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A balantização, ou o fomentar inconsciente do tribalismo na Guiné-Bissau
- 12-Dec-2004 - 22:01


Confesso que me sinto preocupado com o alastrar da denominação "balantização", não pela visibilidade do apontar do dedo quer ao regime governativo de Kumba Yalá, quer à hierarquia militar que "controla" o poder na Guiné-Bissau. A preocupação reside essencialmente na forma como toda uma etnia, por sinal a maior do país, é conotada com problemas que foram ou estão sendo criados por algumas pessoas que pertencem de facto à etnia balanta, mas que, por terem estado ou estando no poder, não representam a cultura, o carácter e fundamentalmente a identidade balanta.


Por Fernando Casimiro (Didinho)

Como todos nós guineenses sabemos, a etnia balanta foi a que mais meios humanos disponibilizou durante a luta de libertação nacional, assim como as populações balantas foram as mais sacrificadas pelos bombardeamentos da aviação e tropa portuguesas.

Quando Amilcar Cabral decidiu enveredar pela luta armada, posicionou estrategicamente as "pedras" que seriam basilares para o arranque e a manutenção duma guerra que poderia durar anos. Nessa estratégia, a situação geográfica da Guiné foi preponderante, tendo a distribuição populacional a outra parte da importância na efectivação da luta armada.

Falar da luta de libertação nacional é falar do desempenho de todos os guineenses, com maior ou menor participação. Entretanto, não é demais reconhecer que proporcionalmente, os balantas foram os elos em maior número, numa corrente que nem sempre teve um balanta como elo mais forte.

A população balanta reconhecidamente dedicada às bolanhas, cultivando a base alimentar do povo guineense, que é o arroz, prestou apoio ímpar na logística do PAIGC, pois Cabral, melhor do que ninguém, sabia onde estava o sustento da luta.

De compleição física robusta, a população balanta apresentava uma outra particularidade benéfica para a luta armada: o ser animista. O animismo, sendo uma crença, a meu ver não é uma religião, facto que dispensa o seguimento praticante da religião católica ou muçulmana, por exemplo, que na maioria das situações poderia influenciar negativamente as operações militares elaboradas.

A fidelidade foi outro dos atributos encontrados por Amilcar Cabral na etnia balanta, durante os contactos que manteve com as populações da Guiné, na sua função de agrónomo, mas já com o espírito da libertação em mente.

Amilcar Cabral, soube contudo gerir esta situação de dependência étnica, transformando-a numa força nacional, que daria frutos ao longo de onze anos de luta armada e que culminaria com as independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

Se por um lado a participação musculada dos balantas no processo de libertação nacional é reconhecida, não deixa de ser também verdade que o etnocentrismo nunca fez parte da definição étnica dos mesmos.

Quando o PAIGC proclamou unilateralmente a independência da Guiné-Bissau em 24 de Setembro de 1973, festejou-se a criação de um país, cujo povo era o povo guineense e não balanta.

Não estava em causa quem iria dirigir o país, pois todos estavam reunidos à volta dos mesmos ideais. O PAIGC tinha as suas estruturas bem organizadas e hierarquicamente tudo estava definido, mesmo com a morte de Cabral a 20 de Janeiro do mesmo ano.

Com a revolução do 25 de Abril e a queda do regime fascista, Portugal reconheceu oficialmente a independência da Guiné a 10 de Setembro de 1974. Quando o PAIGC formou o 1º governo para a Guiné-Bissau, fê-lo colocando para além de cidadãos nascidos na Guiné, indivíduos nascidos em Cabo Verde. Até aqui tudo bem, porque havia o princípio da unidade da Guiné e de Cabo Verde.

Entretanto, Cabo Verde tornou-se independente a 5 de Julho de 1975 e no seu elenco governamental não fazia parte nenhum cidadão nascido na Guiné-Bissau.

Etnicamente falando, os balantas estavam agrupados nas FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo) e o comandante Paulo Correia , era o único rosto balanta ministeriável. Estava-se ainda em período de festejos, de matar saudades entre pessoas que não se viam há anos devido à guerra.

Os combatentes tinham chegado à capital, os mais ilustres deixando para trás, lá nas tabancas das zonas libertadas, as suas companheiras dos anos de luta. As suas companheiras maioritariamente balantas, muitas com "rebentos" de uma relação que sempre prometera, mas que nunca fora reconhecida....

