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  Cabo Verde
Cabral, o trilho! Cabral, a chave!
- 6-Aug-2004 - 19:47


A fundação Amilcar Cabral, criada e sediada em Cabo Verde, realizará de 9 a 12 de Setembro de 2004, o simpósio internacional Amilcar Cabral, uma homenagem que marcará o 80º aniversário do nascimento de Cabral.


Por: Fernando Casimiro (Didinho)

O simpósio reunirá personalidades políticas e intelectuais de vários quadrantes, contando com o apoio do governo caboverdiano, naturalmente, e da UNESCO (organismo das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura), que respondeu favoravelmente ao pedido do governo de Cabo Verde, no apoio a esta iniciativa.

Para a UNESCO, é uma forma de valorizar tudo o que Cabral fez, não só para Cabo Verde, mas também para a África e para a Humanidade.

Deixo aqui o meu ponto de vista sobre esta iniciativa, aproveitando a oportunidade para lançar ideias sobre a valorização do património comum, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que é Amilcar Cabral, como forma de se prestar uma homenagem mais consensual dos ideais do grande pensador e homem de acção que ele foi.

Homenagear Cabral, sem a participação conjunta da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, mesmo tratando-se de países soberanos e cada um com a sua linha de orientação e, mesmo a iniciativa, não sendo governamental (oficial), é sonegar os fundamentos ideológicos sempre defendidos em vida por Cabral e que levaram ao sucesso das independências dos dois países e povos irmãos.

Recuando no tempo, ponho o dedo na ferida, relembrando a "morte súbita" dum projecto com muitos anos de estudo, definição, argumento e sacrifício, por parte de todos quantos aderiram a ele, e em particular, o seu criador, Amilcar Cabral.

O PAIGC cumpriu a primeira etapa do seu projecto, de forma exemplar, ainda que ficando "orfão" do seu líder, que foi físicamente traído a 20 de Janeiro de 1973, com o seu bárbaro assassinato.

A voz de comando e o espírito contagiante de vencedor, que Cabral sempre transmitiu aos seus camaradas, prevaleceu, fortalecendo o moral dos guerrilheiros em armas, rumo ao programa mínimo do partido: As independências da Guiné e de Cabo Verde.

A Guiné-Bissau, foi proclamada independente, ainda que de forma unilateral, a 24 de Setembro de 1973 (depois da Assembleia Geral das Nações Unidas ter aprovado em 1972, uma resolução em que declarava o PAIGC, como único e legítimo representante dos povos da Guiné e de Cabo Verde), tendo sido reconhecida por mais de 90 países de todo o Mundo, colocando a potência colonial (Portugal), numa posição de anexação dum país independente, criando assim um factor contributivo quer para a queda da ditadura em Portugal (25.04.1974), quer para as negociações e concessões das independências de Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Portugal acabaria por reconhecer oficialmente a existência da república da Guiné-Bissau, a 10 de Setembro de 1974, tendo o PAIGC, sido reconhecido como único e legítimo representante do povo da Guiné-Bissau, através de negociações, que fixariam também o dia 5 de Julho de 1975, como dia da independência de Cabo verde, sendo também o PAIGC, reconhecido como único e legítimo representante do povo de Cabo Verde.

Começou aqui a segunda fase do projecto idealizado por Amilcar Cabral e que parecendo de fácil leitura, tornou-se, afinal, deficitário na forma como foi interpretado e implementado pela cúpula do partido.

Segunda fase do projecto, que, estaria orientada no sentido de se criar: o espírito de unidade na Guiné-Bissau, bem como o espírito de unidade em Cabo Verde.

Esta era a ideia base para se preparar os dois países e povos irmãos para uma terceira fase, que seria a união política global (fusão) dos mesmos. Se no caso da Guiné, fosse quase uma certeza a convergência em relação a aceitação do projecto da unidade, isto, devido à confiança popular traduzida no apoio ao PAIGC, nos onze anos de luta armada, já em relação a Cabo Verde, o assunto poderia ser relativamente mais complexo precisamente por não ter havido uma relação, no terreno, que proporcionasse a tal afinidade entre o partido e as populações caboverdianas.

