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  Brasil
«Brasil deve ter assento no Conselho de Segurança ONU», diz Ramos Horta
- 17-Feb-2004 - 21:38

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste, José Ramos Horta, defendeu hoje em Brasília que o Brasil deve ter um lugar como membro permanente do Conselho de Segurança da Nações Unidas.


"Por que não dar um assento permanente ao Brasil, um país com 180 milhões de habitantes, cruzamento de várias histórias das civilizações da Península Ibérica, da América e da África, um país que ao longo de quase toda a sua história teve uma diplomacia prudente?", questionou Ramos Horta numa palestra organizada hoje pelo Instituto Rio Branco.

Prémio Nobel da Paz em 1996, o chefe da diplomacia timorense advoga a necessidade da reforma da ONU por considerar que, quase 60 anos depois da II Guerra Mundial, há uma "nova realidade estratégica no mundo".

"Há novas forças emergentes que deveriam ter o estatuto de membros-permanentes do Conselho de Segurança, nomeadamente o Brasil, a Índia, Japão, Egipto, África do Sul, Alemanha, Polónia e Nigéria", declarou na sua palestra na escola de diplomacia brasileira.

Ramos Horta lembrou que as Nações Unidas já passaram por várias crises, sendo que uma das mais graves, disse, foi no Ruanda, em 1994, quando mais de 700 mil pessoas morreram num espaço de poucos meses apesar da presença da ONU no território.

O ministro recordou ainda o genocídio no Camboja, na década de 70 do século XX, no qual "mais de dois milhões de pessoas morreram perante a total inoperância da comunidade internacional , representada pelas Nações Unidas".

"Foi uma vergonha. O Japão interveio fora do mandato da ONU, mas pôs fim ao genocídio", recordou.

Segundo o ministro timorense, estas questões deverão estar reflectidas na reforma da ONU para que se evitem intervenções unilaterais, para que seja reforçado o mecanismo colectivo e para a defesa dos direitos humanos.

Na opinião de Ramos Horta, "as Nações Unidas não serão mais eficazes sem o envolvimento pleno, activo dos Estados Unidos e estes não podem também dispensar as Nações Unidas".

O responsável pela diplomacia timorense referiu-se ainda à intervenção multinacional no Iraque para afirmar que "uma saída precipitada dos Estados Unidos do Iraque seria uma vitória para os extremistas islâmicos".

"A saída dos norte-americanos seria desastrosa para a região e para o resto do mundo", assinalou ainda Ramos Horta.

Sobre o papel dos Estados Unidas na Ásia, o ministro dos Negócios Estrangeiros timorense considerou que, apesar dos protestos em relação à presença dominante norte-americana, "não existe hoje um país ou um grupo de países que possam substituir uma saída abrupta dos EUA e garantir a paz e a estabilidade na região".

Ramos Horta acredita numa resolução para a ameaça terrorista no Sudeste Asiático que representa a Jemah Islamya, grupo indonésio, com ligações à Al Qaeda, responsável pelo atentado em Bali, em 2002, no qual morreram mais de 200 pessoas.

O ministro timorense disse que dezenas de líderes deste movimento já foram capturados e que houve várias acções preventivas que evitaram atentados.

"A luta que se trava na nossa região é uma luta, sobretudo, entre uma versão do islamismo fundamentalista, representado por sectores extremistas do Islão (Al Qaeda e Jemah Islamya) e o Islão secular, que se provou que pode coexistir com a democracia. A Indonésia é um exemplo", assinalou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros falou ainda sobre os esforços de Timor-Leste para a integração regional.

Timor-Leste quer tornar-se membro observador da Associação do Pacífico do Sudeste Asiático (Asean), e depois membro pleno.

Para isto é necessário que haja uma alteração do estatuto da Asean, que prevê somente a presença de 10 membros - Birmânia, Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietname. Timor Leste seria o 11º membro da organização.

Por outro lado, Ramos-Horta voltou a defender a manutenção de uma componente militar da ONU em Timor-Leste.

A actual missão das Nações Unidas em Timor está prevista para terminar em Maio próximo.

Uma decisão do Conselho de Segurança sobre este tema deverá ser tomada em Março ou Abril próximo.



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