Novas vidas, novos valores, novos horizontes surgiram com a instalação das novas estruturas do poder. Socialmente, o rotular depreciativo em relação às origens étnicas foi desaparecendo e com ele, os conceitos de civilizado e gentio, conceitos esses introduzidos e fomentados pelo colonialismo, tendo por argumento o cristianismo.

Esta mudança de atitude foi em parte, fruto de compromissos imediatos de interesses, nomeadamente, os inúmeros casamentos dos " homens do poder " com mulheres oriundas da chamada classe civilizada. Foi assim que se juntaram etnias e povos de diferentes origens, culturas e credos.

Num país pequeno e onde quase todos se conhecem ou são " parentes ", a influência do poder na esfera social tende a caracterizar-se de forma negativa a partir do momento em que o interesse nacional começa a ser ultrapassado, em detrimento de causas pessoais, que se ramificam ao proteccionismo do relacionamento familiarizado, consequente das várias ligações pessoais existentes.

São estes desvios, o ponto de partida para o descontentamento e consequente atribuição de juízos de valores, que numa primeira fase atribui desígnios de forma pejorativa quer a nível étnico, rácico, ou religioso, como reflexo da avaliação de quem governa.

Foi assim que, com Luís Cabral, como primeiro presidente da Guiné-Bissau, se fomentou a teoria dos "burmedjus" (mestiços, mulatos), como forma de caracterizar um certo favorecimento a pessoas duma origem definida , neste caso, os caboverdianos. Ora, se o favorecimento é condenável, não menos condenável se torna, o associar de forma generalizada, das populações, ou povos postos em causa e que nunca beneficiaram com qualquer tipo de favorecimento.

Esta infidelidade de princípios levou a que se "cozinhasse" o primeiro golpe de Estado na Guiné-Bissau (14 de Novembro de 1980) denominado movimento reajustador. O golpe de Estado foi justificado timidamente, com a necessidade de acabar com as matanças, o nepotismo, promover a concórdia nacional, entre outros argumentos. A nível internacional foi visto como uma tomada forçada do poder, por pessoas que se julgavam mais legitimadas para estarem à frente dos destinos do país, dada as suas origens e convicções de serem os puros guineenses.

Nino Vieira assumiu os destinos do país embora mantendo alguns caboverdianos na estrutura do poder por razões de conveniência. Notou-se durante muito tempo que se respirava um ar pesado, discriminatório até, pelos discursos inflamados da culpabilidade de todos os problemas do país, aos " burmedjus ".

O tempo encarregou-se entretanto de desanuviar a situação, mercê do discurso arrogante e descabido de que, finalmente o país estava entregue aos seus legítimos filhos.

Estava-se a criar condições para que a identidade guineense passasse a ser posta em causa.

Estava-se a criar condições para que, irmãos saídos da mesma mãe, mas que devido aos contratempos da vida não eram filhos do mesmo pai e vice-versa, passassem a ser diferenciados quanto ao conceito de cidadão guineense ora sustentado, ainda que não declaradamente assumido

Os balantas, a exemplo de outros tempos e em relação às Forças Armadas, continuaram sempre em maior número, tendo-se mantido sempre fiéis às estruturas de comando.

Esta entrega, era consequência da aprendizagem que ainda vinha dos anos da luta armada e em que, ninguém era posto em causa pela sua origem étnica, naturalidade ou religião. Todos estavam reunidos à volta duma causa comum, que era a independência. O Nacionalismo resumia-se à Guiné-Bissau e assente no orgulho em ser-se guineense.

É no período da presidência de Nino Vieira que se começa a notar o mal estar nas Forças Armadas.

Já se falava na altura em reformas nas Forças Armadas, mas não havia diálogo que pudesse dar voz aos interessados directos nessas pretensões. Nino Vieira sabia que havia necessidade de renovar tanto as Forças Armadas como o aparelho do Estado. Havia pressões internacionais para isso e foi ele quem começou a pôr em prática essas inovações. Só que fê-lo de forma prepotente e arrogante, desprezando e humilhando os seus antigos camaradas de armas e de partido. Torturando e executando camaradas de longa data, na perspectiva de ser só ele, o dono das verdades e dos segredos da luta. De ser só ele, dono do país que é de todos nós.