Foi por isso, que, em minha opinião, Cabral quis amadurecer as mentalidades, sobretudo em Cabo Verde, e, também devido às características da emigração, que fazia com que as populações tivessem influências de várias tendências, mesmo no assumir da própria independência.

A meu ver, Cabral queria fazer um trabalho de mobilização no terreno, do género que se fez no início da luta armada na Guiné. e que tão bons frutos deu.

Na altura, muita gente achou e ainda hoje acha, que, era um projecto utópico. Mas desafiar a potência colonial e conseguir a independência de dois países, talvez fosse mais utópico do que o projecto da unidade da Guiné e de Cabo Verde, que só precisava do amadurecimento da ideia para que desse entrada no "sistema" e, duma tradução correcta na interpretação e activação da linha de orientação inovadora, com visão de futuro, que Cabral projectou.

A unidade da Guiné e de Cabo Verde, preconizada por Cabral, não seria a unidade do cavaleiro e do cavalo, como se viria a constatar na governação do PAIGC , nos dois países.

Cabral quis dar o privilégio da decisão da unidade da Guiné e de Cabo Verde, aos respectivos povos, mas, convicto de que seria capaz de os mobilizar, para essa via, com tantos e consistentes argumentos que ele tinha sobre o assunto.

O PAIGC que entrou de forma triunfal, na Guiné-Bissau, mas com alguma animosidade em Cabo Verde, cedo começou a desviar-se dos princípios ideológicos que o caracterizaram, até aí, como um partido bem estruturado, política e militarmente.

Muitos guineenses, que, por terem pertencido ao exército colonial português, foram fuzilados e enterrados em valas comuns, sem direito a julgamento sequer.

Muitos guineenses foram presos e torturados de forma arbitrária, por serem considerados agentes desestabilizadores.

O PAIGC , estava a ser contrário ao espírito da unidade dos guineenses, contrário ao espírito da justiça, e da liberdade, fomentando um clima de terror e intimidação, que não correspondiam aos ideais defendidos em todo o processo de libertação.

Paralelamente, a nível social, começou a notar-se um egoísmo generalizado de quem detinha o poder, contrariando o espírito de solidariedade e de defesa dos direitos e interesses do povo.

Os camaradas passaram a ser diferentes, e queriam mostrar que eles é que mandavam no país.

Os camaradas passaram a ser diferentes, porque tinham começado a provar as ajudas internacionais, que tinham sido disponibilizadas em nome da Guiné e de Cabo Verde, mas entregues ao PAIGC.

Os camaradas já eram diferentes, porque líder... só houve um, de nome Amilcar Cabral! A nível do partido, as brigas internas foram-se multiplicando, sem que politicamente se conseguisse superar o que quer que fosse.

O partido tonou-se totalitário, não havendo o tal rosto ou voz que marcasse a diferença.

É assim que se regista, a 14 de Novembro de 1980, o primeiro golpe de Estado na Guiné-Bissau, justificado com a necessidade de se acabar com as matanças, prisões arbitrárias, corrupção, nepotismo etc. João Bernardo Vieira "Nino", assumiu o poder, derrubando Luís Cabral e, originando a ruptura no partido, que teve uma consequência curiosa:

A manutenção do PAIGC , na Guiné e a alteração em Cabo Verde, para PAICV. Nino Vieira passou a ser o secretário geral do PAIGC, tendo Aristides Maria Pereira, até então, secretário geral do PAIGC, assumido a liderança do PAICV, partido que passou a dirigir Cabo Verde.

O mundo ficou surpreso, com a forma medíocre como todo esta situação foi gerida pelas duas partes, que, política e socialmente influenciou de forma negativa, a assimilação dos reais valores históricos do propósito da unidade dos dois países, como sempre sugeriu Cabral.

Nino Vieira, mostrou não ser político, mas sim homem de armas (guerrilheiro), dando o primeiro passo para a traição ao partido e à memória de Cabral.

Aristides Maria Pereira, foi incapaz de "cimentar "a sua liderança no PAIGC , dando a entender que, há muito que não concordava com a existência de um partido para dois países, pois foi ele a dar o golpe final, "tirando" a Cabo Verde o orgulho de ser dirigido pelo partido fundado por Amilcar Cabral, por ele próprio, e outros camaradas.

