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João, retrato de um português de sangue, africano na alma
- 27-Nov-2003 - 14:22

João Dinis, 62 anos, 40 passados na Guiné-Bissau, apercebeu-se em 1974, quando Portugal reconheceu a independência da ex-colónia, que não estava no seu país, mas continuava a viver na sua terra.


Por Ricardo Bordalo
da Agência Lusa

Natural das Caldas da Rainha, João partiu para a Guiné então portuguesa, "ainda menino e moço", para fazer a guerra e encontrou quatro décadas de "paz interior".

"Acabei os 25 meses da comissão militar e já nem fui para casa. Fiquei, primeiro porque gostei desta gente, deste chão, e depois porque um grande amigo me pressionou a ficar. Fui ficando!", relembra.

Hoje é proprietário de uma escola de condução a que chamou a "Nova Escola de Condução Africana", em Bafatá, no leste da Guiné- Bissau, e gere com a mulher, Célia Dinis, a pensão/restaurante "Ponto de Encontro".

Se outros ingredientes não existissem para dar interesse à vida deste casal, os dois são recordistas de permanência na Guiné-Bissau, ele desde 1963, ela de 1972, num país que já foi uma extensão do império português e hoje é o prolongamento natural das vidas de João e de Célia.

Mas nada, no início, fazia prever uma estada tão prolongada quando, em 1963, João chegou a Bissau integrado no contingente militar português que combatia o "vírus" independentista que Amílcar Cabral espalhou na ex-colónia com o apoio dos guerrilheiros do Partido Africano para a Independência (PAI), a que mais tarde acrescentou da Guiné e Cabo Verde, criando o PAIGC.

"E nem tão pouco pensava em ficar tanto tempo quando, em 1972, fui a Portugal para casar tendo regressado de imediato", diz João Dinis, acrescentando que a certeza de que ia fixar-se por "esta terra", só aconteceu quando Portugal reconheceu a independência da Guiné-Bissau, 11 meses depois de o PAIGC a ter proclamado unilateralmente a partir das colinas de Madina do Boé.

Recorda esses tempos e conta que ainda havia tropa portuguesa em Gabú - outra cidade do leste, onde tinha um restaurante - quando lhe apareceu à porta um grupo de guerrilheiros, sem comando nem ordem, a destruir tudo o que cheirava a Portugal, casas particulares ou estabelecimentos comerciais.

"Qual não foi o meu espanto quando, do meio da turba se ergueu uma voz a exigir que a minha casa fosse poupada à destruição - a única de toda a cidade -, porque era a casa do Dinis e da Célia. Nem um arranhão, passaram ao largo e deram continuidade à tarefa de destruir", conta.

Foi este "o momento", num processo "irracional, sem pensar duas vezes", que João Dinis decidiu ficar. "É este novo país que vai ser a minha terra", optou. E foi, contra todas as adversidades e também benesses.

Sobreviveu à independência, "com o respeito de todos", seguiu "sem nada a apontar" o golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980, que derrubou Luís Cabral, o primeiro presidente guineense, e ultrapassou "sem nada a dizer de ninguém" o 07 de Junho de 1998 e guerra que a junta militar de Ansumane Mané travou durante 11 meses até destituir "Nino" Vieira da presidência.

Por fim, viveu também o golpe militar de 14 de Setembro último que levou à resignação de Kumba Ialá. Também aqui João e Célia Dinis não sofreram quaisquer pressões.

Mas nem todos os dias são bons e há escolhas difíceis de tomar. As duas filhas do casal, de 30 e 29 anos, nascidas na Guiné, estão em Portugal, e o filho, Bruno, de 15, que apesar de nascido em Portugal não quer deixar da Guiné-Bissau, obrigam João e Célia a equacionar diferentes cenários para o futuro.

"Mas o pior, mesmo o pior", conta, é que aquilo que as guerras e a instabilidade política e militar não conseguiram ao longo de 40 anos, a crise económica que o país atravessa está a fazer.

A pensão é cada vez menos um ponto de encontro, pois os clientes escasseiam, enquanto a escola da "Nova Condução Africana" tem alunos, mas falta-lhe dinheiro, deixando a família Dinis numa situação complicada.

"É uma tristeza grande esta", enfatiza com o olhar João Dinis, que a mulher acompanha com um riso algo nervoso.

"Passei as privações quando só havia arroz para comer - no início da década de 80 -, mas havia dinheiro. Hoje há de tudo à venda, consequência da abertura económica no princípio dos anos 90, mas ninguém tem dois tostões para comprar ou pagar seja o que for", queixa-se.

Embora não pense em partir, porque tem fé em que as coisas vão melhorar, a verdade é que, de vez em quando, ele e a mulher falam em regressar à terra, às Caldas da Rainha, para não ver ir embora o que construíram ao longo dos anos.

"Olhe, o futuro a Deus pertence", desabafa João perante o condescendente "é verdade" de "Célia". Mas Bruno, o filho, garante que quer ficar, desafiando as leis divinas a que os progenitores entregam o futuro.

Numa coisa todos concordam e esta nada tem de divino, nem sobrenatural, embora denote um toque algo filosófico.

"Se partirmos, tudo será ao contrário. Hoje somos portugueses que não esquecem as origens, mas que têm outra terra. Lá, nas Caldas da Rainha, seremos pessoas com outra terra regressados às origens".


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