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  Entrevista
«Políticos devem pensar num Pacto de Regime», opina o embaixador português
- 29-Oct-2004 - 15:33

Os políticos guineenses têm de se habituar a ter uma nova atitude, que passa por dar maior atenção às grandes questões nacionais e pensar seriamente num Pacto de Regime, defendeu o embaixador de Portugal em Bissau.


Por José Sousa Dias
da Agência Lusa

Numa entrevista à Agência Lusa, António Jacob de Carvalho, que termina hoje o consulado de três anos à frente da missão diplomática portuguesa na capital guineense, sublinhou que é necessário, doravante, uma maior espírito de diálogo entre todos os intervenientes da vida político-social na Guiné-Bissau.

Realçando que não quer interferir nos assuntos internos do país, Jacob de Carvalho, que será substituído já hoje pelo novo embaixador, José Manuel Pais Moreira, disse ter a "sensação" de que existe ainda uma "exclusão", à qual tem de se pôr termo, de grande parte dos políticos no diálogo para encontrar soluções para o país.

"Os políticos guineenses têm de se habituar a ter uma nova atitude perante as grandes questões nacionais, às quais devem prestar uma maior atenção, havendo a necessidade de dialogar no sentido de se encontrar o consenso necessário para se criar um Pacto de Regime", sublinhou.

No seu entender, e segundo aquilo que pôde presenciar no país ao longo dos últimos três anos, essa poderá ser uma solução para acabar definitivamente com as divergências entre políticos e com a consequente instabilidade político-militar que o país atravessa.

Desde que chegou a Bissau, a 14 de Outubro de 2001, Jacob de Carvalho presenciou vários acontecimentos e graves crises no país, tendo destacado a instabilidade política durante o regime do ex- presidente Kumba Ialá, que desembocou no golpe de Estado de 14 de Setembro de 2003.

Depois, seguiu-se o conturbado período de transição, o processo eleitoral e a sublevação de 06 deste mês, factos que, considerou, constituíram momentos "muito difíceis" para a Guiné- Bissau.

"Houve, de facto, muitos períodos de instabilidade no país, que levou também a um exercício diplomático pouco usual. Mas houve o sangue-frio da Embaixada de Portugal em Bissau para ajudar a ultrapassar muitas das crises, através, sobretudo, do apelo ao diálogo", afirmou Jacob de Carvalho.

Para o diplomata português, que vai frequentar agora um curso no Instituto de Defesa Nacional, em Lisboa, aguardando por nova colocação em 2005, Portugal tem tido um papel "preponderante" na ajuda à resolução das diferentes crises.

"Portugal tem sido ouvido nos momentos cruciais e merece todo o respeito e credibilidade de todas as sensibilidades da Guiné- Bissau", destacou, admitindo que aprendeu "muito" na Guiné-Bissau, mas que sabe também que tem "uma certa capacidade para encontrar soluções", pois considera-se uma pessoa "algo criativa".

Jacob de Carvalho afirmou que a sua maior satisfação como embaixador em Bissau passou por isso mesmo, destacando o "empenhamento" da missão diplomática portuguesa, que "permitiu evitar o aprofundamento de muitas crises".

O seu maior receio ocorreu logo após o golpe de Estado de Setembro de 2003, quando o regime de Kumba Ialá foi destituído, antes do início do período de transição.

"Não se sabia quem iria assinar a Carta de Transição Política (mini-Constituição) e houve o receio de as coisas resvalarem para uma crise maior", sublinhou o diplomata português, para indicar que, depois, houve o "alívio" quando o documento foi assinado por quase todos os partidos políticos (e excepção foi o Partido Unido Social- Democrata, de Francisco Fadul).

Outro momento difícil, em que as relações entre os dois países "caíram a pique", teve a ver com o encerramento da delegação da RTPÁfrica em Bissau, facto que sucedeu ainda durante o regime de Kumba Ialá.

"Foram momentos de grande tensão, em que as relações entre os dois países caíram a pique. Mas as coisas acabaram por ser ultrapassadas, embora muito tempo depois", acrescentou.

Sobre o relacionamento com Kumba Ialá, o diplomata português foià diplomata e não se alongou, indicando que, apesar das longas conversas que manteve com o então presidente, tudo era sempre "muito institucional".

Já relativamente ao general Veríssimo Correia Seabra, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) guineense morto no início da sublevação militar de 06 deste mês, Jacob de Carvalho disse tratar-se de um militar "que muita falta irá fazer ao país".

"Qualquer país que tenha pessoas com sentido de responsabilidade, elas fazem sempre falta. E Veríssimo Seabra era uma delas. Era um verdadeiro chefe militar, com ascendente sobre as Forças Armadas. Foi o garante dos equilíbrios que ocorreram em períodos difíceis", sustentou, afirmando ainda lamentar "profundamente" a sua morte.

Quanto ao presidente interino da Guiné-Bissau, Henrique Rosa, o diplomata português considera-o como uma "figura surpreendente" no processo político de transição.

"Não tinha experiência política e desempenha o cargo com todo o bom senso. Sabe ouvir e tem sabido gerir as crises. Além disso, projectou para o exterior a imagem do país, sobretudo o desejo de uma nova Guiné-Bissau", sustentou.

Em relação ao primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, o embaixador português considerou-o um homem "ponderado", que tem uma tarefa "difícil" pela frente e que tem mostrado uma "grande preocupação" em gerir as dificuldades.

Sobre o futuro das relações entre Portugal e a Guiné-Bissau, Jacob de Carvalho garantiu que Lisboa estará sempre disposta a apoiar Bissau, mas sublinhou que tal só acontecerá se as autoridades guineenses assim o quiserem, pois terão de ser elas quem têm de procurar as suas próprias soluções.

António Jacob de Carvalho é natural de Lisboa, onde nasceu a 26 de Abril de 1946 (58 anos), e é licenciado em Ciências Sociais e Políticas pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da capital portuguesa, tendo efectuado uma pós-graduação também em Ciências Políticas na Universidade de Brasília.

Iniciou a sua carreira na diplomacia em 1975 e passou, desde então, pelas missões diplomáticas de Moçambique, Angola, Brasil, Canadá e ainda no Consulado de Goa. Antes de ser colocado em Bissau, foi o primeiro representante português junto da Autoridade Palestiniana.


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