Se a nível do aparelho do Estado era fácil contornar a situação ( através de decretos), a nível da forças armadas o problema era melindroso.

Melindroso porquanto se mantinha o monopartidarismo e as Forças Armadas faziam parte do partido no poder, o PAIGC.

Reformar as Forças Armadas significava reformar o próprio PAIGC. Esta era a " pedra no sapato".

O PAIGC passara a ser propriedade de Nino Vieira e não havia necessidade de reformar o partido porquanto estar à altura e imagem do seu "dono". Entretanto, era necessário arranjar argumentos que fossem legitimar movimentações nas estruturas das Forças Armadas, sem alterar a componente orgânica do PAIGC.

É neste período que se começa a fomentar a tese que aponta para o perigo de se ter nas Forças Armadas um quadro de efectivos maioritariamente pertencentes à etnia balanta. Já se tinha perdido a memória de que eram esses mesmos efectivos maioritariamente balantas a estarem à frente nas linhas de combate. Já se tinha perdido a memória de que o PAIGC e o país, nunca tinham funcionado por quotas de participação étnica.

Nino Vieira alimentou esta tese porque sabia que também ele poderia vir a ser derrubado por um golpe de Estado. Ele tinha-se transformado num verdadeiro ditador!

Os companheiros de armas durante a luta pela independência e que o colocaram no poder com o golpe de 14 de Novembro de 1980, tinham a força do poder militar para o derrubarem quando bem entendessem. E esses companheiros, eram na sua maioria balantas.

Para contrariar esta possibilidade, Nino Vieira utilizou a velha tese colonial de dividir para melhor reinar.

Criou e instrumentalizou grupos, fomentando divisões étnicas que fossem enfraquecer as estruturas militares, na tentativa de melhor dominar as forças armadas.

Foi assim que em 1985, se deu a conhecer ao país uma tentativa de golpe de Estado, que ficou conhecida como o "Caso 17 de Outubro", ou ainda, como "A rebelião dos balantas". A autoria moral desta tentativa de golpe de Estado foi atribuída a altas figuras militares e civis, pertencentes maioritariamente à etnia balanta, com destaque para o comandante Paulo Correia e para o jurista Viriato Pã. O grupo foi julgado pelo Tribunal Militar, que condenou à morte as suas principais figuras. Foram fuzilados em 1986, apesar de vários pedidos de clemência por parte da Comunidade Internacional. Os fuzilamentos abriram feridas no seio das forças armadas e na própria população guineense.

Nino Vieira, ciente do perigo que corria, apostou no reforço dos Serviços de Segurança do Estado (Secreta: militar e civil), como forma de controlar os movimentos previsíveis de revolta, face aos fuzilamentos ocorridos.

Até 1990, ano da abertura ao multipartidarismo (exigência da Comunidade Internacional), foram presos, torturados e mortos muitos cidadãos guineenses, militares e civis, por alegadamente serem da etnia balanta e por conseguinte, serem vistos como seguidores do grupo do comandante Paulo Correia.

Não se podia dizer que estávamos perante uma tentativa de limpeza étnica, mas sim perante uma jogada de interesses com a mais que evidente luta pela manutenção do poder por parte de Nino Vieira, que por um lado eliminava os seus rivais directos, balantas, por exemplo e, em simultâneo, promovia outros valores, também balantas, com o objectivo de: por um lado, acabar com o rival entretanto já eliminado (morto) e por outro lado, não ficar mal visto pelas ondas de solidariedade étnica que essas eliminações criavam.

Daí, promover outros balantas, que à partida ficavam sempre "gratos" com a promoção do "Chefe", como era tratado e por isso lhe juravam fidelidade.

As pressões internacionais com vista à abertura democrática no país serviram para que a Constituição fosse revista em 1991, permitindo a legalização de partidos políticos.

Em 1994 foram realizadas as primeiras eleições legislativas e presidenciais, que deram a vitória ao PAIGC e a Nino Vieira.

A disputa das eleições presidenciais teve a particularidade da união dos votos da oposição para um candidato de etnia balanta, Kumba Yalá.

Kumba Yalá, que tinha sido militante do PAIGC, aproveitou a liberalização democrática para criar o seu próprio partido, o PRS (Partido da Renovação Social), a exemplo do que muitos jovens com filiação partidária no PAIGC, na altura em regime de partido único, também resolveram fazer.