Aristides Maria Pereira, na qualidade de secretário geral do PAIGC, ao sugerir a alteração da sigla PAIGC, para PAICV, também traíu Cabral, seu companheiro de longa data , mostrando não ser capaz de lidar com assuntos melindrosos, optando por isso, pela solução mais fácil, expresso num radicalismo característico das ditaduras.

Apesar de ser um homem de poucas palavras, ao contrário de Amilcar Cabral, Aristides Maria Pereira também nunca foi um homem de diálogo, como Cabral sempre foi.

O extremar de posição na crise de 14 de Novembro de 1980, na Guiné, provou isso mesmo.

Aristides Maria Pereira, iria mais longe anos depois, ao exprimir a opinião de que Cabo Verde deveria continuar ligado a Portugal, embora com estatuto próprio...

Um político arrependido depois de tantos anos de sacrifícios...

Estava-se a delapidar um património de valor incalculável, lapidação de consequências gravosas a todos os níveis, com reflexos de maior na Guiné, devido às raízes estruturais do próprio PAIGC (que, sem sombra de dúvidas, colhia mais simpatia do povo guineense do que das populações caboverdianas).

Entretanto, João Bernanrdo Vieira (Nino), que dissera que a tomada do poder a 14 de Novembro de 1980 não constituía um golpe de Estado, mas sim, um reajustamento político-militar, tendo nos seus discursos, enumerado, vezes sem conta, os motivos que tinham originado o levantamento militar, cedo começou a dar mostras de que a solução da condução do PAIGC, não passava por ele.

O PAIGC, que todos chamavam e continuam a chamar partido de Cabral, estava agonizante, e na escassez de recursos alternativos (humanos-quadros capazes e políticos-postura democrática) para a sua reorganização, bateu no fundo, deixando, a meu ver, de ser o partido de Cabral, para se tornar no partido de quem o dirigia ou dirige.

Se a Nino Vieira, interessava mais o papel de estadista, e por conseguinte, esquecer os tempos difíceis da luta de libertação, passando a ser o número na Guiné, com toda a "grandeza" que isso representava, a Aristides Maria Pereira, convinha estruturar o partido recém criado, o PAICV, na tentativa de o identificar com o povo caboverdiano, devido à nova realidade de circunstâncias, e por conseguinte, legitimar o recém criado PAICV, na condução dos destinos de Cabo Verde.

Nesta confusão do assumir de posições, nunca se questionou como se resolveu a questão da gestão do património do PAIGC.

Como partido político, e estando estruturado desde os tempos da luta armada, com o propósito de receber e canalizar as ajudas financeiras, por exemplo, tinha que ter uma conta bancária (ou mais), pois, mesmo dirigindo dois países, o partido tinha que ter o seu próprio suporte financeiro, por forma a poder gerir as suas actividades. Como é que se geriu esta situação, se os dois principais dirigentes:

Aristides Maria Pereira, secretário geral do PAIGC, e presidente da república de Cabo Verde na altura do golpe de Estado, e Luís Severino de Almeida Cabral, secretário geral-adjunto do PAIGC, e presidente do Conselho de Estado da república da Guiné-Bissau (também na altura do golpe de Estado) e que à partida tinham o poder máximo da gestão corrente das actividades do partido, ficaram de fora do PAIGC...?!

Para o PAIGC, que continuava a existir na Guiné-Bissau, sob a orientação de Nino Vieira, a questão do património partidário não era importante. O partido era um mero suporte político que continuava a ser sustentado pelo prestígio que o facto de ter sido fundado por Amilcar Cabral lhe conferia.

Um suporte político que serviria de trampolim para o enriquecimento da maior parte dos seus quadros superiores, que também faziam parte do governo da Guiné-Bissau.

Um suporte político que alicerçava cada vez mais a ditadura, expressa em fuzilamentos, prisões, torturas, humilhações... Estava-se perante uma descaracterização completa dum partido que já tinha merecido o respeito de todo o mundo.

Estava-se perante o agudizar do sofrimento dum povo que desde a primeira hora respondeu positivamente à chamada de Cabral, mostrando-se disposto a sofrer para a concretização do projecto da libertação e da unidade da Guiné e Cabo Verde.

