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  Cabo Verde
Os relógios, a marcha do tempo e o embaixador dos EUA
- 24-Oct-2004 - 14:12


O embaixador norte-americano, em Cabo Verde, Donald Johnson, chegou ao arquipélago e começou a recuperar relógios de torre, alguns parte da história do arquipélago, que estavam há décadas de ponteiros às avessas com o tempo.


Por: Ricardo Bordalo
da Agência Lusa

Com uma longa carreira na diplomacia dos Estados Unidos, Donald Jonhson tem, igualmente, uma relação muito chegada aos relógios, objectos de que gosta, que estuda e tem procurado coleccionar a partir das múltiplas latitudes percorridas em nome da diplomacia da maior potência mundial.

O diplomata usava, no momento em que conversou com a Agência Lusa, na embaixada dos EUA na capital cabo-verdiana, Cidade da Praia, um Rolex - 1948-49, uma "peça" de interesse óbvio, tal como o "Repetidor de Quarto", um relógio de bolso suíço, de meados do século XVIII, que tem na sua secretária, mas não foi o brilho destes objectos que despertou a curiosidade.

Na sua primeira visita às ilhas cabo-verdianas como embaixador, em Dezembro de 2002, Jonhson passou pela ilha de São Nicolau e, como sempre tem feito, da Irlanda à Mongólia, reparou que o relógio da torre da Igreja de Nossa Senhora do Rosário não estava a funcionar, estava sem dar tempo... há muito tempo.

Mas o pior é que o "belo exemplar" da torre da igreja de São Nicolau estava "a uma volta de ponteiro" para ser trocado por um ordinário relógio electrónico.

Feitas as contas exactas ao tempo que restava de vida daquela "peça", Donald Johnson tentou, num último esforço, ganhar alguns dias para estudar a máquina e averiguar as possibilidades de o salvar.

"Foi fácil - diz com um esgar de satisfação -, o relógio da torre da igreja só precisava de uma limpeza profunda e um jeitinho aqui e ali no mecanismo".

Foi assim que a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São Nicolau, se viu livre do tal relógio electrónico e manteve a sua preciosidade mecânica a marcar o compasso do tempo dos paroquianos.

Este foi o primeiro e desde então, com uma equipa onde diz ser apenas mais um artesão, da qual fazem parte (faz questão de os nomear a todos) Luís Saldanha, Sérgio Mendes, João Teixeira, Henrique Barros, João Andrade e Luís Lubrano, seguiram-se os relógios das torres dos paços do concelho de São Vicente (Mindelo) e Santo Antão (Ribeira Grande) ou da igreja de São Filipe, ilha do Fogo.

Na cidade do Mindelo, depois de 30 anos de abandono, o velho relógio da torre dos paços do concelho, construído em 1873 em Bristol, Inglaterra, limpo da ferrugem e concertado o pêndulo, regressou, porque a restante máquina estava em condições razoáveis, ao seu "métier".

O prémio para este trabalho, simbólico, claro está, conta o diplomata norte-americano, foi quando um transeunte olhou para o relógio da torre e acertou o seu relógio de pulso por este, como se do "alto" não pudessem vir horas más.

O fascínio de Donald Johnson pelo relógios tem o seu pequeno quê de filosófico e, em defesa desta hipótese, mesmo não tendo feito quaisquer anotações à filosofia do "hobby", lembra que um habitante dos confins da China rege-se pelos mesmos elementos temporais que um nova-iorquino ou lisboeta, num "acerto universal" que dá mais coerência ao conceito de humanidade.

Mas nem tudo são rosas, ou, se se quiser, filosofia, e são disso exemplo os quatro meses de árduo trabalho à volta do relógio da torre da igreja de São Filipe, no Fogo, que foi encontrado desfeito em peças num esconso canto do edifício, pronto para acabar num qualquer e inglório caixote do lixo.

"Esta é igualmente uma peça muito boa, talvez, e apenas como hipótese, porque não tem nem data nem nome do fabricante, construído nos EUA nos primeiros anos do século XIX", recorda o diplomata com especial satisfação, tendo em conta que é da ilha do Fogo que são naturais a maior parte dos cabo-verdianos que compõem a comunidade do arquipélago nos EUA.

E complementa com a importância que tem para estas pessoas a igreja de São Filipe e o seu relógio: "Quantas não serão as pessoas que ao longo das décadas não terão olhado para aquele relógio a contar as horas antes da partida, quantos não terão ali pedido as graças divinas para que a viagem fosse de feição às suas expectativas?".

Resta um senão: este relógio está agora à espera que a torre da igreja seja recuperada para poder regressar ao seu lugar.

Ainda sobre a importância que estes relógios têm para as pessoas, e questionado pela Lusa sobre a forma como é encarado pelas populações o trabalho da equipa que integra, Johnson diz que "são os mais velhos que mais se interessam, que mais reagem, que mostram mais emoção".

"Como se o regresso do velho relógio, que os marcou ao longo da vida, lhes desse uma mais fina noção da continuidade do tempo global e do seu tempo em particular, da sua própria vida, em suma", defende.

Pelo meio há também humor encontrado entre os ponteiros recolocados na sua dimensão, como o relógio da torre do edifício dos paços do concelho de Ribeira Grande, peça igualmente recuperada, que chegou a Cabo Verde quando o seu destino inicial era a ilha da Madeira.

"Alguém se terá enganado na origem e trocou Ponta do Sol (Madeira) com Ponta do Sol (Santo Antão), e, naturalmente, quando o relógio chegou à ilha, quem abriu a encomenda deu graças aos céus e terá dito: Deus é bom, este já daqui não sai!".

E não saiu, acabou a marcar as horas em Ribeira Grande, no cimo da torre dos paços do concelho, tendo a sua reparação terminado em Junho deste ano, faltando apenas um novo sino que estava partido.

O que se segue, Donald Johnson não sabe, mas admite que deve haver outras máquinas à espera de serem recolocadas, "acertadas com a marcha do tempo" e para registar numa espécie de diário gráfico das peças recuperadas que o acompanha, feito de desenhos e fotografias.

Por falar na "marcha do tempo" e porque quando se lida com o tempo, "há sempre espaço para contrariar a linearidade que as pessoas julgam estar presente nestas coisas".

Um exemplo disso mesmo: Depois de muitas semanas, dias, horas, segundos à volta do mecanismo do relógio na Ribeira Grande (Santo Antão), depois do meticuloso e aturado trabalho para montar todas as peças e quando a equipa se preparava para esfregar as mãos perante mais um êxito, alguém reparou que os ponteiros estavam... a andar ao contrário.

Tinham invertido, inadvertidamente (sem tempo para pensar na eventual intromissão do subconsciente), a marcha do tempo.


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