Kumba Yalá, ao conseguir reunir toda a oposição à sua volta e, apesar de ter perdido as eleições presidenciais para Nino Vieira, despertava ainda assim, esperanças de mudança na vida política guineense, bem como tornava-se incómodo para Nino Vieira.

Terminado o acto eleitoral e a tomada de posse do primeiro governo e presidente, eleitos democraticamente, Nino Vieira, voltou à posição de força, na tentativa de se impor como dono da Guiné-Bissau.

As Forças Armadas, apesar de teoricamente passarem a ser republicanas, desmarcando-se do PAIGC, como era até então, nunca tiveram a reestruturação ou reforma de base, que as pudesse enquadrar no contexto multipartidário que o país já vivia. À sua maneira, gosto e prazer, Nino Vieira foi mexendo e remexendo na estrutura militar, criando instabilidade no seu seio.

Tal como com Luís Cabral, também a Nino Vieira se atribuíram favorecimentos a grupos de cidadãos, designados como "guintis di praça- gente da praça", mas que curiosamente não discriminavam a origem rácica, étnica ou religiosa desses grupos, apesar de "localizados".

Em 1998, uma disputa de interesses, consequentes do alegado caso de venda de armas aos independentistas de Casamance, provocou a substituição do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, Ansumane Mané.

Esta substituição, fez com que Mané reunisse à sua volta os militares descontentes com Nino Vieira, começando assim uma revolta militar para o derrubar.

A Guiné-Bissau viveu onze meses de guerra civil, que teve como desfecho final, a queda de Nino Vieira e o seu exílio para Portugal.

Mais uma vez o país vivia a euforia de uma vitória. Mais uma vez, as Forças Armadas estavam em cena como salvadores da pátria. Mais uma vez, não havia referência explícita à origem étnica dos militares. Falava-se do país, a Guiné-Bissau. Falava-se em nomes, consoante o destaque dado a cada pessoa. Não havia elogios nem juízos particulares a nenhuma etnia. O espectro do tribalismo era político e não estava enraizado na sociedade.

Formou-se um governo de Unidade Nacional, tendo sido indigitado como Presidente interino: Malam Bacai Sanhá e como Primeiro Ministro: Francisco José Fadul.

Foram convocadas e realizadas em 1999, eleições presidencias e legislativas, apoiadas pela Comunidade Internacional.

Nas legislativas, o PRS, de Kumba Yalá conseguiu a vitória, formando um governo de coligação com a RGB/BAFATÁ.

As presidenciais, obrigaram a uma segunda volta em Janeiro de 2000, que daria a vitória a Kumba Yalá, que derrotou o candidato do PAIGC, Malam Bacai Sanhá.

Nesta altura, ninguém falava de balantização, ninguém atribuía a designação de partido balanta ao PRS. Como nota digna de registo, ficavam os resultados que davam a vitória ao PRS nas legislativas e, ao seu candidato Kumba Yalá, nas presidenciais.

Não foram os votos particulares da etnia balanta que proporcionaram essa dupla vitória. Foram os votos de um maior número de guineenses, ávidos de mudança, numa manifestação expressa de romper com o passado representado pela entidade política denominada PAIGC.

Formado o governo, conferidas as posses, ninguém questionou o valor da equipa governamental e muito menos se teve a curiosidade de se contabilizar as "quotas de proveniência étnica" dos titulares dos cargos governamentais. Mais uma vez se constatava que o factor tribalismo não estava enraizado na sociedade.

Entretanto, a coligação governamental, fruto de divergências motivadas por desconfianças políticas, desfez-se, criando a primeira crise política pós-eleições.

O PRS, continuou, sozinho a política de governação que o mandato lhe conferia.

A situação política no país estava envolta num paralelismo de autoridade, porquanto, a Junta Militar que depôs Nino Vieira, se posicionar ilimitadamente como órgão do poder, sendo o seu líder, o Brigadeiro Ansumane Mané, equiparado ao Presidente da República e os seus colaboradores mais próximos, equiparados a Ministros...

Era óbvio que essa situação não se poderia manter por tempo indeterminado, pois as instituições estatais já estavam em funcionamento e o poder militar teria que se subordinar ao poder político.

Aqui voltou-se à situação melindrosa de se lidar com os militares.

