscovo é a cidade mais cara da Rússia e uma das mais caras do mundo, e o relativo bem-estar que evidencia atrai centenas de nacionalidades da ex-União Soviética e do estrangeiro, mas a intolerância em relação aos "pretos", como depreciativamente são chamados os estudantes africanos, é especialmente forte.

A título de exemplo, os russos comoveram-se com a morte dos 128 reféns sequestrados pelos terroristas tchetchenos no teatro moscovita de Nord Ost e no passado dia 01 de Outubro, no primeiro aniversário da tragédia, a praça defronte do teatro ficou coberta de flores.

Pelo contrário, defronte da residência estudantil, palco de um dos maiores incêndios registados em Moscovo nos últimos dez anos, apenas algumas flores foram ali colocadas.

A morte de 36 pessoas e os cerca de 170 feridos, todos não russos, não provocou a mesma comoção que a tragédia do teatro Nord Ost.

Para os russos, os que não são eslavos são sumariamente designados como "pretos". A agressão verbal é extensível a todos os caucasianos, árabes e africanos.

A frase "indivíduo da nacionalidade caucasiana" faz parte da linguagem oficial e é usada pela imprensa escrita e na televisão.

O cidadão comum, nas lojas, na rua, incrimina os "pretos" do tráfico de drogas, de alegados casos de violência sexual em relação às raparigas brancas, da propagação da SIDA e dos preços elevados nos estabelecimentos comerciais.

Contudo, o cidadão russo não sabe definir a sua antipatia para com as pessoas de cor, pois faz as suas compras nos bazares em que predominam os azeris e os asiáticos e contrata os operários arménios para as obras, mas não deixa de os considerar como "pessoas de segunda".

Pelo menos, as comunidades provenientes das ex-repúblicas soviéticas são numerosas e sabem defender-se.

Mas é em relação aos africanos que a intolerância étnica atinge o máximo de agressividade.

São raros os estudantes africanos que se aventuram fora do perímetro universitário, embora haja registo de agressões na área das residências.

Quando vão fazer compras, os africanos preferem ir em grupos de cinco ou sete.

As agressões verbais são correntes, mas o maior receio vem das agressões perpetradas por grupos de "skinheads".

Nos transportes públicos estão totalmente desprotegidos, pelo que o táxi seria o meio de transporte preferido. Tem o senão de ser muito caro, o que o torna inacessível.

Manuel Lopes Có, presidente da Associação de Estudantes da Guiné-Bissau na Rússia, diz que só esteve duas vezes na Praça Vermelha durante os dois anos que vive em Moscovo.

O receio que se lhes lê nos olhos leva-os a evitar as câmaras de televisão nas residências estudantis.

Nos quartos, preparados para duas ou três pessoas, ajeitam-se cinco, pelo que não há condições adequadas para os estudos.

As casas de banho cheiram mal, são sujas e as latrinas não têm assentos. As cozinhas estão cheias de baratas.

Mas os bolseiros não se queixam às autoridades universitárias, pois já perceberam que as condições da vida não vão melhorar: só podem piorar.

Muitas coisas que os estudantes africanos relatam "off the record" não são repetidas quando a câmara ou o gravador estão ligados.

Desconfiam dos jornalistas, sobretudo dos russos, e são muito cautelosos quando se referem aos governos dos seus países, pelo que tentam sempre falar favoravelmente de qualquer autoridade.

Este pormenor, característico do pensamento da era soviética, destaca-se em todos os estudantes lusófonos de África, à excepção dos cabo-verdianos.

Esses, todavia, evitam falar para um repórter sobre os problemas por que passam, para não afligir a família em Cabo Verde.

Os africanos encontram-se divididos entre a necessidade de prosseguir os estudos que foram custeados com tantos esforços pelos seus pais, e a vontade de abandonar um país pouco hospitaleiro como a Rússia.

Muitos deles não têm alternativas de estudo nas suas terras de origem e o ensino na Rússia é mais barato do que em Portugal ou em outros países ocidentais.

"A vida de um africano aqui é como a vida na prisão", confessa Tomás, um jovem guineense que sonha com o dia em que terminará os estudos, dentro de dois anos, e deixará a Rússia.

Um dia, conta Tomás, foi atacado por um grupo de "cabeças rapadas".

Na fuga esbarrou, por sorte, com um polícia, o que levou os "skinheads" a dispersarem ao verem a autoridade, mas o polícia rapidamente lhe liquidou as ilusões: "Se eu não tivesse esta farda, quem ajustava contas contigo era eu".


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