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  Cabo Verde
KuSiMon comemora 10 anos com «Contos da Cor do Tempo»
- 21-Nov-2004 - 18:02

A KuSiMon Editora comemora terça-feira o décimo aniversário da sua fundação, publicando nesse dia o livro "Contos da Cor do Tempo", um conjunto de "estórias" do imaginário guineense, algumas delas já publicadas na imprensa local.


Por José Sousa Dias
da agência Lusa

Paralelamente à cerimónia, que decorrerá no Centro Cultural Português (CCP) de Bissau, será também dado à estampa em território guineense a trilogia do escritor, investigador e empresário Abdulai Silá, intitulada "Mistida", que, em português, significa "necessidade".

"Mistida", obra já traduzida para a Língua Francesa, integra os três romances publicados por Abdulai Silá, também um dos fundadores da KuSiMon Editora, ao longo da década de 1990: "Eterna Paixão" (1994), "A Última Tragédia" (1995) e "Mistida" (1997).

A trilogia foi inicialmente lançada em 2002 em Cabo Verde, através do Centro Cultural Português da Praia e Mindelo, juntando as três obras num só volume, iniciativa levada a cabo pelo então conselheiro cultural da embaixada de Portugal no arquipélago, Luís Mendes Machado, actualmente nas mesmas funções em Bissau.

Em declarações à Agência Lusa, Abdulai Silá lembrou que, apesar das vicissitudes da instabilidade política que assola a Guiné- Bissau desde 1998, a KuSiMon já editou mais de 25 obras literárias, embora reconheça que cerca de 90 por cento tenha "saído da cabeça" dos três fundadores.

"Mas foi essa mesma a intenção, uma vez que o vazio que então existia não permitia dar vazão aos nossos escritos", explicou, adiantando que, no prelo, estão já mais algumas obras, que só a falta de financiamento tem impedido a publicação.

Natural de Catió, sul da Guiné-Bissau, onde nasceu em 1958, Abdulai Silá estudou em Dresden, na extinta República Democrática Alemã (RDA), onde se licenciou em Engenharia Electrotécnica, e é um dos fundadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP).

A KuSiMon, que em crioulo significa "com a sua mão", é um curioso anagrama das duas primeiras letras dos apelidos dos três fundadores: o investigador togolês Fafali KUdawo, o escritor guineense Abdulai SIlá e a socióloga chilena Teresa MONtenegro.

Kudawo, que tirou o mestrado em Sociologia, reside na Guiné- Bissau desde 1990, quando chegou à capital guineense como funcionário das Nações Unidas. Viu, gostou e ficou e hoje, além da editora, chefia um semanário de informação geral intitulado "Kansaré", o nome de uma entidade fantástica ligada à etnia "papel".

O investigador togolês tem várias obras técnicas e sociológicas publicadas na Guiné-Bissau, destacando-se, entre elas, estudos sobre a etnicidade do país, assunto que domina e que centra a maior parte dos seus textos no semanário que dirige.

Há mais tempo no país, desde 1977, está a também socióloga chilena Teresa Montenegro, refugiada política que encontrou na Guiné- Bissau o país para fugir ao regime ditatorial de Pinochet.

"Tété", como é conhecida em Bissau, tem-se dedicado à herança cultural oralizada da Guiné-Bissau, tendo publicado já vários contos que reflectem essa realidade em mais de uma dezena de pequenos livros, numa edição bilingue em crioulo e francês.

E foi das suas mãos que surgiu também "Contos da Cor e do Tempo", uma antologia que congrega uma dúzia de contos, na sua maioria inéditos.

"São 12 contos ®KuSiMon¯ da cor do tempo. Uns opacos, outros diáfanos, com muito verde e algum lixo pelo meio. Mas todos com um olhar posto aqui, onde foi plantada a árvore do umbigo", explicou à Lusa Teresa Montenegro.

Sobre a trilogia "Mistida", Teresa Montenegro, que prefacia também a obra, considera-a uma "ficção", mas que reflecte a "flagrante crise de sentidos que percorre globalmente o mundo actual", com as personagens a funcionarem como "anti-heróis" e "figuras de rua", assumindo, assim, a "precariedade do quotidiano, dando voz aos mudos".

A editora guineense foi criada em Maio de 1994 e deveria ter comemorado o 10º aniversário naquela data, mas o rescaldo da polémica em torno das eleições legislativas de fins de Março inviabilizou qualquer cerimónia oficial, pois a tensão político-militar era muita.

À KuSiMon se deve o "boom" literário registado em meados da década de 1990 na Guiné-Bissau, onde, até então, o panorama era desolador para um país já com quase duas décadas de independência.

Até então, apenas Domingas Samy se "atrevera" a escrever em prosa - "A Escola", um livro de 78 páginas contendo três contos saído em 1993 -, rompendo com a tradição da poesia militante que caracterizava o panorama literário local.

Com a publicação de "Eterna Paixão", em 1994, Abdulai Silá tornou-se o primeiro escritor guineense a editar uma obra totalmente dedicada à ficção, abrindo caminho a outros autores, não sem antes publicar os dois romances seguintes.

Para trás ficavam, assim, 20 anos de vazio, onde os livros técnicos e profissionais e as antologias poéticas - apenas dois autores publicaram, a "solo", outros tantos livros de poesia - eram as únicas referências.

À excepção das antologias poéticas, Vasco Cabral foi o primeiro a aventurar-se "a solo", ao publicar, em 1981, "A Luta é a Minha Primavera", a que se seguiu Hélder Proença que, no ano seguinte, deu à estampa "Não Posso Adiar a Palavra", duas obras "militantes", reflexo do regime de partido único de então.

Com a KuSiMon aventurou-se também o próprio INEP que, a partir de 1996, começou a dedicar-se à publicação de obras inéditas, mas também ligadas maioritariamente à poesia, quebrando a tradição dos livros de cariz mais técnico.

"A Guiné-Bissau é um país de poetas", confessou em tempos à Lusa um dos mais destacados escritores, poetas e jornalistas do país, António Soares Lopes Júnior, conhecido popularmente por Tony Tcheka, que, em 1996, viu editada a sua obra poética intitulada "Noites de Insónia em Terra Adormecida".


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