Os mesmos militares que tinham possibilitado a mudança, com a queda de Nino Vieira. Os mesmos militares que tinham afirmado não terem apetência pelo poder, estavam a condicionar o normal funcionamento das instituições nacionais. Esses mesmos militares, estavam a querer defender os seus interesses, servindo-se do país, em vez de continuarem a servir o país.

Rapidamente se instalou um mal estar entre o Presidente democraticamente eleito, Kumba Yalá e a Junta Militar chefiada pelo Brigadeiro Ansumane Mané.

É aqui que começa outro capítulo de retrocesso, na tão esperada mudança rumo à estabilidade e ao desenvolvimento.

É aqui que politicamente se inicia mais uma caracterização social em relação a uma governação, com atribuição generalizada à componente étnica, dos intervenientes directos no processo.

Kumba Yalá, que estudara bem a lição da relação do poder entre a estrutura militar e a classe política, arrisca o tudo ou nada para, a exemplo de Nino Vieira, conseguir dividir os militares.

É assim que, numa jogada demagógica e oportunista promove os mais altos oficiais da Junta Militar a postos de General, Comodoro, Capitão de Mar e Guerra, Tenente Coronel, etc.

Ansumane Mané, líder da Junta Militar, não gostou, porquanto defender que o país não tinha condições para ter tantos Generais. Num acto de demonstração de autoridade, Mané retirou os galões dados por Kumba Yalá aos militares ora promovidos.

Este gesto, foi o princípio do fim de Ansumane Mané.

De líder da Junta Militar, Mané passou a ser visto como um obstáculo à democratização do país. Kumba Yalá, de forma sagaz, voltou a jogar outra cartada decisiva, nomeando Veríssimo Correia Seabra, como Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas em detrimento de Mané.

Ansumane Mané, ao tomar conhecimento da situação, deu ordens para a prisão de Veríssimo Seabra, auto proclamando-se de seguida Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Este no entanto, conseguiu ludibriar a segurança que o vigiava, tendo fugido e começado a preparar a operação de caça a Mané.

O país voltou a conhecer nova agitação político-militar, que culminaria com a morte em combate, de Ansumane Mané e outros seus seguidores a 30 de Novembro de 2000, conforme anunciado oficialmente, pese embora contradições sobre a forma como ocorreram, bem como a data da ocorrência das mesmas. Esta agitação provocaria também a prisão de inúmeros militares, de etnia mandinga, muçulmanos e fiéis a Ansumane Mané, também ele de etnia mandinga e muçulmano.

Tal como aquando das mortes de Paulo Correia e Viriato Pã, entre outras figuras acusadas de tentativa de golpe de Estado no regime de Nino Vieira, a morte agora anunciada de Ansumane Mané sensibilizou parte do país, independentemente da proveniência étnica ou religiosa de cada um.

Kumba Yalá sentiu isso e optou por reunir a Comunidade Islâmica do país, para dar conta de que não estava em curso nenhuma perseguição étnica ou religiosa no país, tendo conseguido, com este gesto, diluir a tensão criada pelo caso Ansumane Mané.

O país, aparentemente voltou à calma. Kumba Yalá, tinha caminho livre para presidir, tendo garantido o apoio das estruturas militares que se posicionaram a seu lado na disputa com Mané.

Esta garantia, seria utilizada no entanto como uma barreira aos princípios da democracia, porquanto haver cumplicidade entre o poder político, através de Kumba Yalá, o governo do seu partido, o PRS e a estrutura militar do país.

Esta cumplicidade serviu para intimidar a classe política na oposição, bem como a sociedade civil. Uma situação típica dos regimes ditatoriais.

As estruturas militares, continuavam a ser maioritariamente representadas por elementos da etnia balanta, embora a chefia estivesse entregue a um não balanta, Veríssimo Seabra, que servia no entanto, os interesses de Kumba Yalá e dos demais actores em cena.

O país viveu momentos complicados durante o período em que este "casamento" durou.

Os atropelos, sendo mais visíveis a nível da presidência e do governo, também se manifestavam a nível de movimentações das altas patentes militares.

