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  Entrevista
A Lusofonia perdeu
um símbolo eterno

- 3-Jul-2004 - 13:04


“Foi uma perda irreparável para a cultura que ela tanto enriqueceu, e para o país, que tanto prestigiou”, afirmou Jorge Sampaio a propósito da partida de Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen morreu esta sexta-feira em Lisboa, aos 84 anos, e o país, bem como toda a comunidade lusófona, chora o desaparecimento daquela que é unanimemente considerada uma das grandes figuras da poesia portuguesa e em português Numerosas figuras da vida política e cultural portuguesa manifestaram já a sua tristeza e dor, recordando a obra extraordinária deixada por Sophia de Mello Breyner, "o único consolo" - como afirmou a escritora Lídia Jorge - para a notícia da morte da poetisa, que se encontrava internada há cerca de duas semanas no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa.


O Presidente da República, Jorge Sampaio, considerou o desaparecimento de Sophia de Mello Breyner "uma perda irreparável para a cultura, que ela tanto enriqueceu, e para o país, que tanto prestigiou".

"Fiel às grandes heranças da cultura ocidental - a clássica, sobretudo grega, e a cristã -, nos versos de Sophia habita a vida e a reflexão sobre ela", afirmou o chefe de Estado, para quem a obra da poeta "atingiu uma altura única", que se "renova a cada leitura".

Jorge Sampaio destaca também a faceta de Sophia como cidadã, recordando-a como "uma corajosa combatente pela liberdade e uma resistente, pelo verbo e pelo acto, à opressão".

Também para o primeiro-ministro Durão Barroso, "Portugal chora hoje não só a sua maior poetisa e uma das figuras marcantes da sua cultura contemporânea (...), mas também uma cidadã exemplar que participou plenamente na vida da sua «polis», defendendo ser sempre possível e necessário viver nela com justiça e liberdade".

O secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, lamentou também a "grande perda" que constitui o desaparecimento de Sophia de Mello Breyner, considerando que a escritora e poetisa foi um exemplo de uma vida "iluminada por causas, ideias, princípios e valores".

Para o ministro da Cultura, Sophia "merece ser lembrada como um dos maiores poetas de sempre", tendo também Pedro Roseta prestado uma "comovida homenagem à sua luta pelos direitos da pessoa humana".

Outras grandes figuras da literatura portuguesa contemporânea lamentaram também a morte de Sophia de Mello Breyner, com o escritor José Saramago a sublinhar a forma "assombrosa" como a escritora conseguia "purificar a palavra como se tivesse acabado de a inventar".

"É uma grande perda por ter sido um grande poeta e uma pessoa ela mesmo fora do comum, mas fica a obra e os poemas, que é do melhor que fez", assinalou o Prémio Nobel da Literatura.

Manifestando-se também "muito triste" com a notícia da sua morte, o poeta Manuel Alegre sublinhou que Sophia de Mello Breyner "é um dos maiores nomes da história da poesia portuguesa", e "um nome que rima com poesia", enquanto o ensaísta Eduardo Lourenço considerou a escritora "uma das vozes mais extraordinárias da poesia portuguesa", cuja obra "já está no coração do tempo".

Sophia de Mello Breyner Andresen começou a escrever aos 12 anos, deixando publicados 37 títulos entre poesia, prosa, literatura infantil, teatro, ensaio, além de vários poemas e textos dispersos.

A poetisa e escritora editou 17 livros de poesia, nove antologias suas, 13 livros de prosa entre contos e histórias para a infância, seis ensaios e uma peça de teatro, "O Colar", levada à cena em 2002 pela companhia de teatro A Cornucópia.
Sophia de Mello Breyner Andresen destacou-se também como tradutora de Dante, Paul Claudel, William Shakespeare, Leif Kristianson, Eurípedes, entre outros autores estrangeiros.

A tradução de Dante valeu-lhe uma condecoração do governo italiano, tendo Sophia recebido, ao longo da sua carreira, 13 prémios literários, nomeadamente, o Prémio Camões, em 1999.

Dia 12 seria distinguida com a Medalha de Honra do Presidente do Chile, por ocasião do centenário do poeta Pablo Neruda, que se assinala nessa data.

A praia da Granja e a cidade do Porto, onde nasceu a 06 de Novembro de 1919, foram cenários que povoaram as suas recordações de infância e juventude.

Mais tarde, já em Lisboa, frequentou o curso de Filologia Clássica, que não chegou terminar.

Mulher de fé - defendeu que a religião não condiciona o humano, "mas funda-o" - foi casada com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, já falecido, de quem teve cinco filhos, um dos quais o jornalista e comentador Miguel Sousa Tavares.

Os primeiros passos que deu na literatura para crianças - uma vertente fundamental da sua obra - tiveram por base os seus filhos, já que escreveu as histórias que lhes queria contar.

Em Sophia é também conhecido o fascínio pela Grécia, clássica e moderna, um amor que nasceu de um acaso.

Certa vez entrou numa livraria e comprou a "Odisseia", tendo- se reconhecido na obra.

"O sorriso que Homero via nas espumas era o mesmo que eu via na grandeza do mar", explicou numa entrevista dada em 1995 ao semanário O Independente, adiantando que, apesar de ser Novembro, sentiu-se em pleno Verão.

"Compreendi que aquela poesia falava de uma forma de estar no mundo que eu procurava".

Sophia gostava de escrever sobre o verde, o mar, as ilhas, o amor e o trágico, mas não gostava que lhe perguntassem por que é que escrevia.

Sophia de Mello Breyner Andresen morreu esta sexta-feira em Lisboa, aos 84 anos, e o país chora o desaparecimento daquela que é unanimemente considerada uma das grandes figuras da poesia portuguesa.


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