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A Lusofonia é uma Cultura
de Língua Portuguesa

- 16-Dec-2002 - 13:33


Neste sintético texto abordaremos o que para nós são as probletemáticas da
Lusofonia, conceito difuso, escorregadio de múltiplas (in)definições e que carece, ainda, de uma conceptualização que a explique, para que todos, sem ambiguidade a compreendam.

A Lusofonia insiste em fundamentar-se, sobretudo, numa comunidade linguística produzida pela História e, a título mais reduzido e embrionário, num espaço económico, numa organização política e numa organização cultural. Naveguemos, então, pelo cabo das tormentas mas, possivelmente, também, pelo cabo da Boa Esperança do oceano Lusófono.


Entendemos a Lusofonia no quadro de uma Cultura de Língua Portuguesa nos termos em que propôs Agostinho da Silva. numa entrevista histórica que deu ao Programa Zip-Zip da RTP, em 25 de Agosto de 1969, numa altura em que Portugal detinha o poder colonial nos países hoje independentes e que formam a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa): abrange naturalmente não só este território Português, mas também o Brasil, outros territórios pelo mundo e, provavelmente no futuro, porque há a possibilidade de expansão dessa cultura portuguesa, provavelmente outras nações terão todo o interesse em entrar connosco nalguma espécie de colaboração que terá por base, e por instrumento de trabalho, essa mesmaLíngua Portuguesa.


Culturalmente, entendemos o espaço lusófono no contexto da materialização da ideia do V Império, tal como o definiu o Padre António Vieira primeiro, e Fernando Pessoa, depois, conjugando o sonho utópico com um projecto de uma cultura de língua portuguesa. Sem dúvida um Projecto grandioso, exaltante, a ser realizado como algo que se pode sonhar. Um sonho fabuloso, uma utopia que bem poderá tornar-se realidade.


Pode-se pressupor que a Língua Portuguesa é o primeiro passo para a consolidação e afirmação do espaço da Lusofonia, já que ela é o denominador comum e traço de união de comunidades e países com vínculos históricos e patrimoniais comuns. Considerando, por outro lado, que a língua é inseparável da cultura, é preciso que um povo ou um país tenha relações fortes com o português, quer como língua materna quer como língua oficial, para desenvolver uma identidade lusófona.


Com efeito, é a língua que une os países e os falantes de Português que fazem, potencial ou realmente, parte da lusofonia. O espaço lusófono abrange os cinco continentes e, por isso mesmo, está sujeito a uma grande diversidade, linguística, racial, religiosa, costumes, etc.


Uma língua comum é, assim, o primeiro passo para se poder sonhar e teorizar o universo lusófono. Mas, esse factor de unidade fundamental, a nível mundial, encontra tormentas várias: só em três países da CPLP(Portugal, Brasil e Angola) o Português é a língua materna, falad pela totalidade ou por uma maioria significativa da população, enquanto que nos outros países da CPLP, o Português é uma língua segunda e uma língua de ensino.


Na Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor fala-se, principalmente, os crioulos portugueses, as línguas africanas ou asiáticas como línguas maternas. Fora da CPLP, o português permanece o critério fundamental para definir o espaço lusófono, ou porque é falado por uma maioria significativa de pessoas ou porque é um elemento importante do passado de um país que deixou vestígios importantes (línguas crioulas portuguesas, documentos oficiais da administração, folclore, monumentos, etc.), donde se pode deduzir da importância da Língua Portuguesa e que justifica que os membros das comunidades que falam o Português ou línguas ou crioulos ou dialectos que dele emanaram, sejam incluídos num espaço comum, pelo menos virtual ou espiritual, que tenha a língua portuguesa como factor unificador.

É neste contexto que pensamos que a Lusofonia não pode circunscrever-se às fronteiras nacionais dos países de língua oficial portuguesa.


É imprescindível que abra as portas a outras comunidades espalhadas pelos vários cantos do mundo onde o português é falado por uma parte significativa da população ou que com ele tenham tido, no passado, um contacto significativo. A Galiza que, recentemente, se tem vindo a reclamar do Espaço Lusófono e que já pediu a sua integração na CPLP, é disso um bom exemplo.


Se pensarmos, também, na grande diáspora lusófona onde se insere um terço dos portugueses que habita fora de Portugal (4 806 353 milhões) poderemos, desde logo, alargar, por aí, o espaço da Lusofonia. Existem grande comunidades portugueses em França, na África do Sul, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos, etc. Há que ter ainda em conta que os brasileiros, andam também pelo mundo fora (só no Paraguai são 636,000).


E muitos são os brasileiros e portugueses que vivem na Venezuela, na Argentina, nos Estados Unidos e Canadá, partilhando, como por exemplo, em Toronto, o mesmo bairro. A Lusofonia abarca, também, comunidades que se expressam em crioulos originários do português ou através de uma língua muito próxima como o galego.


A Galiza e Olivença que continuam a manter relações emocionais com Portugal São incontornáveis da problemática lusófona. E, também, todas as regiões que tiveram, e têm ainda, uma influência portuguesa como, Macau, Aruba, Antilhas Neerlandesas, Ilhas Virgens e Porto Rico, Molucas , etc, regiões, onde o português desempenhou no passado um papel importante ainda que hoje seja pouco falado pelas povoações. Aí foram deixados importantes vestígios culturais.


Nos casos extremos da Ásia onde o português foi completamente abandonado e onde não se fala nem se ensina, (Goa, Macau, Diu, Malaca) mas onde podem persistir pequenos grupos que ainda falam português ou onde a História deixou rasgos da cultura portuguesa que se encontram nas culturas nacionais ou regionais, justifica que sejam considerados potencialmentelusófonos.


Insistimos, a Lusofonia define-se como uma comunidade histórica, cultural e linguística. É nesta perspectiva que poderemos integrar na Lusofonia todas as comunidades que, com a Língua de Camões, Machado de Assis, Pepetela, Mia Couto, Gabriel Mariano, Eugénia Neto, tiveram significativo contacto.


E quem sabe, talvez esse novo mundo possa vir a constituir um novo Império, o V Império, profetizado pelo Bandarra, mais tarde desenvolvido pelo Padre António Vieira e mais recentemente, tema privilegiado na obra literária de Fernando Pessoa.


Produto do Império Português, a Lusofonia é hoje um movimento pequeno se comparado com a imensidão dos sonhos que a fundaram. Mais do que uma herança, a Lusofonia é um desafio.


Luís Aguilar

Professor de Estudos Portugueses da Universidade de Montreal - Canadá


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