Kumba Yalá, que frequentemente utilizava discursos e gestos demagogos, sabia precisamente como e quando actuar. Contrariamente ao que se pensa e se diz de Kumba, a minha análise mostra-me uma pessoa de uma inteligência rara, no sentido do mal é claro, que quase conseguia destruir um país e o seu povo. É preciso reconhecermos que a inteligência não está confinada só ao mundo do bem.

Ao dar mostras de prepotência, arrogância e acima de tudo, ao transformar-se em ditador, Yalá estava a provocar reacções na classe política e na sociedade civil guineense. Estas reacções contudo, fruto de uma análise político-social, incoerente, iam ao encontro da desgovernação e da destruição do Estado.

Politicamente, a oposição lançou-se numa campanha de acusação de etnização do regime, como pretexto para denegrir a imagem de Kumba Yalá e do PRS, afim de os derrubarem. Dentre alguns exemplos: Designar o PRS, partido no poder, como sendo o partido dos balantas. Contestar nomeações de indivíduos de etnia balanta para os mais altos cargos das instituições do Estado.

Se o país teve entre 2000 e 2003, quatro Primeiros Ministros, sendo que 3 com filiação partidária no PRS e 1 independente. Se 3 destes Primeiros Ministros eram de etnia balanta e 1 não balanta. Se nos vários governos formados, também houve um reforço de representação étnica, nas instituições do Estado e apesar de se reconhecer a tendência de uma etnização do poder, não se teve o cuidado ao se lidar com o assunto. Rapidamente se estabeleceu um paralelo entre quem governa e detém o poder: Kumba Yalá, PRS e as hierarquias militares, com toda uma população digna e merecedora de respeito, qual as demais populações e etnias, que representam o povo guineense.

Kumba Yalá, arguto como sempre, foi encontrando nessas reacções as saídas para a sua estratégia de (des)governação. Não era por acaso, que ao usar o barrete vermelho, um dos símbolos da identidade balanta, estava a querer conquistar o apreço e a simpatia da população balanta, de forma a que fosse reconhecido como a principal figura balanta do país e, por conseguinte, desmarcar-se da própria tradição balanta que confere o reconhecimento de autoridade, a nível da sua etnia, pela longevidade das pessoas. E Kumba Yalá, na etnia balanta não podia assumir esse protagonismo.

Sabia que aos olhos da Comunidade Internacional estas acções não passavam despercebidas. Mas sabia também que, conseguindo dividir a oposição política, estaria a prolongar a sua governação. É que, paradoxalmente, os partidos da oposição, esqueciam-se de que no seu seio muitos dos seus militantes, eram de etnia balanta e ao conotarem o sistema com motivos e factores étnicos estavam a incluir os seus próprios militantes neste jogo de interesses.

Isso interessava a Kumba Yalá, que transformava esse deslize grave, (que se ramificou pelo país, ainda que não tendo atingido extremismos acentuados) numa vitimização do seu regime, alegando a existência de campanhas contra a etnia balanta.

Enquanto se assistia a toda esta instrumentalização politica, o país decrescia, cada vez mais, com as instituições do Estado a serem praticamente controladas pela pessoa de Kumba Yalá.

O poder militar, que nunca deixou de existir e, que fruto do "casamento" de interesses com Kumba Yalá, tinha as suas "contas em dia", suportava as ameaças, as ilegalidades e os abusos com que Kumba Yalá frequentemente brindava o país, bem como a Comunidade Internacional.

A Guiné-Bissau estava agonizante! E a grande verdade do momento era que, só quem estava no poder, civis e militares, é que estavam bem. A maioria da população balanta continuava a sua vida de sacrifício, tal e qual as restantes etnias que formam a diversidade étnica do país.

Num golpe de Estado institucional, Kumba Yalá decide dissolver a Assembleia Nacional Popular, convocando eleições antecipadas.

Os partidos na oposição, desejosos de "ajuste de contas" no processo eleitoral que viesse a ter lugar, cedo começaram a aplaudir a iniciativa.

Com tantos adiamentos, com tanta jogada suja nos bastidores, tanto por parte de políticos, militares e até agentes estrangeiros interessados, as eleições foram uma miragem...

Entretanto, um golpe de Estado a 14 de Setembro de 2003, com características de uma peça de teatro, pôs termo à presidência de Kumba Yalá e ao desgoverno do PRS.

Um golpe que mostrou nos seus primeiros dias, a ganância pelo poder, das altas patentes militares, com a figura do General Veríssimo Seabra a auto proclamar-se Presidente da Guiné-Bissau.

