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Kumba Ialá, o regresso seis meses depois
- 9-Mar-2004 - 14:53

Quase seis meses após ter sido remetido ao regime de residência vigiada, o ex-presidente guineense Kumba Ialá, destituído a 14 de Setembro de 2003, foi segunda-feira à noite libertado, afirmando que regressará de imediato à vida política activa.


Por José Sousa Dias
da Agência Lusa

Kumba Ialá torna-se no primeiro chefe de Estado da Guiné- Bissau deposto num golpe de Estado militar a não procurar refúgio no estrangeiro, pois tanto Luís Cabral, primeiro presidente (1973/1980), como João Bernardo "Nino" Vieira, o segundo chefe de Estado guineense (1980/99), encontram-se exilados em Portugal.

Três dias depois do golpe de Estado, Kumba Ialá assinou oficialmente a renúncia ao cargo de presidente, mas deixou no texto da declaração uma frase sintomática da sua tenacidade que acabou por cumprir-se: "a luta política continuará".

Combativo, Kumba Ialá demonstrou isso mesmo ao deixar pairar a ideia de que não pretendia abandonar o país e que, mesmo sem conhecer o futuro, iria regressar à política assim que lhe fosse possível.

Kumba Ialá foi empossado chefe de Estado a 17 de Fevereiro de 2000, depois de uma vitória esmagadora na segunda volta das eleições presidenciais realizadas a 16 de Janeiro do mesmo ano, em que recolheu 72,5 por cento dos votos.

Antes de chegar ao poder, o então líder do Partido da Renovação Social (PRS, que fundou em 1992 e que vencera as legislativas de Novembro de 1999) era tido como um dos políticos mais ambiciosos e populares do país.

Em 1994, nas primeiras eleições livres e multipartidárias na Guiné-Bissau, obrigou o então presidente "Nino" Vieira a uma impensável segunda volta nas presidenciais, tendo saído derrotado por apenas 4 por cento dos votos.

No entanto, e no rescaldo do conflito militar que assolou a Guiné-Bissau entre 07 de Junho de 1998 e 07 de Maio de 1999, período em que é acusado pela antiga oposição de se ter refugiado no interior, acabaria por vencer as presidenciais.

Nessa votação, Kumba Ialá, de 50 anos, conseguiu congregar à sua volta quase toda a oposição ao antigo partido único, o Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Obteve na primeira volta 38,8 por cento dos votos expressos, contra 23,4 por cento do candidato do PAIGC, Malam Bacai Sanhá.

Depois da vitória, Kumba Ialá afirmou ser sua intenção "humilhar o PAIGC", partido em que foi professor da Escola de Quadros e no qual militou entre 1962 e 1990, ano em que foi expulso.

Ao longo dos 43 meses que esteve no poder, Kumba Ialá não correspondeu às expectativas da população guineense, que já vivia abaixo do limiar da pobreza e ficou ainda mais fragilizada ao longo da sua governação.

As crescentes tensões sociais - a maioria dos funcionários públicos não recebia salários há quase um ano -, os seus maus humores e precipitações - demitiu e remodelou cinco primeiros-ministros e mais de cinco dezenas de ministros e secretários de Estado - e a sua pouca sensibilidade para questões de ordem política, deitaram por terra a sua popularidade e levaram ainda ao descontentamento dos militares.

Foram esses mesmos militares, que curiosamente havia condecorado dois meses antes, que, congregados em torno do Comité Militar para a Restituição da Ordem Constitucional e Democrática (CMROCD), o derrubaram a 14 de Setembro de 2003.

Nesse mesmo dia, o seu "braço-direito", o chefe do Estado- Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general Veríssimo Correia Seabra, auto-proclamou-se presidente interino do país.

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e em Direito pela Faculdade de Bissau, cursando ainda Teologia na Universidade Católica de Lisboa, Kumba Ialá nasceu em Bula, 30 quilómetros a norte de Bissau, a 15 de Março de 1953, filho de pais camponeses.

A 20 de Março de 1990, após a abertura ao pluralismo em Bissau, é um dos co-fundadores da Frente Democrática Social, ao lado de Rafael Barbosa, um dos históricos da luta pela independência.

A sua irreverência e ambição levaram-no a deixar a FDS, formando, a 14 de Janeiro de 1992, o seu próprio partido, o PRS, de que foi presidente até Março de 2000, já depois de eleito chefe de Estado guineense.

Culto e poliglota, fala e escreve fluentemente português, espanhol, francês e inglês, além de ter aprendido latim, grego e hebraico, segundo a sua biografia oficial. Em 2003, publicou dois livros de "Pensamentos Político-Filosóficos", cuja edição esgotou rapidamente na Guiné-Bissau.

Quando jovem jogou futebol como avançado-centro ou extremo- esquerdo no Louletano, clube da cidade de Loulé, sul de Portugal, de onde guarda muitas recordações e "alguns bons amigos" e onde passa normalmente as suas férias em Portugal. Rezam as crónicas que era um bom rematador, rápido e com bom "drible".


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