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  Brasil
Emigrantes defendem fusão para salvar movimento associativo em crise
- 28-Mar-2004 - 16:30

Na última década, o movimento associativo português no estrangeiro vem dando sinais de crise, fruto do envelhecimento das comunidades, do afastamento dos jovens e da redução de subsídios. Dirigentes associativos e governo apontam a fusão como o caminho para a sobrevivência.


Por Célia Paulo
da Agência Lusa

Em França, as duas maiores federações - a Federação das Associações Portuguesas de França (FAPF) e a Coordenação das Colectividades Portuguesas de França (CCPF) - estão a atravessar graves problemas financeiros devido ao corte nos apoios por parte dos governos dos dois países.

A situação chegou ao extremo de terem sido obrigadas a abandonar as respectivas sedes, a despedir os funcionários e a cortar nas actividades programadas.

Na Alemanha e no Canadá, o principal problema é dar continuidade ao movimento associativo iniciado pela primeira geração, por falta de elementos para dirigir as associações.

No Brasil e na África do Sul, boa parte das associações debatem-se com falta de verbas e de participação.

Para o presidente da Federação das Associações Portuguesas na África do Sul, António Oliveira, a principal dificuldade é encontrar jovens para liderar as colectividades.

"Não estão preparados nem interessados em dar continuidade às casas fundadas pelos pais", disse à Agência Lusa.

O excessivo número de associações e a falta de diálogo inter- associativo são igualmente apontados por António Oliveira como estando na origem da actual situação do movimento associativo naquele país.

Por isso, aponta como solução a fusão de algumas associações.

"Se não houver uma fusão e um aumento da participação dos jovens, o movimento associativo português na África do Sul não tem futuro", argumentou.

Também António Gomes da Costa, presidente das Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras, defendeu a junção das associações como remédio para a crise.

"No Brasil, algumas casas regionais já se juntaram e outras associações deverão seguir o mesmo caminho", aconselhou, adiantando ser essa a tendência actual.

No Canadá, os jovens luso-descendentes estão cada vez mais empenhados na defesa da língua e cultura portuguesas, mas não querem assumir cargos de responsabilidade, disse à Agência Lusa Joe Eustáquio, presidente da Associações dos Clube e Associações Portugueses do Ontário (ACAPO), em Toronto.

O mesmo responsável apontou a grande quantidade de colectividades como maior obstáculo à afirmação do associativismo e lembrou que a criação da Casa de Portugal em Toronto "é um sonho" da comunidade.

O agrupamento de associações é uma medida também defendida pelo secretário de Estado das Comunidades, José Cesário.

"Se as colectividades dividirem instalações ou se unirem ficarão com mais força para trabalhar", sustentou em declarações à Agência Lusa.

Opinião contrária tem Carlos Pereira, vice-presidente do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas (CPCP), que não acredita que a concentração resolva o problema do associativismo.

A solução passa - segundo Carlos Pereira - pela apresentação de novos projectos e actividades de menor dimensão ligados ao teatro, música, cidadania e diversificação de modalidades desportivas, para além do futebol.

O CPCP trabalha actualmente na elaboração de um relatório sobre o estado do associativismo português no estrangeiro, documento que conta com a contribuição de todos os elementos do Conselho das Comunidades Portuguesas (órgão de consulta do Governo para questões de emigração).

Este relatório, que deverá ser apresentado em Maio, surge como resposta a uma consulta do Executivo sobre esta matéria.

Entre as sugestões a apresentar, deverá estar a criação de um gabinete para estudar soluções para esta área.

Associados à falta de interesse dos jovens e da comunidade em geral pela vida associativa, surgem frequentemente os problemas financeiros.

No Brasil, a falta de sócios, fruto do envelhecimento da comunidade, originou a redução de receitas em algumas casas regionais, que não cobram quotas anuais aos luso-descendentes e brasileiros.

Também na Alemanha, segundo Vítor Estradas, presidente da Federação das Associações Portuguesas, algumas colectividades estão a enfrentar problemas financeiros motivados pela fraca adesão dos emigrantes às suas actividades.

Na origem da crise financeira estão também os escassos apoios do Governo português, lamentaram alguns dirigentes ao criticarem a forma como são distribuídos.

"As associações deveriam ser informadas dos subsídios que o Governo pretende atribuir anualmente", disse o presidente da ACAPO, adiantando que há colectividades que têm conhecimento do tipo de apoios e outras não.

Por sua vez, Carlos Pereira afirmou que "Portugal nunca apoiou o movimento associativo no estrangeiro" e os subsídios que concede são "ridículos".

"Portugal não apoia o movimento associativo e não sabe aproveitar o potencial das colectividades para promover a cultura portuguesa", criticou.

Para além dos fracos subsídios de Portugal, na França as associações enfrentam cortes significativos na atribuição de apoios por parte das autoridades francesas.

Neste contexto, o presidente da Federação das Associações Portuguesas de França, José Machado, sugere que Portugal e a França deveriam fazer um esforço conjunto para garantirem as acções culturais desenvolvidas pelo movimento associativo.

Por sua vez, Hermano Sanches Ruivo, presidente da Coordenação das Colectividades Portuguesas de França, propõe a existência de um fundo de apoio ao associativismo, no qual os vários ministérios portugueses deveriam investir a médio e a longo prazo.

O secretário de Estado das Comunidades referiu à Lusa que o Governo faz depender o apoio ao movimento associativo no estrangeiro da apresentação de projectos relacionados, por exemplo, com actividades culturais e mobilização de jovens.

"A secretaria de Estado das Comunidades apoia sobretudo associações que realizam projectos com interesse", disse ao adiantar que o maior subsídio atribuído anualmente vai para o Festival de Teatro Português em França, organizado pela CCPF.

No último semestre de 2003, os subsídios atribuídos pelo Governo variaram entre os 150 euros e os 15 mil euros, destacando-se os dois apoios concedidos à CCPF num total de 30 mil euros.


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