Valeu a pronta intervenção da Comunidade Internacional, particularmente da CEDEAO, da CPLP e das Nações Unidas, que exigiram uma fase transitória para o país, bem como o respeito pelas regras do Direito Internacional e a marcação de eleições legislativas e presidenciais.

A estrutura militar que derrubou Kumba Yalá, criou um comité "ad-hoc" entre personalidades civis e militares, que desse seguimento a esses imperativos. Coube ao Bispo de Bissau, D. José Camnate Na Bissim, liderar este comité, que teria entre outras funções, a escolha e proposta do nome do Presidente da República, interino.

D.José Camnate Na Bissim, de etnia balanta, escolheu, propôs e fez prevalecer o nome de Henrique Pereira Rosa, não balanta, para o cargo de presidente interino.

O Comité Militar decidiu por sua vez, que António Artur Sanhá, do PRS, ocupasse o cargo de Primeiro Ministro.

Se o nome de Henrique Rosa foi consensual, o de Artur Sanhá foi polémico, acabando por ser oficializado, porquanto, uma vez mais, se utilizar de forma inaceitável, a questão étnica como factor de equilíbrio entre o poder político e o poder militar assumido no país. Os militares exigiram um nome balanta, por forma a haver um elo de ligação entre o governo e as Forças Armadas.

Os passos com vista à normalização política foram sendo dados, tendo a Comunidade Internacional feito a sua parte no processo, disponibilizando ajudas que possibilitaram a realização de eleições legislativas em Março de 2004, estando agendadas para Abril/Maio de 2005, as presidenciais.

As eleições legislativas, ganhas pelo PAIGC, decorreram num clima de afrontamentos, intimidações e provocações, com referências tribais acentuadas e fazendo temer uma nova guerra civil no país. Uma vez mais, a Comunidade Internacional, através da CEDEAO, da CPLP e das Nações Unidas, teve que intervir, para que os ânimos se acalmassem e os resultados das eleições fossem aceites por todas as forças políticas participantes. Foram negociações difíceis, mas, felizmente frutuosas.

O PAIGC foi chamado a formar governo e assim se deu o primeiro passo para o normal funcionamento e relançamento das instituições nacionais.

A Assembleia Nacional Popular retomou as suas sessões, possibilitando o debate político nacional entre os partidos. Entretanto, continuou notório o espírito de manipulação para questões tribais, sendo nota de discurso de quase todos os partidos, apesar de formas distintas de abordagem.

O país foi contudo, oscilando e passando por convulsões até ao dia 6 de Outubro de 2004, dia em que uma revolta militar provoca a morte do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, General Veríssimo Seabra e do Chefe da Divisão dos Recursos Humanos das Forças Armadas, Coronel Domingos Barros.

Os militares estavam nas ruas, eram na sua maioria balantas... Os balantas tinham dado golpe de Estado! Era esta a nota dominante, sem contudo se lembrar que Domingos Barros era balanta, bem como outras altas patentes que tiveram que se refugiar em representações diplomáticas estrangeiras em Bissau, pertenciam à etnia balanta...

Uma vez mais, não se soube distinguir entre os que estão no poder e beneficiam dele, generalizando-se acções e posturas à própria sociedade. Uma vez mais, não se trataram as pessoas pelos nomes, mas sim pela caracterização étnica, quando somos um país: Guiné-Bissau, um povo: guineense, com toda a nossa riqueza expressa na abrangência da diversidade que a própria História nos reservou.

O que se passou no dia 6 de Outubro de 2004, mais do que uma revolta militar, é uma advertência aos efeitos da manipulação étnica que o país tem vivido. Esta manipulação étnica e, contrariamente à tese apresentada por muitos, não se resume única e exclusivamente aos políticos. A meu ver, os políticos e os militares têm responsabilidades directas, por fomentarem, ainda que de forma inconsciente, o tribalismo na Guiné-Bissau. Entretanto, a responsabilidade de conduta maior, cabe ao povo guineense. Como dizia Cabral, temos que pensar pelas nossas próprias cabeças... Se assim fizermos, daremos conta do perigo que é o tribalismo. Daremos conta de que o país precisa de resolver os problemas que tem e não criar outros, que podem perigar a própria existência do povo que nós somos.

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