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  Cabo Verde
Morna e Fado, irmãs ou meras parentes circunstanciais?
- 28-Jan-2004 - 14:35

Muito as distingue e pouco as separa, mas isso não impediu a morna cabo-verdiana e o fado português de um amigável diálogo na busca de caminhos próprios, até ambas se afirmarem como voz musical dos seus povos.


Por Francisco Fontes
da Agência Lusa

Presumivelmente ambas geradas a partir do afro-brasileiro lundum, são hoje a forma sublime do expressar da alma e sentir das gentes dos dois países.

Ter-se-ão influenciado mutuamente? Há quem diga que sim, e há quem diga que não, mas a história do seu percurso registou casamentos, partilhas, familiaridades e vizinhanças, à imagem do que os dois povos têm tecido em comum e separado ao longo de mais de meio milénio.

Há mornas ao jeito de fado e fados com cheirinho a morna, e até alguém, em tempos, tentou erguer um projecto de união entre ambos, mas a morte não permitiu ao fadista Carlos Zel realizar esse anseio.

O luso-cabo-verdiano Vasco Martins, que nos anos 80 realizou um estudo musicológico sobre a morna, defende que a sua analogia com o fado "é bastante consequente", nomeadamente nos aspectos técnico-musicais", pela "melancolia constante formulada pela tonalidade menor".

Eugénio Tavares, um dos primeiros compositores de mornas a ser conhecido e um dos mais talentosos, compunha as suas mornas na guitarra portuguesa, e na sua ilha, a Brava, nos princípios do século XX, cantava-se fado nas noites de serenata, refere Vasco Martins.

Mas, há quem defenda que a morna é uma criação do próprio cabo-verdiano, expressão das suas idiossincrasias, nascida do cânticos das cantadeiras da Boavista, ou espontaneamente do remar dos pescadores.

Nesta linha da origem cabo-verdiana da morna estão as teses dos escritores António Aurélio Gonçalves e Baltazar Lopes, e do compositor José Alves dos Reis.

Apesar de aparentar uma simplicidade técnico musical, Vasco Martins realça que ao "analisar-se o traço melódico, a harmonia e certos jogos poéticos, nota-se uma certa complexidade de escrita e certa analogia com o proceder musical erudito, sobretudo em certas particularidades harmónicas, os acordes de passagem, os baixos, a leveza rítmica".

Sendo a morna um género musical erudito, com "uma estrutura, um esqueleto baseado na música ocidental europeia", tinha de ser composta com instrumentos polifónicos, o violão ou a guitarra portuguesa, e Vasco Martins sugere como época para o seu nascimento a altura em que estes chegaram a Cabo Verde, por volta de 1800.

No século XVII o lundum teria entrado na Boavista, ou via Brasil, pelos marinheiros, ou directamente através de escravos de várias regiões de África (Bantos de Angola, Costa da Mina e Guiné), deixados nessa ilha para a pastorícia. E aí se manteria em gestação até à difusão por outras ilhas do arquipélago, e à sua evolução para o que hoje é a morna.

No isolamento da ilha da Boavista transplantaram uma cultura já de assimilação, que, com a vinda de posteriores instrumentos musicais de efeitos polifónicos (a guitarra e o violão), e melódicos (violino, a voz), se estabeleceu uma real dramatização do espírito criador cabo-verdiano, através de uma dialéctica natural espontânea", afirma Vasco Martins.

António Germano Lima que se tem dedicado ao estudo da cultura da ilha da Boavista e particularmente à origem da morna, discorda que do fado e do lundum tenha surgido a canção nacional cabo-verdiana, afirmando que ambos exerceram apenas influência na sua emancipação.

Recorrendo à musicologia comparativa, Vasco Martins afirma que a estrutura básica da morna provem do lundum (que hoje resiste na Boavista como canto e dança, nomeadamente nos rituais de casamento), identificando em ambas, em termos técnicos, o compasso binário e a tonalidade maior.

Na esteira de outros investigadores, como o brasileiro José Ramos Tinhorão ("Fado Dança do Brasil Cantar de Lisboa), o estudioso luso-cabo-verdiano admite que o "doce lundum chorado", introduzido em Portugal através do Brasil tenha dado origem ao fado.

Vasco Martins avança a possibilidade de a morna, na fase primordial, ter recebido influências da modinha brasileira, muito divulgada a partir do século XVII em Portugal, porque o fado português também nascia nessa altura.

Apesar de praticamente todos os autores apontarem a ilha da Boavista como o local do nascimento da morna, a composição mais antiga do género data de inícios ou meados de oitocentos, "Brada Maria", de autor desconhecido, escrita em português e originária da ilha Brava, terra de Eugénio Tavares (1867-1930).

Compostas à guitarra portuguesa, as suas belas composições, de grande lirismo, algumas delas "clássicos" da música nacional, revelam uma forte influência do fado e de outras canções em voga na altura.

Vasco Martins afirma à Agência Lusa que as mornas de Eugénio Tavares, especialmente aquelas em português, aproximam-se muito do fado.

A partir de 1900 a morna evolui ao ritmo da prosperidade da cidade do Mindelo (ilha de S. Vicente), devido ao seu porto. Luís Rendall e B.Leza, dois expoentes máximos, recriam-na com influências da música brasileira.

Também os compositores e músicos cabo-verdianos Bau, Manuel dÈNovas e Ano Nobo, este último recentemente falecido, admitem encontrar muitas semelhanças entre a morna e o fado, quer em termos de ritmo, quer no lirismo, quer nos sentimentos que veiculam.

Bau chegou a gravar, executando ao cavaquinho, o célebre "Coimbra", da dupla Raúl Ferrão/José Galhardo. Ano Nobo e Manuel dÈNovas compuseram várias mornas-fados, e o primeiro na própria guitarra portuguesa, segundo confessaram à Lusa.

Vasco Martins recorda que os arranjos das primeiras mornas gravadas por Bana trazem um "cheirinho" de fado, mas "esse casamento é mais evidente" nos temas interpretados pelo cabo- verdiano Fernando Queijas, há décadas radicado em Portugal.

Do lado português também se encontram aproximações, com é o caso do recente "Fado Preto", interpretado por António Chainho e Marta Dias, ou da célebre "Sodade" com a voz de Paulo de Carvalho.

"Se se tocar a morna no tempo fado torna-se rapidamente fado, em termos de rítmica". E o mesmo se aplica ao fado se se tocar no tempo da morna, refere o mesmo musicólogo.

Um dos elementos que muito contribuiu para uma identidade muito própria da morna foi o crioulo, a língua cabo-verdiana, conjugado com vozes locais diferentes, guturais, que Vasco Martins reconhece igualmente no fado antigo.

Tal com o lundum, a morna e o fado, foram inicialmente canto e dança sensual. Com a sua assimilação pelas classes mais elevadas foram perdendo essa vertente de dança, embora em Cabo Verde a morna ainda hoje seja dançada pelas pessoas mais antigas.

E as similitudes entre os dois países e suas canções nacionais podem-se encontrar, também, nas "divas" mundiais que geraram. De um lado Amália Rodrigues, e do outro Cesária Évora. E nos compositores e executantes, porque não comparar a estatura de Bau a António Chainho, de Ildo Lobo a Carlos do Carmo, ou de Luís Rendall a Carlos Paredes?


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