É assim que a traição aos ideais de Cabral, na sua vertente partidária, vai penalizar o relacionamento entre os povos da Guiné e de Cabo Verde, devido aos discursos inflamatórios de ambas as partes, na gestão da crise do 14 de Novembro de 1980.

O projecto de Amilcar Cabral, tinha chegado ao fim. Os camaradas deixaram de se entender, porque passaram a pensar só neles.

Como se pode homenagear Cabral com este simpósio internacional, tendo pessoas afectas à organização do dito simpósio traído Cabral...?

O PAIGC, que continua em exercício na Guiné, e o PAICV, em Cabo Verde,o que é que fizeram no sentido da reafirmação e divulgação dos valores deixados por Cabral?

A Guiné-Bissau e Cabo Verde, países soberanos, o que é que fizeram para o usufruto da valiosa herança deixada nos testamentos políticos de Amilcar Cabral...?!

Entre 1974 e 1976, milhares de fotografias, postais, selos, livros, discos com discursos, filmes e outras criatividades sobre Cabral foram editadas, fazendo chegar a sua referência aos guineenses e caboverdianos.

Que é que se fez mais depois disso...?! Ficou-se por aí...

Foi instalado o mausoléu de Amilcar Cabral, no aquartelamento da Amura, em Bissau, que era um marco de honra na estadia de chefes de Estado estrangeiros em visita à Guiné-Bissau, que iam lá depositar coroa de flores, mostrando respeito e dignificando o símbolo máximo da Guiné e de Cabo Verde... Em 2003, depois do golpe de Estado de 14 de Setembro na Guiné-Bissau, um jornalista português visitou o mausoléu, e o relato foi triste... ABANDONADO... Junto encontra-se o automóvel que Cabral conduzia em Conacry (1973), um Volkswagen Sedan,(Carocha) o carro do povo.

Em 1974, os camaradas só conduziam automóveis da marca Volvo, topo de gama... Mesmo sendo a Guiné-Bissau dirigida por Kumba Yalá e pelo seu partido, o PRS, o que fizeram: O PAIGC, e os militares que partilham o aquartelamento, sendo os mais antigos, discípulos de Cabral?! O que fez o PAICV, para chamar a atenção a este episódio?! O que fez Pedro Verona Pires, na qualidade de presidente da república de Cabo Verde,e antigo companheiro de luta de Cabral, nas suas recentes passagens por Bissau? Será que chegou a visitar o mausoléu?

O 20 de Janeiro, dia do assassinato de Cabral e consagrado aos heróis nacionais, era comemorado por todos, independentemente de se ser ou não do PAIGC... de se ter nascido na Guiné ou em Cabo Verde... Nos últimos anos, a Guiné-Bissau passou a minimizar o acontecimento, deixando Cabo Verde com o espírito da tradição, que não passa disso mesmo: Tradição !

Volvidos 31 anos de independência da Guiné-Bissau, e 29 de independência de Cabo Verde, Cabral passou a ser uma figura decorativa, de museu, e que só é homenageado por calendarização.

A maioria da nova geração de guineenses e caboverdianos não sabe quem foi Cabral.

Continuamos a estudar nas nossas escolas: Marx, Lenine, Engels, Socrates, Platão, Einstein, e tantos outros, políticos e filósofos...mas não estudamos CABRAL !!!

Temos que relançar e divulgar as obras de Amilcar Cabral, elas têm acção, e devem ser manuais de consulta permanente. São obras de estudo e não obras de leitura de "passagem". A maioria de nós, guineenses e caboverdianos não sabe que pode sentir o orgulho da sua afirmação no mundo, bastando para isso encontrar o trilho e a chave nas entrelinhas do testamento político que Cabral nos deixou.

É urgente que a ignorância e a estupidez política da crise PAIGC /PAICV, seja ultrapassada a nível dos dois estados independentes:

Guiné-Bissau e Cabo Verde, criando-se mecanismos oficiais bilaterais que consigam trabalhar em conjunto na recuperação do património comum.

Amilcar Cabral, e no seu relançamento como CONTRIBUTO para o desenvolvimento dos dois países. Cabral não pode continuar a ser referência de partidos, mas sim de dois povos e países irmãos.

Homenagear Cabral, sim, mas sabendo como, porquê e para quê !


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